Vídeo-consultas, a revolução que veio para ficar

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Pedro Caldeira da Silva, pedopsiquiatra e diretor clínico

Uma das consequências da pandemia (e não necessariamente apenas negativa) foi a de nos forçar a adaptar à nova realidade de confinamento e de distanciamento físico. Um detalhe importante é que o distanciamento é físico, mas, graças às redes sociais, não podemos dizer, em rigor, que há um distanciamento social. A possibilidade de contacto mediado pela tecnologia é imensa.

Para a grande maioria dos profissionais de intervenções na área da saúde mental e desenvolvimento, uma consulta implica uma marcação, uma visita e um contacto presencial face a face. Foi assim que fomos treinados. Mas há já bastante tempo que as intervenções em psicologia com jovens e adultos, por exemplo, têm ocupado outros espaços e tirado vantagem das tecnologias de comunicação existentes. Do mesmo modo, a telemedicina, como consultoria para esclarecimento diagnóstico ou, por exemplo, apoio a procedimentos cirúrgicos é, também, uma realidade estabelecida.

Hoje, já é possível encontrar estudos e meta-análises que mostram a eficácia deste tipo de abordagem terapêutica à distância. Os estudos demonstram que muitas intervenções, seja utilizando meios vídeo, seja utilizando texto, ou plataformas multimodais têm uma eficácia comparável e, por vezes, superior, quando comparadas com intervenções mais tradicionais Acresce que, do ponto de vista do paciente, este contacto mediado pode, até, ser facilitador quer do contacto, quer do processo terapêutico. Pessoas com quadros de depressão ou ansiedade grave, que se sentirão mais seguras no ambiente da sua casa, pessoas com perturbação do espetro do autismo, verbais e de bom nível de funcionamento, para quem o contacto social mais próximo aumenta a sua dificuldade em comunicar de forma tranquila, podem ser disso exemplo.

No CADin, em que não havia prática deste tipo de intervenção organizamos um serviço de vídeo-consulta para podermos continuar a dar resposta a situações de acompanhamentos que já tínhamos iniciado. E cujo âmbito iremos alargar.

Dizem os que têm experiência mais tradicional que nada substitui uma primeira avaliação presencial, que permite recolher informação por observação para a qual estamos treinados e, portanto, mais fiável e fidedigna. Haverá também situações em que a consulta à distância seja desaconselhada, imprudente ou, mesmo, contraproducente. Por exemplo as situações de algumas consultas médicas em que o exame físico é essencial, ou as intervenções em que a interação entre terapeuta e crianças pequenas requer o contacto físico, o movimento ou a regulação fina das interações, com grande dificuldade poderão encontrar substituição na consulta à distância. Mas muito provavelmente, mesmo em muitas dessas situações, iremos encontrar modalidades substitutas de abordagem.

Esta revolução, até aqui razoavelmente silenciosa, veio estabelecer mudanças que irão perdurar. Os futuros profissionais certamente que irão receber formação nas escolas sobre intervenções à distância, como parte obrigatória dos seus currículos. O advento, que se espera muito breve, das redes 5G e da “internet das coisas” virá, então, na altura certa para nos abrir um leque de possibilidades neste campo que ainda não conseguimos avaliar completamente, mas que nos irápermitir continuar cada vez mais igualmente ligados.

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