A coragem de pedir ajuda

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Pedir ajuda quando não nos sentimos bem no nosso mundo interior parece ser das ações mais difíceis de concretizar. Temos dificuldade em fazê-lo porque assumimos, grande parte das vezes, que pedir ajuda a um psicólogo, por exemplo, é sinal de algum tipo de fraqueza, de dificuldade ou de fragilidade, para não falarmos do significado de loucura associado a este tipo de necessidade. No entanto, e se fizermos uma avaliação global e sensata, percebemos que pedimos ajuda para outras dimensões das nossas vidas com muito mais facilidade. Assumimos de forma quase inconsciente que já devíamos saber resolver, desde a nascença e de forma assertiva, eficaz e pragmática, todos os assuntos mais íntimos, pessoais e geradores de algum tipo de dor ou desconforto. Como se crescer, resolver e transformar dificuldade diárias fosse, à partida, uma competência inata. E até pode ser, na medida em que acredito que temos dentro de nós as competências necessárias para resolver os vários desafios que nos vão surgindo. No entanto, isso não significa que não possamos pedir ajuda para tornar o caminho mais fácil, descomplicado, mais rápido e menos doloroso, evitando assim outros fins para as várias histórias e experiências que vamos vivendo. Se é quase óbvio pedir ajuda para nos cortarem o cabelo, parece já não o ser para resolver algum conflito familiar, pessoal ou relacional. Por outro lado, se parece também ajustado pedir ajuda para arranjar um eletrodoméstico ou um carro, não parece tão óbvio pedir ajuda para resolver algum tipo de conflito relacionado com o trabalho, por exemplo. 

Assumimos de forma taxativa que há problemas diários para os quais devemos pedir ajuda, porque parece óbvio que não os sabemos resolver a todos e que, por outro lado, parecem existir problemas pessoais e dificuldades profundas que devíamos saber resolver sozinhos. E levados nesta crença, há um mundo de sofrimento por resolver, transformar e curar que é vivido grande parte das vezes em silêncio, solidão e de forma tortuosa. 

Pedir ajuda é assim uma necessidade que deve ser ouvida e colocada em ação. O nosso mundo interior é o primeiro mundo onde vivemos quando nos perspetivamos pertencentes a vários mundos.  Se estamos bem nele tudo o resto corre bem, se não estamos, estaremos sempre a agir em função desse desconforto manifestado através da forma como nos olhamos, sentimos e das escolhas que vamos fazendo. E se é aqui que tudo começa, na saúde mental e nas capacidades que podemos desenvolver para vivermos da melhor forma possível, é fundamental aprendermos a pedir ajuda, aprendermos a falar do que nos dói, aprendermos a ouvir o que vive verdadeiramente dentro de nós, para melhor vivermos. Crescer custa e viver, às vezes, dói. Precisamos de olhar para as dificuldades como oportunidade para vivermos melhor em nós, com os outros e no mundo. Muitas vezes, investimos mais depressa no nosso mundo exterior, naquilo que de facto nos traz um prazer imediato, mas que em nada muda a nossa vivência interior. Não estou com isto a dizer que não podemos crescer sozinhos e que não temos dentro de nós as ferramentas para resolver o que nos dói, no entanto, assim como também podemos pegar numa tesoura e cortar o cabelo sozinhos, correndo o risco de depois termos mais trabalho e investimento a resolver a situação, caso não fique bem, o mesmo se passa com os nossos desafios pessoais e com aquilo que nos faz sofrer. Pedir ajuda é um ato de coragem e quando nos sentamos para desembrulhar o mundo que vive dentro de nós, vivemos com outra leveza, bem-estar, equilíbrio e sentido. Acredito eu!

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