Amar-nos

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Viver em função das expectativas dos outros é dos comportamentos mais tóxicos que podemos assumir ao longo da vida. Aprendemos a viver com aqueles que amamos, e acredito que aqueles que amamos também em função do seu amor por nós, nos vão querendo orientar para fazermos determinadas escolhas e sermos determinadas pessoas. E isto porque nos amam, porque acreditam saber o que é o melhor para nós e acima de tudo porque também eles nos querem bem e felizes. E se nos querem ver felizes e enquadrados numa sociedade com sucesso vão-nos dizendo ao longo da vida o que temos de fazer, o que é importante, que escolhas são as melhores e como nos devemos comportar. Até aqui tudo bem! Esta é a base de qualquer educação: proteger, orientar e amar, sendo a influência da mesma na forma como nos relacionamos com os outros imensa.  No entanto, é tão importante tudo isto como crescer com a ideia clara que o amor não é proporcional às escolhas nem vem do cumprimento de se fazer o esperado. O amor, em si, não se mede nem se quantifica, e crescer com a ideia de ter de escolher determinados caminhos para garantir o amor dos que amamos, é de facto muito tóxico. O amor é o amor, quer façamos o que os outros querem ou não. 

Quando vivemos de acordo com aquilo que acreditamos ser importante para os outros vivemos com necessidade de reconhecimento, validação e de amor. Escolhemos assim corresponder às expectativas para garantir que continuam a gostar de nós, que continuamos a pertencer a um sítio, que somos boas pessoas e “normais”. E é aqui que a toxicidade aumenta, quando deixamos de escolher em função do que realmente gostávamos para escolhermos em função do que garante o amor e a presença dos outros na nossa vida. E desta forma vivemos a vida que escolheram para nós ou nos disseram que tínhamos de viver, invalidando aquele que é o nosso maior poder: o poder de escolha. Escolher significa assumir responsabilidade por aquilo que queremos, pelos riscos que podemos correr e viver não pela pauta da normalidade mas pela melodia do que sentimos ser, e isto pode significar viver uma vida diferente daquela que desenharam para nós.  

Em função disto muitas vezes escolhemos caminhos profissionais que não gostamos, criamos um projeto familiar com o qual não nos identificamos, mantemos relações que nos fazem sentir muito mal e que estão longe de ser saudáveis, desejamos determinado estatuto e reconhecimento, não damos opinião ou vivemos exclusivamente com a dos outros e vivemos para agradar e não para nós. Este desejo de agradar para receber amor e atenção, amplamente fundamento na nossa cultura e na forma como continuamos a educar as gerações mais novas, colocam-nos como adultos em caminhos árduos, onde sentimos que temos de escolher em função dos outros para garantirmos o  seu amor. E se estes outros nos primeiros anos de vida são os pais, que se podem manter até ao fim da vida, vão sendo posteriormente os amigos, namorados e namoradas, professores, colegas de trabalho e por aí fora. Quando crescemos desde cedo a acreditar que temos de seguir as pegadas que nos indicaram ou as que vimos serem dadas para sermos validados e amados, e acreditamos profundamente nesta ideia, vivemos uma vida fora do que nos faz sentir, sentido e de longe da nossa saúde mental. 

É fundamental repensar na forma como estamos a viver, o que desejamos mesmo, com que intenção e acima de tudo questionar o que significa o amor e em que medida nos violentamos muitas vezes para o garantir assumindo uma vida que nos retira saúde e o tal amor também. E isso porque, quando escolhemos viver de acordo com os outros nunca vamos viver verdadeiramente relações de amor, a começar pela nossa com o nosso amor-próprio.

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