“Saúde física e mental estão interligadas”

Bárbara Cardoso é psicóloga e, enquanto profissional ligada à saúde mental, adaptou-se, também ela, à realidade provocada pelo confinamento. Integrante do projeto “acalma.online”, explica como a saúde mental foi afetada e o que mudou na população, após este período passado em casa.

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Bárbara Cardoso, psicóloga

Entre muitos sintomas que se tem falado devido à pandemia, existe o m e d o. O que aconselha aos portugueses que vivem com membros da família infetados, muitas vezes mais velhos, e não podem estar com eles?

Para além de muitas outras emoções inerentes a esta pandemia, o medo é provavelmente aquela com que, a meu ver, as pessoas mais se debatem diariamente. Também a ansiedade, a angústia e o stress podem ser fatores que interferem no dia-a-dia do indivíduo, deixando-o muitas vezes sem ferramentas para lidar com o que está a sentir. É importante que, pessoas que tenham membros da família infetados, adquiram um sentimento de segurança nos cuidadores que prestam auxílio aos seus familiares. Muitas vezes, falamos de idosos que estão em estruturas residenciais ou até mesmo hospitais, longe da família, com os quais não podem contactar e, portanto, foge do controlo das pessoas a evolução da situação clínica e dos cuidados que o seu familiar está a receber. De facto, esta condição pode ser um fator catalisador de ansiedade. Assim, é importante que cada pessoa confie nos profissionais que prestam cuidados de saúde, bem como mantenham pensamentos positivos e de esperança.

Considera que pode ter havido alguma habituação dos portugueses ao confinamento?

Todos nós fomos confrontados com uma nova realidade de estar confinados às nossas casas, a aprendizagem deste novo comportamento teve de ser conseguida de forma rápida e inesperada. Contudo, estamos a falar de quase dois meses de confinamento que, inevitavelmente, poderá ter levado os portugueses a uma rotina adquirida e a uma certa habituação. Muito embora os indivíduos continuem a manifestar ansiedade com o confinamento, parece-me que a grande maioria não se sente totalmente capaz e segura para voltar à vida do exterior de forma tranquila.

Quais os principais conselhos que dá os portugueses no regresso à normalidade?

Apesar de algumas medidas de confinamento terem sido levantadas, sabemos que provavelmente o regresso à «normalidade» tal como a conhecíamos antes de março ainda é uma miragem. É importante, antes de tudo, explicar às pessoas que este processo pode demorar mais algum tempo, promovendo a aceitação de cada um relativamente a esta situação. Só aceitando tudo o que estamos a viver se pode ajudar a criar estratégias pessoais para lidar com sentimentos menos positivos e encarar esta pandemia como uma «nova normalidade». A precaução que cada um de nós deve ter pode ser também vista como um comportamento que contribui para a diminuição de níveis de ansiedade ao longo deste desconfinamento.

A saúde mental é um dado imperativo na qualidade de vida de cada um, com particular destaque neste período. Parece-lhe que este é também um momento de reconhecimento da importância da saúde mental?

Sem dúvida que sim. A saúde mental é muitas vezes negligenciada e pouco valorizada pela sociedade em geral. Mas é fundamental que todos percebam que é das peças mais fundamentais para conseguirmos ter qualidade de vida, bem-estar físico, emocional e social. Contudo, presta-se mais atenção às questões de saúde física do que propriamente à saúde mental. Mas as duas estão intimamente ligadas e relacionadas entre si. Hoje, e com o desenvolvimento da pandemia que estamos a viver, surge como tema atual, uma vez que há um maior número de pessoas a recorrer à ajuda psicológica e a desenvolver fatores de risco mental. Mas não nos podemos esquecer que as ajudas existem, sempre existiram e vão continuar a existir, está na hora de valorizar mais os profissionais desta área, agora e no futuro.

Que conselho dá aos pais na supervisão dos mais jovens, após o período de confinamento?

O conselho para os pais é que estes transmitam a informação de forma apropriada aos seus filhos, de maneira clara, verdadeira e adequada a cada idade. Que procurem também educar os seus filhos para novas regras de higiene, etiqueta respiratória e distanciamento físico. Dando-lhes estas ferramentas, a meu ver é a melhor forma para que os mesmos se sintam tranquilos e consequentemente, possam tranquilizar também os seus filhos. Claro é que, se falarmos de crianças em idade mais precoce, estas dependem sempre da supervisão de adultos nos cuidados a ter face ao vírus. Caso os pais se sintam menos capazes, podem pedir ajudar a profissionais que certamente adequarão as estratégias a cada caso em particular.

Sei que disponibilizou gratuitamente os seus serviços, online, para quem necessitasse de apoio, em tempos de confinamento social. Que avaliação faz do estado psicológico dos portugueses?

Após tomar conhecimento do projeto acalma.online reconheci de imediato ser uma ótima iniciativa. É um privilégio poder ajudar pessoas nesta fase tão adversa pela qual estamos a passar. De forma gratuita, todos os portugueses podem ter acesso a ajuda de profissionais, psicólogos especializados em intervir em situação de crise. Na minha opinião, foram bastantes as pessoas que recorreram e recorrem a este serviço, umas porque já tinham problemas vindos do passado que depois se vieram a agudizar com a pandemia e o confinamento, e outras que desenvolveram algum tipo de sintomatologia exclusivamente nesta fase. Na grande maioria falamos mais uma vez de questões relacionadas com o medo, crises de ansiedade, insónias, pensamentos negativos frequentes e angústia. A meu ver, as pessoas sentem-se gratas e valorizam o trabalho que estamos a desenvolver neste âmbito.

Parece-lhe que algo vai mudar, a nível comportamental, no Ser Humano, após esta experiência de confinamento?

Creio que sim. É possível que num futuro próximo as pessoas tenham algum receio em se relacionar com os pares e que se sedimentem hábitos de distanciamento físico na população em geral. O «beijinho» aos avós que os pais sempre tentaram interiorizar ao longo dos anos nos mais novos deixa de fazer sentido na nova geração, sendo que o ensinamento é agora manter algum distanciamento daqueles que fazem parte de um grupo de risco, de forma a protegê-los. A meu ver, as pessoas estão a adquirir algum receio no que respeita a estar com pessoas, olham com desconfiança e apreensão, para além de todas as barreiras físicas que nos são agora colocadas. As máscaras, embora essenciais e de extrema importância, podem alterar também a nossa forma de comunicação, as expressões faciais deixam de estar ao alcance da perceção dos outros, tal como antigamente estávamos habituados. Mas nem tudo tem de ser necessariamente negativo, talvez este confinamento tenha permitido às pessoas um autoconhecimento que, em qualquer outra circunstância, não aconteceria. É hora de ver o copo meio cheio e tirar o melhor possível desta vivência.

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