Portugal tem condições de excelência para a energia solar

A Voltalia está presente no mercado das energias renováveis há 14 anos, enquanto produtora de vários tipos de “energia verde” e prestadora de serviços a outros produtores e consumidores. José Carlos Amador, Global Marketing & Communication Manager, explicou como se processa este setor e quais os desafios que se avizinham.

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José Carlos Amador, Global Marketing & Communication Manager

A Voltalia foi criada em 2005. Analisando estes 14 anos de existência no mercado das energias renováveis, que avaliação faz da evolução do mesmo?

A Voltalia é uma multinacional francesa, fundada em 2005 e cotada na Euronext Paris desde 2014. A empresa atua no mercado internacional no setor das renováveis como produtora de energia e prestadora de serviços, utilizando multi-tecnologia: solar, eólica, biomassa, hídrica e armazenamento. Em agosto de 2016, o Grupo Voltalia entrou em Portugal através da aquisição da Martifer Solar, ganhando uma maior visibilidade internacional, mas sobretudo enriquecendo as competências internas no setor solar .

Olhando aos 14 anos de presença no mercado das renováveis, poderíamos antecipar vários acontecimentos e fomos surpreendidos com outros. Falando de energia renovável na forma de eletricidade, poderíamos esperar várias alterações regulamentares, um acréscimo de maturidade em algumas tecnologias e uma evolução por tendência ao incremento da penetração de energias renováveis. Com isto, a existência de tarifas fixas tenderia a desaparecer e essa é a realidade que vivemos nesse momento. A geração eólica e fotovoltaica são as formas mais baratas de gerar eletricidade, hoje em dia. Esta quebra aplica-se principalmente às centrais que são instaladas desde finais de 2017 e às que deixam de estar sujeitas a tarifas fixas que estão por decreto-lei.

A evolução é substancial, positiva para todos os consumidores, mas com grande incerteza para os investidores quando se olha a investimentos feitos hoje e que se pretende que produzam eletricidade no mínimo durante 20 anos, ou seja, até 2040.

Portugal é um país em que as energias renováveis podem ser um setor forte, no sentido da criação de emprego e no da rentabilidade e desenvolvimento interno e externo do país?

Portugal tem um bom conjunto de leis, com um grande alinhamento no que está regulamentado na União Europeia. Já na rentabilidade e risco dos projetos não é o mercado mais atrativo que se pode encontrar na atualidade. O excesso de liquidez no mercado atrai novos investidores para o setor, muitas vezes com menos experiência na eletricidade, o que causa distorção, decréscimo das margens e rentabilidade dos projetos. Os investimentos são feitos com base em alguns pressupostos do negócio e da sua tecnologia e, caso exista uma geração de eletricidade inferior ao esperado, uma pequena modificação regulamentar ou qualquer causa que impacte o projeto poderá estar-se próximo da viabilidade económica do projeto. Este tipo de situações poderão criar três riscos que não são valorizados hoje: a garantia de geração de eletricidade, a qualidade da geração de eletricidade e o cumprimento do financiamento do projeto. O apoio estatal não é necessário no momento atual tendo em conta a maturidade da tecnologia, no entanto, o modelo de leilão escolhido pode tendencialmente distorcer a lógica de mercado, dado que vários vencedores dos leilões de solar fotovoltaico terão de contribuir financeiramente para o Sistema Elétrico Nacional, enquanto outras atribuições de capacidade não o fizeram.

O desenvolvimento das centrais na Península Ibérica, particularmente em Portugal, é condicionado pela reduzida capacidade de ligação com França, o que por si só é também um fator limitador a mais investimentos – no binómio habitual da geração-consumo.
Já na ótica laboral, tendo em conta as várias obras que se prevê e projetos que devem ser operados, existirá a criação de emprego qualificado. Cada tecnologia renovável terá mais ou menos conteúdo nacional dependendo da opção de cada promotor.

Quais são as energias cujo setor tem mais condições para crescer?

A tendência de descarbonização da economia e a competitividade do custo por cada kWh gerado (na indústria mencionado como LCOE – Levelized Cost of Energy) cria condições para que Portugal tenha condições de excelência para a energia solar, eólica onshore e offshore flutuante, hídrica, biomassa, complementada com sistemas de armazenamento. A larga experiência em cada uma destas tecnologias permitirá ao país ter um futuro risonho. Prova disso são os vários centros de competências de empresas do setor renovável que escolheram Portugal como origem dos seus desenvolvimentos – quer nos serviços, fabrico ou investigação e desenvolvimento.

O facto de garantirem todo o ciclo, desde a produção ao armazenamento, distribuição de energia e manutenção e monitorização de todos os processos é uma mais-valia na vossa relação com o cliente?

Procuramos abranger todo o espectro dentro do que um cliente de eletricidade possa necessitar. Além do ciclo de geração, atuamos tanto em projetos de larga escala com centenas de megawatt como em projetos de pequena escala para escolas, unidades fabris ou para distribuidores que irão instalar as soluções Voltalia em casa do cliente final.
Como empresa integrada, a nossa capacidade de desenhar soluções, fazer todo o processo de instalação, colocação em funcionamento, operação e comercialização permitem ao cliente manter o foco no seu negócio enquanto trabalhamos para reduzir os custos de eletricidade. Como promotor de energias renováveis em várias geografias procuramos ter um impacto positivo na geração da chamada “energia verde”, assim como, investimos sempre nas regiões onde instalamos os nossos projetos com várias campanhas e projetos sociais exclusivamente direcionados às comunidades locais, com vista à sustentabilidade dos recursos locais.

Quais os desafios mais urgentes de ultrapassar?

Há vários desafios para os produtores de eletricidade. Estes dasafios vão propagar-se a toda a cadeia de valor com várias dúvidas do que poderá surgir que possa trazer uma disrupção do mercado. O reflexo é a existência de estudos que atestam para o acréscimo de consumo e do preço da eletricidade, enquanto outros estudos apontam para uma estagnação ou decréscimo no transporte ou distribuição, seguida da contínua redução do preço da eletricidade. Estes dois possíveis, mas contraditórios, cenários terão impacto nas previsões de qualquer empresa na viabilidade de investimento na geração de eletricidade.

A maior incerteza pode dizer-se que está relacionada com a expectativa dos mercados dentro de 10 a 15 anos. O desafio mais urgente pode centrar-se na palavra previsibilidade, aplicando esta palavra a dois fatores fundamentais: previsibilidade do binómio geração-consumo (maturidade tecnológica dos equipamentos, influência das alterações climáticas, alterações ao consumo com acréscimo por via da mobilidade elétrica ou decréscimo por via das instalações de autoconsumo) ou a previsibilidade do negócio (os valores de venda de energia a mercado ou com tarifas fixas, a viabilidade económica, as alterações na procuraoferta). É urgente regular estes desafios para garantir que a maximização de energia renovável é sustentável economicamente para o produtor, consumidor e prosumidor (cliente que irá produzir, consumir e também vender o seu excedente) para evitar um decréscimo da qualidade e insustentabilidade das redes de transporte e distribuição.

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