Qual era o propósito do iBET, aquando da criação? Ao longo do tempo, foram sempre conseguindo cumpri-lo?
O iBET foi fundado em 1989, pelo professor Manuel Carrondo, que após a sua estadia como professor convidado no Massachusetts Institute of Technology (MIT) nos EUA, procurou replicar a ideia de apostar na tecnologia para desenvolver a economia. No caso do iBET, o conceito base da sua fundação foi utilizar e organizar o conhecimento proveniente da academia, colocando-o ao serviço da economia. A academia tem a função de fazer investigação para criar mais conhecimento, o que é importantíssimo, pois é um pilar de que necessitamos. A função do iBET passaria por organizar o conhecimento aqui gerado e disponibilizá-lo para ajudara economia a
crescer. Foi com esta ideia de “criar valor” que o iBET foi fundado. Nasceu sendo uma instituição de investigação sem fins lucrativos, por isso o objetivo passava por unir a academia e a indústria, nomeadamente a farmacêutica e a agroindustrial. O foco nestas duas áreas foi natural pois eram aquelas que já tinham alguma experiência de
internacionalização e que valorizavam, por isso, qualquer conhecimento que viesse diferenciar os seus produtos no mercado. Os nossos eixos de atividade eram a Biotecnologia, a Farmacêutica, a Agricultura, a Agroindústria. Estudámos o gosto da rolha no vinho, quantificámos compostos que poderiam alterar o sabor no azeite ou nos sumos, trabalhámos também nos organismos geneticamente modificados, criámos plataformas para identificar esses alimentos… Passados cerca de cinco anos, a investigação gerada no iBET solucionou grande parte das
questões científicas da nossa indústria.
Como continuaram a evoluir, desde então?
Alguns dos nossos associados perceberam que havia muito potencial de investigação que não estava a ser usado por eles e deram-nos autorização para continuarmos a avançar, fazendo serviços de investigação para fora. E
foi nesse caminho que nós fomos crescendo. Começámos por identificar nichos onde podíamos ser diferenciados – nós estamos em Portugal, não é um país conhecido globalmente pela sua investigação, embora tenha vindo a
melhorar – e apostámos nesses nichos. No fundo, tornámo-nos uma peça fundamental em parcerias internacionais com alguma indústria farmacêutica. Esta internacionalização foi feita por necessidade, pois em
Portugal não existiam muito mais questões que pudéssemos responder, e, por outro lado, a nossa área de trabalho – a Biotecnologia – carece de muito apoio financeiro. Assim, começámos por fazer pequenos contratos de investigação com a indústria farmacêutica – Merck, Bayer, Novartis, Sanofi, etc – depois a qualidade do nosso trabalho tem sido tão boa que eles têm vindo a crescer connosco nos últimos anos.
O que cria este instituto, em termos de riqueza para o país?
Criamos emprego qualificado. O facto de podermos empregar 111 doutorados é uma mais-valia imensa para o nosso país. Estas áreas de especialização, antigamente, obrigavam a que as pessoas fossem para o estrangeiro. Neste momento, o iBET pode dar emprego qualificado e tem estratégias internas de retenção de talento em Portugal. Além do emprego qualificado, somos o maior exportador de investigação do país e conseguimos trazer muito investimento estrangeiro para Portugal.
Tendo em consideração todo o valor acrescentado que estes projetos trazem ao país e à economia, bem como a vossa capacidade de trabalhar internacionalmente, quão importante seria que o apoio financeiro à Ciência aumentasse significativamente?
A nossa atual ministra do Ensino Superior, Elvira Fortunato, é alguém que quer colocar mais a Ciência no mapa e assegurar mais financiamento para a Ciência. Nós, enquanto cientistas, conhecemos o valor que a Ciência pode
assegurar ao país. Note-se que os países que mais apostam em Ciência são sempre os que mais conseguem crescer. Então, sim, o dinheiro é importante, mas não é tudo. Importa que nos organizemos em rede, para conseguirmos ir buscar mais visibilidade a projetos europeus. Cada vez conseguimos trazer mais financiamento europeu para projetos nacionais. O iBET é disso exemplo. Trabalhamos com áreas muito caras, portanto somos sempre obrigados a concorrer a projetos europeus. Além do dinheiro, criamos uma rede de conhecimentos e relações e isso faz avançar a Ciência. Os contactos com as Instituições Académicas, com as indústrias, com as PME, são preciosos para um país como nós, que investe menos em Ciência. Nós trabalhamos muito com a indústria, que nos apresenta problemas únicos, e que precisam de resolução rápida, mas também é muito importante termos projetos onde não temos um fim à vista e que contribuam apenas para o conhecimento científico.
O Tech4innov é um evento direcionado para a tecnologia e inovação, que reúne o que de melhor se faz a nível tecnológico. Até que ponto este tipo de eventos são importantes entre a comunidade académica, mas também para dar a conhecer ao público e investidores este setor?
Há vários eixos de importância nesses eventos. O primeiro é a reunião de membros da comunidade académica. Depois, estes eventos também são ótimos porque nos obrigam a falar para o público comum. Os académicos
estão muito acostumados a falar para pares ou a ensinar, mas serem obrigados a pensar “como vou vender a minha ciência para um investidor?” obriga-os a usar uma linguagem diferente, que de outra forma dificilmente
usariam. Temos de arranjar tempo para comunicar e temos de tentar que as pessoas percebam a importância da Ciência.

Quais são as áreas de atividade do iBET e qual a importância do novo edifício iBET Biofarma, que será inaugurado no dia 23 de junho deste ano?
Somos reconhecidos como um centro de excelência de investigação na área de desenvolvimento de processos para a produção de biológicos e novas terapias, nomeadamente terapias génicas e terapia celular. Nesta área, os
requisitos a nível de infraestrutura e de espaços são muito especializados e nós já não tínhamos espaço para poder abraçar muitos projetos. Este edifício foi cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), porque o iBET é um centro de valorização e transferência de tecnologia. No total, juntando o que é dinheiro deste fundo europeu e dinheiro próprio, o investimento ronda os 25 milhões de euros. Falta ainda o equipamento específico para o trabalho nestas áreas, para o qual também teremos o suporte da Agência Nacional de Inovação (ANI). Temos tido o apoio do Estado porque esta é uma infraestrutura única em Portugal, onde vai ser possível fazer o desenvolvimento de produtos biológicos, que será depois associado a uma unidade de manufatura, a GeniBET, que permite fazer produção de lotes para ensaios clínicos. É esta capacidade que nos diferencia em Portugal: conseguimos ir da investigação até ao lote de ensaio clínico. Teremos também uma estrutura onde poderemos trabalhar com vírus patogénicos. Será uma estrutura diferenciada, a nível nacional, que nos permitirá continuar a crescer com a indústria, sobretudo a grande farma, bem como continuar a criar futuro e crescer.









