“Somos pouco reconhecidas socialmente, mas somos fundamentais para o país”

A Universidade de Évora é uma instituição académica do Ensino Superior que conta com cerca de oito mil alunos na sua academia, sendo dois mil deles estrangeiros. Esta instituição é fundamental para a região, para a comunidade e para o panorama académico nacional. A reitora, Ana Costa Freitas, concedeu uma entrevista à Valor Magazine onde falou da oferta letiva e dos projetos em curso para os próximos dois anos.

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Ana Costa Freitas, reitora

Tendo em conta que está situada no interior do país e é um dos polos atrativos da cidade, que importância reconhece à instituição?

Há uma importância inerente a todas as instituições de ensino e educação, mas as universidades e institutos politécnicos que estão no interior do país têm sido, talvez, os únicos instrumentos de coesão territorial. Isso é muito importante, pois o “interior” é uma parte significativa do país, que está desertificada e precisa de ser revitalizada.

A Universidade de Évora tem também este impacto; não pode nem deve ser regional (uma universidade nunca é regional), tem que ser suficientemente atrativa nacional e internacionalmente e ao mesmo tempo ter a preocupação de promover o desenvolvimento económico, social e cultural da região onde está inserida. Considero esta estratégia fundamental. Este momento de pandemia veio, mais uma vez, mostrar a importância que os estudantes universitários têm na dinâmica das cidades.

Em que medida a interrupção quer das atividades académicas, quer dos projetos de investigação afetou o funcionamento da Universidade?

A digitalização de processos é uma realidade na Universidade, pelo que, ao nível dos serviços,não representou qualquer problema. No que respeita às aulas, não somos por natureza uma Universidade de ensino a distância, mas soubemos de forma rápida adaptarmo-nos às circunstâncias, recorrendo entre outros, ao aplicativo de videoconferência Zoom. Sabemos que nem tudo funcionou na perfeição, mas graças ao esforço e empenho de todos, estamos muito satisfeitos com o resultado.

A parte de investigação, durante o Estado de Emergência, manteve-se apenas com alguns pedidos para ensaios de campo. Todavia, após uma revisão de modelos de trabalho (por exemplo, se necessário, em rotatividade), os investigadores adaptaram-se à nova realidade e aos cuidados a ter para poderem continuar a desenvolver os seus projetos de investigação. Neste momento, já estamos a preparar o próximo ano letivo e a investigação decorre normalmente.

Essa preparação para o próximo ano letivo já engloba todas estas medidas anunciadas pela DGS?

De um modo geral, as aulas práticas têm de se manter práticas, pelo que faremos um desdobramento de turmas, para garantir que todos conseguem assistir às aulas, mas não, como usualmente, todos os alunos na mesma sala ao mesmo tempo, turmas pequenas e com dimensão adequado ao espaço. Iremos usar todas as salas de aula disponíveis na academia, de forma a acomodar menos alunos por sala. O mesmo acontecerá com aulas teóricas cujas unidades curriculares têm muitos alunos e o desdobramento é necessário. Depois, também existirão aulas online, incluindo algumas aulas práticas, como é o caso das cirurgias em animais, onde o procedimento é transmitido para que os alunos possam assistir, fora da sala de operações com, câmaras de filmar por exemplo. Queremos garantir que os alunos do primeiro ano têm mais aulas presenciais, de preferência todas. Para assegurar todas as condições, as aulas apenas terão início a 6 de outubro.

A Universidade é fundamental para ajudar o aluno a exercer a cidadania plena, a integrá-lo enquanto cidadão e a fazê-lo discutir os problemas do dia-a-dia, para lá dos conteúdos letivos?

Esse papel é fundamental, embora seja pouco comentado. Nós não formamos pessoas só para exercerem uma profissão. Nós formamos cidadãos. Um cidadão só é completo se tiver uma visão abrangente da sociedade e se tiver a capacidade de tentar perceber o mundo em que se insere. Isso passa pela academia e é por isso que eu considero tão importante o regresso dos alunos à instituição. Eles têm muito mais acesso à informação do que as gerações anteriores. mas precisam muito de ganhar espírito crítico e cidadania.

No que respeita aos cursos e à multidisciplinaridade, como lida a Universidade de Évora com esta realidade?

Todos os cursos de uma universidade são aprovados previamente e as inovações nem sempre são fáceis de ser aprovadas. Os seres humanos são conservadores por natureza, mas nunca deixámos de fazer pequenas alterações nos cursos, de modo a criar esta maior transversalidade. Para já, fomos conseguindo isso com algumas disciplinas optativas. Além disso, é muito importante que estejamos constantemente alerta para fazer as alterações que se adequem ao momento. Não podemos transmitir conhecimento sempre da mesma forma, vindo os alunos preparados de maneira diferente. Este é um desafio de adaptação constante, para garantir que saem desta Universidade os melhores cidadãos.

Que dinâmica existe, no que respeita à Investigação?

Estruturámos a universidade em quatro áreas, que são o Mediterrâneo e a Sustentabilidade Ambiental, o Património e as Artes, Aeroespacial e Transformação Digital e Percursos de Vida e Bem-estar.

As duas primeiras áreas já são sólidas no trabalho que desenvolvem e no reconhecimento nacional e internacional da investigação que produzem.

No que respeita às áreas emergentes, as duas últimas mencionadas, são áreas em desenvolvimento. Já existem cátedras associadas às mesmas, mas ainda é necessário desenvolver um trabalho de afirmação destas áreas. Assim, pretendemos reforçar as Engenharias, sobretudo as ligadas ao setor Aeroespacial, dado o cluster existente nesta região.

Depois, no que respeita à quarta área que mencionei, que está ligada à nova unidade orgânica e à Escola de Saúde, o objetivo passa exatamente por dar a conhecer e desenvolver esta escola, que terá uma grande ligação com o hospital central que existe em Évora e que permitirá também que todos os investigadores que desenvolvem trabalhos na área da Saúde possam ser recolocados neste espaço.

Enquanto reitora da Universidade de Évora, que objetivos gostaria ainda de levar a cabo?

Um dos grandes objetivos é a consolidação da Escola de Saúde, a sua maior ligação ao novo hospital central do Alentejo e a afirmação dessa Escola junto da comunidade académica e da sociedade. Depois, seria importante conseguirmos o mestrado em Engenharia Aeroespacial, e dar mais visibilidade ao departamento de Engenharia, sobretudo às engenharias diretamente relacionadas com o cluster da Aeronáutica e do Espaço. Em relação à oferta curricular, estamos a reorganizar o terceiro ciclo, com o objetivo de assegurar aos estudantes uma experiência única ao longo do Doutoramento. Queremos que o terceiro ciclo seja visto como todo um processo de aprendizagem, desde a forma como a informação é recolhida, analisada e aos contactos que se estabelecem para que isso aconteça, com uma vertente de investigação muito forte. Em resumo, será alterar e inovar na oferta de 3º ciclo; consolidar e desenvolver a área das Engenharias; pôr em funcionamento a nova Escola de Saúde com uma oferta inovadora assente num conhecimento sólido

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