“O futuro passa por comparticipar o apoio a idosos, no seu domicílio”

Beatriz Pires, responsável pela Avós e Netos, dá uma entrevista à Valor Magazine, numa altura em que a empresa pela qual é responsável celebra 20 anos de atividade. A Avós e Netos presta serviços de apoio às famílias, nomeadamente no que respeita às áreas da Geriatria, Babysitting e Pessoas Portadoras de Deficiência. A Formação Certificada a quem quiser dedicar a sua vida a uma destas áreas de cuidados humanos, também é uma das suas áreas de atuação.

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Marisa Barroso (assistente social), Beatriz Pires (diretora geral e fundadora), Joana Amorim (diretora técnica)

Foi uma das primeiras empresas a trabalhar nestas áreas. O que a levou a criar este projeto?

Criei a Avós e Netos porque trabalhava, na época, num grande grupo económico e apercebi-me das dificuldades que as senhoras que faziam parte do Conselho de Administração tinham em articular a sua vida profissional com o apoio aos seus idosos e crianças e porque os meus pais ficavam angustiados em pensar acabar os seus dias numa instituição.

Que dificuldades sentiu?

As pessoas desconheciam este tipo de serviço. As hipóteses passavam pelo apoio do Centro de Dia ou contratar uma empregada doméstica, sem competências técnicas para o efeito. Ao longo do tempo, foram compreendendo que estas respostas são facilitadoras da vida familiar, garantindo a prestação de cuidados, validados pela formação, responsabilidade e seriedade para com os nossos clientes.

E no que respeita à mão-de-obra?

Constatamos a existência de pessoas motivadas para trabalhar nesta área, com perfil pessoal, contudo, sem competências técnicas validadas. Como tinha uma vasta experiência na área formativa, com o apoio de especialistas, criámos o curso de Técnico Auxiliar de Geriatria, certificado pelo IQF na altura, atualmente, DGERT. Esta formação direcionada inicialmente, para pessoas entre os 40/50 anos à procura de reconversão profissional e adquirir competências técnicas para responder às necessidades do mercado. Atualmente já não é assim, o curso destina-se a quem nos procura com gosto pela área, há casos de jovens, alguns com menos de 20 anos, que optam por serem profissionais de Geriatria e fazem o curso connosco. É uma área com elevada taxa de empregabilidade em franco crescimento.

Que diferenças existem entre a procura destes serviços, há 20 anos e atualmente?

Atualmente há uma maior procura e melhor conhecimento destes serviços, quer pelo crescente envelhecimento da população, quer porque os familiares têm maior dificuldade na articulação da vida familiar e profissional. Muitas vezes, são os filhos ou netos que procuram os nossos serviços para os seus seniores, mas também nos procuram os próprios, dependendo das suas capacidades e situação familiar. Há casos em que os cuidados são prestados ao casal, porque os familiares não residem em Portugal. A necessidade do apoio surge pela sua perda de autonomia, física ou cognitiva.

Que tipo de serviços disponibilizam?

Prestamos serviços entre duas a 24 horas/dia, 365 dias por ano, dependendo das necessidades, cada caso é um caso. O nosso trabalho passa pela avaliação das necessidades, em conjunto com a família, assegurando o apoio em serviços gerais (manutenção da habitação, confeção de refeição etc.), acompanhamento ao exterior (passeios, consultas, compras de medicação…), apoio especializado (cuidadoras com competências profissionais, apoio médico, fisioterapia e enfermagem).

Beatriz Pires, diretora geral e fundadora

Que diferença existe entre o vosso serviço e a possibilidade de ir para um lar?

A personalidade da pessoa conta muito, no momento da escolha.

Há pessoas que optam pela integração em lar, outras preferem permanecer no seu ambiente familiar – a sua casa, onde têm as suas memórias, podem receber familiares e amigos num ambiente mais intimo, gerir o dia ao seu ritmo no que respeita a refeições, horas de levantar, deitar, etc., quem não gostará de ter esta liberdade após uma vida profissional a cumprir horários? Sentir que podemos gerir o nosso tempo. Ainda há o mito que um bom lar, sendo muito caro, é mais barato do que contratar os serviços personalizados de uma empresa como a nossa, 24 horas por dia, o que nem sempre se verifica. Outras vantagens como por exemplo neste período de pandemia Covid-19, infelizmente tivemos conhecimento de muitas situações dramáticas de contágio, que num espaço de partilha é muito difícil controlar apesar de todos os cuidados, no domicílio o controlo é muito mais fácil e o confinamento mais agradável porque estão no seu ambiente. A Avós e Netos não teve qualquer caso de Covid-19 nos seus clientes, porque cada cliente tem contacto só com as suas cuidadoras pessoais, as cuidadoras desde o primeiro momento usam equipamento de proteção e desinfeção, todas as cuidadoras e equipa técnica foram testadas.

No que respeita ao babysitting, existem diferenças entre esse cuidador e um cuidador geriátrico?

Claro que sim, no caso do babysitting, as competências são mais lúdicas e pedagógicas, até porque, além do babysitting, há o apoio nas tarefas escolares. Quem se candidata a babysitter são jovens, com formação académica em educador de infância e atividades de animação maioritariamente.

Parece-lhe que estes serviços, sobretudo os ligados à Geriatria, terão de ser, no futuro, comparticipados pelo Estado?

Parece-me inevitável. Todas as pessoas, independentemente da sua condição financeira, merecem ser cuidadas por profissionais competentes que respeitem a sua identidade e dignidade. A população está cada vez mais envelhecida e com maior longevidade, a necessidade de cuidados aumenta, as alterações ao sistema atual serão inevitáveis.

A minha experiência de 20 anos a cuidar, diz-me que havendo comparticipação estatal ajudará muito a que as pessoas fiquem na sua própria casa, evitando a institucionalização e assegurando melhor qualidade de vida, com maior participação das famílias no envelhecimento dos seus idosos num ambiente acolhedor e familiar, proporcionando um final de vida mais feliz e harmonioso. Se questionarmos os nossos idosos, estou certa que a sua preferência será ficar em casa junto de quem mais amam.

As instituições e residências sénior têm um papel importante nas situações de maior dependência e patologias mais severas, em que os cuidados médicos especializados são necessários, todos nós sabemos que um elevado numero de idosos permanece internado após alta hospitalar por não haver respostas, com custos elevados para o setor da saúde. Esta poderia ser uma forma de melhorar a situação, libertando camas no sistema hospitalar.

Temos de pensar em respostas para combater o elevado número de lares e casas de acolhimento ilegais existentes, em que não há controle da qualidade dos serviços prestados, onde não existe acompanhamento dos procedimentos pelas entidades competentes. A nossa preocupação maior é a qualidade dos serviços, o que levou a Avós e Netos a obter além do alvará da Segurança Social o certificado ISO 9001/2015, sendo uma das primeiras empresas a obter esta certificação da qualidade nos cuidados que prestamos.

Não haverá instituições para acolher todos os idosos e dependentes num futuro breve. É necessário começar a pensar numa resposta concertada, para fazer face ao envelhecimento populacional e permitir aos idosos somar anos com qualidade.

Que objetivos delineou para os próximos 20 anos?

Divulgar o serviço de Apoio a Pessoas com Deficiência, para o qual já criámos um curso específico; apoio a residentes estrangeiros no nosso país; levar ao conhecimento da diáspora os nossos serviços, para o cuidado daqueles que mais amam e que ficam em Portugal, criar um Clube de Avós e Netos, para promover o convívio intergeracional e muito mais…

Há muito a fazer no cuidar, só temos de estar atentos ao outro.

www.avosenetos.pt

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