A Doença do Olho Seco (DOS) e a sua principal causa (blefarite)

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A Doença do Olho Seco (DOS) é uma doença multifactorial da superfície do olho, caracterizada por uma perda da
homeostasia da lágrima e acompanhada por: sintomas oculares, como sensação de secura ocular, areias e/ou corpo estranho; inflamação da superfície do olho e lesão epitelial ou mais profunda em casos mais graves.

O olho seco pode ser dividido em dois tipos principais: por insuficiência lacrimal (falta de lágrima) e evaporativo (evaporação aumentada da lágrima), sendo este último responsável pela maioria dos casos. O olho seco por mecanismos mistos (deficiência lacrimal e evaporativo) é a segunda forma mais frequente de olho seco.

A principal causa de olho seco evaporativo é a Disfunção da Glândulas de Meibómio (DGM) que são cerca de 70 glândulas, localizadas em cada um dos quatro bordos palpebrais e são produtoras de material lipídico (gordura) cuja função é impedir a evaporação da lágrima.

Outras causas menos frequentes são as doenças da pálpebra (paralisia do nervo facial, doença de Parkinson, alterações do estado de consciência como o coma ou sedação profunda, doenças que cursem com proptose – protusão do globo ocular além do plano das órbitas, conjuntivites cicatrizantes), deficiência de Vitamina A, conjuntivite alérgica, utilização de lentes de contacto e colírios oftalmológicos com conservantes na sua constituição.

Na presença de uma DGM a camada lipídica da lágrima fica alterada quer em qualidade, quer quantidade, tornando-se mais fina e rompendo mais rápida e facilmente. Desta forma, e sem a sua camada mais externa, protetora, a lágrima evapora mais rapidamente e a superfície do olho desidrata, ficando lesada.

Se esta deficiência lipídica não for tratada leva à instabilidade do filme lacrimal que, por sua vez, leva ao aumento da evaporação e ao agravamento da inflamação, lesando as células da córnea e da conjuntiva.

BLEFARITE: O QUE É? E COMODIAGNOSTICAR?

A blefarite corresponde a um processo inflamatório e/ou infeccioso das pálpebras, tendo geralmente um curso crónico e recorrente. Pode ser dividida em dois tipos:

Fig.1

-A blefarite anterior atinge maioritariamente a área que envolve a base dos cílios palpebrais e pode ser dividida em dois grupos, consoante a sua etiopatogénese: aquelas que resultam de uma infeção estafilocócica (Fig. 1) e as que ocorrem por produção excessiva de componentes lipídicos, geralmente associada a uma disfunção seborreica generalizada (dermatite seborreica) (Fig. 2);

-A blefarite posterior envolve maioritariamente a porção posterior da margem palpebral e resulta na maior parte dos casos de uma DGM e, consequentemente, de uma alteração da sua secreção sebácea, essencial à estabilidade do filme lacrimal. É umas das principais causas de olho seco em todo o mundo e a sua prevalência
na população caucasiana varia entre os 3,5-19,9% consoante os estudos.

Fig.2

Apesar de existir uma considerável sobreposição clínica entre estas duas entidades, elas resultam de processos fisiopatológicos distintos e apresentam diferentes sinais e formas de tratamento.

Não existem sintomas específicos associados às duas formas de blefarite. A presença de queixas recorrentes de picada, sensação de corpo estranho, desconforto ocular e ardor, muitas vezes de agravamento matinal, podem corresponder a uma blefarite. Salienta-se, no entanto, que diminuição da acuidade visual, dor ocular e a presença de secreção purulenta não são compatíveis com este diagnóstico. É muito frequente o doente reparar na presença de um bordo palpebral mais vermelho e inflamado que o habitual.

Pela íntima relação entre a superfície do olho e as pálpebras, qualquer blefarite pode cursar com alterações inflamatórias secundárias ao nível da conjuntiva, da córnea e da própria pálpebra.

Logo, na ausência de tratamento ou quando este não é o adequado, complicações recorrentes como hiperémia conjuntival (olho vermelho), conjuntivite papilar, queratite marginal, hordéolo, calázio (terçolhos de repetição) (Fig. 3), alterações cicatriciais dos cílios e margem palpebral com perda de pestanas ou direção irregular das mesmas e olho seco evaporativo são frequentes e associadas a elevada morbilidade.

Fig.3

Blefarite Posterior

Neste tipo de blefarite a DGM é o mecanismo central. Esta resulta de uma obstrução dos dutos terminais das Glândulas de Meibómio por queratinização incompleta e da proliferação e ação de lipases bacterianas que levam à formação de ácidos gordos livres. Estes fatores interferem na produção e expressão dos componentes lipídicos das glândulas, os quais se acumulam. Assiste-se, portanto, a uma alteração quantitativa e qualitativa da sua secreção (meibum).

Uma nota para os utilizadores de lentes de contacto, uma vez que cerca de 50% destes têm frequentemente sintomas de olho seco, o que poderá ser devido à DGM, juntamente com outros fatores. As lentes de contacto alteram a camada lipídica da lágrima, causam instabilidade, evaporação, inflamação e proliferação bacteriana.

Em relação com fatores mecânicos, inibem o movimento fisiológico da pálpebra e a expressão normal do conteúdo das glândulas de Meibómio. Ao exame oftalmológico este tipo de blefarite manifesta-se com hiperémia e telangiectasias da margem palpebral posterior; presença de espuma ao nível do menisco lacrimal e margem palpebral; obstrução dos orifícios das glândulas de Meibómio associada à presença de tampões lipídicos (fig. 4). Alterações secundárias ao nível da superfície ocular externa e pálpebra são também frequentes.

Fig.4

COMO TRATAR?

Pela sua frequente associação ao olho seco evaporativo, medidas gerais que visam controlar os fatores de agravamento desta patologia poderão ser benéficas, como reduzir a exposição a ambientes ventosos, ar condicionado, aumentar a humidade do ar e diminuir os períodos de esforço visual prolongado que estão
associados a uma diminuição da frequência do pestanejo.

Numa fase inicial, a DOS é tratada com substitutos da lágrima, seja na forma de colírio, géis ou pomadas. A maioria destes lubrificantes são à base de água e contêm polímeros viscosos como por exemplo hialuronato de sódio (Hylo Dual®, Hylo Comod®), metilcelulose ou polividona.

A substituição da camada mais externa de gordura da lágrima deverá ser realizada com componentes lipídicos como por exemplo Evotears® – perfluorohexiloctano. Constitui uma terapêutica dirigida especificamente à camada lipídica alterada e está indicado especialmente em doentes com olho seco evaporativo por DGM (a maioria).

A terapêutica com ciclos de corticosteróides tópicos, ciclosporina tópica ou outros imunossupressores e produtos derivados e purificados do sangue deverá ser reservada ao médico Oftalmologista.

Em relação às blefarites, sendo uma doença crónica é necessário enfatizar junto do doente o potencial controlo sintomático, mas não a cura. A medida mais importante no tratamento das blefarites é a higiene palpebral, a qual passa pela utilização de compressas quentes, massagem e limpeza da margem palpebral com compressas
adequadas para o efeito, sem conservantes (ex: Posiforlid® toalhitas). A utilização de um antibiótico tópico ou oral (grupo das tetraciclinas) e corticosteróide tópico está também indicada no sentido de reduzir a concentração bacteriana e a inflamação.

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