“A liderança afirma-se com rigor e exemplo diário”

Ana Cristina Domingues construiu a ACD Advogados com determinação, firmeza e visão, afirmando uma liderança feminina feita de mérito, proximidade e exemplo diário num setor ainda desafiante para as mulheres.

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Fundou a ACD Advogados numa época em que a liderança feminina nos grandes escritórios de advocacia era menos representativa. Que momentos do seu percurso colocaram mais à prova a sua determinação e que aprendizagens considera terem sido decisivas para afirmar a sua liderança?
Os momentos que mais me puseram à prova foram os anos em que construí e consolidei o escritório com enorme esforço, nem sempre com o apoio que hoje felizmente tenho, e com a dificuldade de manter equipas estáveis. Aprendi que a liderança se afirma com rigor, trabalho, persistência e exemplo diário.

Ao longo de mais de 30 anos de advocacia, acompanhou casos complexos em diferentes áreas e lidou com realidades humanas muito distintas. De que forma essa proximidade às histórias dos seus clientes moldou a mulher e a líder que é hoje?
A proximidade aos clientes tornou-me mais humana, atenta e resiliente. A advocacia obriga- nos a entrar em histórias de vida muito sensíveis. Muitas vezes priorizei os assuntos dos clientes em detrimento da vida pessoal, familiar e do descanso. Ainda assim, dou por bem empregue cada minuto dedicado a esta carreira.

A sua atividade estende-se por áreas como o Direito Penal, Comercial, Laboral, Fiscal e Imigração. Num contexto em que as mulheres continuam, muitas vezes, a ter de provar mais o seu valor, sentiu que teve de desenvolver uma forma própria de exercer autoridade e conquistar credibilidade?
Sim. Dei os meus primeiros passos enquanto advogada na área da imigração, tendo inclusivamente publicado uma coletânea de legislação nessa área. Tive de conquistar o meu espaço com firmeza, mas sem abdicar da minha identidade. Sempre procurei exercer autoridade com competência, seriedade, respeito e capacidade de decisão. A credibilidade constrói-se todos os dias, e o reconhecimento e carinho dos clientes continuam a ser uma enorme motivação.

Na sua perspetiva, o que continua por mudar no setor jurídico para que o talento feminino deixe de ser visto como uma exceção e passe a ser encarado como uma evidência?
Continua a ser necessário reconhecer o mérito feminino com naturalidade, e não como exceção. Para isso, é essencial garantir às mulheres acesso real aos processos de maior responsabilidade, à gestão de clientes e aos lugares de decisão, com critérios de promoção transparentes e iguais para todos, e sem que a maternidade ou a vida familiar sejam vistas como obstáculos. No setor jurídico, como na sociedade, a crise institucional também atingiu a justiça: cara, morosa e muitas vezes inacessível ao cidadão comum. Reformá-la implica valorizar lideranças diversas, preparadas e humanas.

Se pudesse deixar uma mensagem às jovens mulheres que sonham construir uma carreira de sucesso na advocacia, ou criar o seu próprio projeto empresarial, qual seria o maior conselho que lhes daria?
Diria que não desistam. A advocacia exige esforço, sacrif ício e muita dedicação, mas pode trazer uma profunda realização. Sou uma mulher realizada, gosto muito do trabalho que desenvolvo e conto com o apoio dos meus dois filhos, ambos advogados, que motivaram a abertura do nosso segundo escritório nos Açores. Acreditem no vosso valor e em melhores dias para a justiça.