“Urge acabar com o estigma associado às doenças mentais”

Sara Barros é country manager da Lundbeck em Portugal, desde maio. À Valor Magazine, falou sobre o seu percurso profissional, a afirmação da mulher no mercado de trabalho e da Lundbeck, uma das únicas farmacêuticas mundiais que se dedica apenas a estudar e a desenvolver medicamentos para a área das doenças mentais.

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Sara Barros, country manager

Parabéns pela nova função que desempenha na Lundbeck. No âmbito da sua atividade profissional, fale-me um pouco da sua evolução profissional, até alcançar este cargo, em maio.

Muito obrigada. Desde cedo percebi que gostaria de me dedicar à área do medicamento e assim, candidatei-me à Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa onde completei a minha licenciatura em 1997, tendo a partir daí desenvolvido a minha carreira profissional na indústria farmacêutica e no mercado nacional. Ocupei vários cargos na área comercial, de marketing e de desenvolvimento de pessoas e liderei o lançamento e consolidação de novas marcas no mercado em várias multinacionais. O recente desafio que surgiu da Lundbeck constitui uma enorme oportunidade de continuar o meu desenvolvimento pessoal e profissional garantindo um crescimento sustentado do negócio da companhia em Portugal, numa área tão estimulante como é a do Sistema Nervoso Central.

Considera que as oportunidades já existem da mesma forma para mulheres e homens?

Sabemos que nem sempre as mulheres e os homens beneficiam de oportunidades iguais em vários campos e muito especificamente no trabalho, mas também no salário. De facto, em média, as mulheres recebem menos do que os homens e têm mais dificuldades na conciliação entre a vida familiar e profissional. No entanto, ao longo dos últimos anos, a vida das mulheres tem melhorado substancialmente, nomeadamente no que se refere à igualdade no trabalho. O potencial das mulheres é enorme e as organizações estão cada vez mais atentas para aproveitar essas potencialidades.

A liderança feminina é distinta da masculina?

Considero que sim. Vários estudos indicam que as mulheres têm uma chefia mais democrática e liberal do que os homens, que têm habitualmente uma liderança tendencialmente mais autoritária. As mulheres são, na sua generalidade, mais adeptas a decisões tomadas com a participação de todos os colaboradores. Outro aspeto que me parece digno de nota é a maior predisposição das mulheres para o multitasking e para uma melhor análise dos problemas. Os cientistas garantem que existem mecanismos neurológicos que conseguem explicar estas diferenças. Da minha experiência ao longo dos anos a liderar e ser liderada considero as mulheres mais organizadas, empáticas e sensíveis ao detalhe quando comparadas com os líderes do sexo masculino.

As mulheres serão os líderes do futuro?

Hoje, cada vez mais mulheres ocupam cargos de chefia e participam na vida política, mas para aqui chegarmos percorremos um longo caminho que passou pela adoção de diversas medidas destinadas a garantir a igualdade dos géneros e a não discriminação. O número de mulheres em posições de liderança vai seguramente aumentar no futuro, mas na minha opinião não deverão ser impostas quotas. Se for assegurada uma igualdade de oportunidades tenderá a ser um processo natural. No entanto, temos que combater a ideia de que as mulheres conseguem fazer tudo sozinhas e que não precisam dos homens. Provavelmente por este conceito ainda não ter alcançado a sua maturidade as mulheres ainda não atingiram completamente a igualdade. Foi inclusivamente noticiado recentemente que Portugal tinha falhado na redução da disparidade salarial entre homens e mulheres violando o compromisso que assumiu de promover a igualdade de género a nível salarial. A legislação é adequada e as medidas tomadas pelas autoridades são reconhecidas, mas a desigualdade persiste.

Que características devem possuir os líderes desta nova década?

Na área farmacêutica os líderes devem assegurar-se que é implementada uma estratégia farmacêutica que disponibilize medicamentos essenciais para todos. Agora, mais do que nunca, a crise do Covid-19 mostrou que o mundo procura inovação médica para combater as ameaças à saúde global e enfrentar novos desafios de saúde. Partilho a minha enorme preocupação com as desigualdades de acesso a novos tratamentos e vacinas que existem em toda a Europa. Um acesso mais rápido e equitativo aos cidadãos é uma responsabilidade compartilhada e um objetivo comum, mais critico ainda neste período que vivemos. Temos que ser capazes de analisar as causas principais e as condições de acesso, fornecimento e escassez de medicamentos na Europa. Os desafios são multifacetados e só podem ser enfrentados se todos os players trabalharem juntos para melhorar o acesso à inovação em saúde, reduzir atrasos e mitigar o impacto da escassez de medicamentos hoje e no futuro. Para que isso seja possível os líderes terão que ter a capacidade de mobilizar eficazmente as organizações, tomar decisões rápidas e assertivas e estabelecer prioridades claras.

A LUNDBECK

Como avalia a necessidade dos produtos que desenvolvem e comercializam, quando se sabe que as doenças mentais serão o principal problema nos próximos anos?

A Lundbeck é uma das únicas companhias farmacêuticas do mundo dedicada exclusivamente à investigação e desenvolvimento de medicamentos inovadores para doenças mentais, a fim de responder às necessidades ainda não atendidas em patologias como depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar, doença de Alzheimer ou a doença de Parkinson. Mais de 700 milhões de pessoas são afetadas por doenças mentais em todo o mundo, o que equivale a 13% da carga global com doenças. A Depressão, por exemplo, uma das principais áreas de foco da Lundbeck e que é uma patologia grave associada a uma série de sintomas, incluindo melancolia, perda de energia, alterações cognitivas, dificuldade de memória e concentração e pensamentos suicidas é reconhecida pela OMS como a principal causa de incapacidade no mundo. Globalmente, mais de 300 milhões de pessoas de todas as idades sofrem de depressão e quase 800.000 pessoas morrem todos os anos por suicídio. Os números mostram claramente que o peso da depressão vai provavelmente aumentar nos próximos anos porque temos vindo a observar um aumento relativo da prevalência da doença.Na Lundbeck estamos inteiramente dedicados a restaurar a saúde mental, para que cada pessoa possa estar no seu melhor e hoje já existem tratamentos farmacológicos eficazes para a depressão moderada e grave, no entanto, todos os dias nos esforçamos para melhorar o tratamento e contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas que vivem com distúrbios psiquiátricos e neurológicos.

Como se posicionam no mercado e quais os seus objetivos?

A Lundbeck foi fundada em Copenhaga há mais de 100 anos. Os nossos produtos estão registados globalmente em mais de 100 países e, todos os anos, o nosso portfolio de produtos comercializados têm um alcance mundial em mais de 50 milhões de doentes. Os cerca de 6.000 empregados da Lundbeck geraram uma faturação de 2.3 biliões de euros em 2019 com um resultado de 357 milhões de euros, dos quais apenas 31% foram distribuídos como dividendos aos acionistas. A companhia está cotada em bolsa mas a Fundação Lundbeck detém quase 80% das ações. O facto de a empresa pertencer à Fundação Lundbeck diz muito sobre a nossa razão de ser porque permite uma gestão dos recursos financeiros, em que é feito um grande investimento em investigação nas neurociências, tanto nos próprios laboratórios como em projetos internacionais, em que participam várias universidades e centros de investigação. Um dos mais vitais compromissos da Lundbeck é ajudar os doentes a criar possibilidades e a recuperar o funcionamento. Muitos doentes sofrem devido a tratamento inadequado, discriminação, número reduzido de dias úteis, reformas antecipadas e outras consequências desnecessárias. Há mais de 70 anos que estamos na vanguarda da investigação nas neurociências e o desenvolvimento e distribuição de tratamentos pioneiros continua a fazer a diferença nos doentes em todo o mundo. Somos reconhecidos por termos ajudado centenas de milhões de pessoas que vivem com distúrbios psiquiátricos e neurológicos. No entanto, existe ainda uma enorme necessidade de ajuda. Para além disso combater o estigma é fundamental e urgente porque mais de 70% das pessoas que vivem com transtornos psiquiátricos ou neurológicos sofrem discriminação. Com o nosso posicionamento único de especialistas em doenças mentais e neurológicas, queremos sensibilizar e desafiar a sociedade para melhorar a aceitação destes doentes para que possam ter a oportunidade de recuperar em pleno a sua vida. Mantemos um compromisso com a consciência social e a melhoria do conhecimento das doenças mentais por toda a sociedade, com o objetivo de erradicar o estigma e a exclusão social que ainda estão associados a estas doenças.

Quais as vantagens do mercado nacional?

Mais de um quinto dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica. Portugal é o segundo país com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa, sendo apenas ultrapassado pela Irlanda do Norte. Entre as perturbações psiquiátricas, as perturbações de ansiedade e do humor são as que apresentam uma prevalência mais elevada. Trabalhamos para reduzir o impacto socioambiental das doenças mentais, que são doenças graves e com risco de vida, que afetam a qualidade de vida dos doentes e das suas famílias. A nossa forte herança e extensa experiência em neurociência proporcionam uma vantagem competitiva para ajudar as pessoas que vivem com uma ampla gama de doenças mentais no nosso país. Foi esse o compromisso da Lundbeck quando se instalou em Portugal em 2002.

Que desafios se desenham para esta indústria, no que respeita ao I&D e comercialização deste tipo de medicamentos?

A Lundbeck é uma das únicas empresas farmacêuticas do mundo dedicada exclusivamente à investigação e desenvolvimento de medicamentos inovadores para doenças mentais. Esta é das áreas terapêuticas que requer mais tempo e tem uma das maiores taxas de falhas, o que contrasta com outras companhias que desviaram os seus recursos para outras patologias que oferecem melhores perspetivas de retorno do investimento. Juntamente com outras empresas e instituições académicas, na Lundbeck estamos envolvidos na descoberta de moléculas e biomarcadores para doenças mentais e do cérebro. Para isso é crucial criar uma cultura colaborativa com outras instituições. Para a Lundbeck, a colaboração entre empresas e instituições é necessária porque ainda existem várias necessidades médicas não preenchidas, e é necessário unir esforços através de parcerias de investigação e comercialização com alcance global. Deste modo podemos contribuir para o diagnóstico precoce, o acesso ao tratamento e a adesão à terapêutica, pilares fundamentais para a recuperação completa dos doentes. Mas estes são desafios que enfrentamos com entusiasmo, profissionalismo e esperança.

https://www.lundbeck.com/pt
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