Startups precisam-se, mas das boas!

Escrevo este artigo num momento em que a palavra startup deve ser das mais utilizadas na imprensa e entre as pessoas, ou não estivesse a decorrer o Web Summit em Portugal. E digo Portugal porque este evento ultrapassa a dimensão da cidade de Lisboa e coloca o nosso país uma vez mais no radar do empreendedorismo e inovação.

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Quando digo que precisamos de novas iniciativas, acrescento que devem ser boas, consistentes no seu projeto e com um plano estratégico bem definido. E se produzirem produtos e serviços que acrescentem valor, tanto melhor. Esta ressalva é uma homenagem às iniciativas que têm sucesso produzindo menos bons serviços ou produtos, para não ser acusado de laquear a veia do espírito de iniciativa.

Em 2018, tive o privilégio de lançar uma startup em Portugal. Passados cerca de 20 meses, continuo assumindo que estamos em fase de startup uma vez que, não obstante o crescimento consolidado, existe ainda uma gigantesca margem de progressão.

Quando se lança uma nova empresa no setor da Saúde e do Medicamento, investigando e desenvolvendo novas formas de combater a doença e melhorar a qualidade de vida das pessoas, sentimos que o nosso core business é, por si só, uma clara ação de Responsabilidade Social. Mas é necessário fazer mais.

As empresas têm de fazer parte do ecossistema em que se inserem e nele terem um papel ativo. Temos de conhecer os nossos parceiros, os nossos clientes, fornecedores, autoridades regulamentares, enfim, todos aqueles com quem diariamente lidamos.

Mas temos também a obrigação de conhecer aqueles que nos rodeiam de forma anónima e que diariamente partilham o mesmo espaço. É importante que eles saibam que podem contar connosco, tal como também nós sabemos que teremos neles sempre uma palavra amiga. E isto contribui para que as nossas organizações sejam animais sociais, feitas de pessoas.

No tempo dos nossos avós viva-se sem portas trancadas, os vizinhos entravam sem bater e os amigos apareciam sem avisar. Era assim no Baixo Alentejo, onde estão as minhas origens, mas era também assim na linha do Estoril, onde sempre vivi, dei os primeiros passos e disse as primeiras palavras.

Vivamos em comunidade, verdadeiramente, comprando o leite à Senhora do Leite, o pão à Senhora do Pão, as mercearias ao Senhor da Mercearia. E tudo ficava na esquina ali perto. Os vizinhos movimentavam-se de casa em casa, como se delas fizessem parte, porque eramos uma família. A solidão era difícil de encontrar, porque estar só era sinal de tristeza e havia sempre uma voz amiga para nos consolar.

Tinha no mar o meu refúgio, onde me encontrava com o silêncio ruidoso das ondas a desfazer as rochas ou a explanar-se na areia da praia.

Depende de nós termos as portas das organizações abertas, para receber quem nos quiser visitar, para ouvir uma palavra amiga, escutar um problema ou guardar uma confissão.

Sabemos fazê-lo num contexto profissional, numa abordagem Customer Centric ou Patient Engagement. Podemos e devemos fazê-lo no contexto social, sem ser necessário traçar um elaborado plano de Responsabilidade Social, pintando paredes ou recolhendo bens essenciais, ações de enorme mérito. Basta olharmos de manhã para as pessoas com quem nos cruzamos e dizer Bom Dia. Primeiro estranha-se, depois entranha-se, como diz o povo.  

Ao abrirmos as nossas portas será que vamos encontrar amigos para a vida?

Este artigo é o primeiro que escrevo num novo projeto editorial, para o qual tive a honra de ser desafiado a partilhar pensamentos. A Valor Magazine aparece nas bancas com o intuito de dar a conhecer coisas e pessoas que dão colorido às nossas vidas. É uma startup, sim, mas das boas!

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