Como descreveria a sua carreira até ao momento em que se tornou diretora clínica deste hospital? Este era um propósito de carreira – a evolução profissional?
A minha carreira tem sido marcada por dedicação, formação contínua e paixão pelo cuidado centrado na pessoa, sempre com vontade de me superar e de crescer como profissional e como pessoa. Abracei os desafios com sentido de responsabilidade e um compromisso com a melhoria dos cuidados prestados e com o desenvolvimento das equipas. Esta entrega tornou este passo uma evolução natural, mais do que um objetivo traçado.
Quais as características que possui que a tornam uma pessoa capaz de assumir esta função?
Assumir uma função de liderança em saúde exige capacidade de comunicação, escuta ativa, compaixão, resiliência e pensamento estratégico na tomada de decisões. A organização, priorização e mediação são também essenciais num ambiente exigente como o da saúde. Destaco ainda o trabalho em equipa, o foco em soluções e a capacidade de adaptação a diferentes contextos.
No setor da saúde, ainda existem mais lideranças masculinas do que femininas, embora existam muitas mulheres médicas. Por que razão lhe parece que as funções de liderança ou coordenação ainda estão mais orientadas para os homens?
Apesar de, na minha experiência pessoal, não ter vivido diretamente esta realidade, reconheço que ela existe para muitas colegas. As estruturas hierárquicas na saúde foram durante décadas dominadas por homens, criando dinâmicas de poder que tendem a perpetuar-se. A liderança ainda é associada a traços como autoridade e rigidez, relegando competências como empatia ou cooperação, frequentemente atribuídas ao feminino. Paralelamente, a pressão social sobre as mulheres na conciliação entre vida profissional e familiar pode afetar a perceção da sua disponibilidade para cargos de responsabilidade.
Quais os desafios que encontrou, ao longo da sua carreira, que a seu ver provam que ainda existe necessidade de mudanças – quer culturais, quer no ambiente laboral – para que as mulheres e homens sejam perfeitamente equiparados, no que toca a gerir uma equipa/unidade hospitalar?
Ao longo do meu percurso profissional, enfrentei desafios como comentários depreciativos sobre o género e a idade. Sendo mulher e jovem, a credibilidade não me foi automaticamente reconhecida — foi conquistada. Persistem ideias culturais que associam a liderança a rigidez e distanciamento, características mais toleradas nos homens, e dinâmicas informais que favorecem quem integra redes de influência antigas e masculinas.
“É essencial investir em programas de mentoring, formação em gestão para mulheres
e em processos de nomeação transparentes e assentes na meritocracia”.
O que falta ainda fazer, em termos de medidas práticas, que ajudaria a uma maior equidade entre géneros quando se trata de serem designados para uma função de liderança?
É essencial investir em programas de mentoring, formação em gestão para mulheres e em processos de nomeação transparentes e assentes na meritocracia. A conciliação entre vida profissional e pessoal deve ser prioritária, tal como a valorização de percursos não-lineares, frequentemente desvalorizados, mas ricos em experiência e maturidade. Educar para a igualdade desde cedo é também decisivo para transformar mentalidades e abrir caminho a lideranças mais diversas e representativas.










