Que tendências globais estão a transformar a gestão de projetos de grande escala?
A Inteligência Artificial (IA) é hoje o maior desafio tecnológico, embora ainda poucos saibam explorá-la em profundidade. Ao mesmo tempo, as alterações na economia global, logística, recursos humanos e trabalho remoto pressionam os modelos tradicionais e, nalguns casos, provocam um retrocesso na disciplina organizacional, afetando eficiência e qualidade. Para responder a estes desafios, as organizações recorrem cada vez mais a métodos de gestão avançados, baseados em dados, insights e IA.
Nos últimos três anos colaborou com a Google/Alphabet na aplicação da metodologia Earned Value Management (EVM) em centros de dados europeus. Como pode o EVM otimizar a sua gestão?
Falamos de vários centros de dados, com um orçamento global de milhares de milhões de euros, distribuídos por diferentes países europeus. Cada projeto envolve vários fornecedores e culturas de trabalho distintas, o que exige integração e coordenação, além de preocupações com sustentabilidade energética e impacto ambiental.
O EVM foi escolhido por ser rigoroso, objetivo e transparente, capaz de gerar informação de gestão avançada. Criado pelo Departamento de Defesa dos EUA, permite gerir projetos com base em dados e tem ganho relevância mundial e adoção crescente no setor privado.
“O EVM foi escolhido por ser rigoroso, objetivo e transparente, capaz de gerar informação de gestão avançada. Criado pelo Departamento de Defesa dos EUA, permite gerir projetos com base em dados e tem ganho relevância mundial e adoção crescente no setor privado”
O trabalho que está a desenvolver com a PMO Projects Group, em parceria com especialistas norte-americanos, pretende tornar metodologias avançadas como o EVM mais acessíveis às organizações. A IA poderá democratizar esse acesso?
A tecnologia evoluiu para executar tarefas repetitivas e até perigosas com maior eficiência e qualidade, libertando as pessoas para atividades de maior impacto. A IA faz o que já sabemos fazer, mas mais depressa e com menos erros: analisa dados, faz deduções e executa fluxos de trabalho complexos. Neste projeto, o objetivo é criar agentes de IA capazes de analisar projetos através do método EVM.
Em vez de o analista “mergulhar num oceano de dados”, a IA poderá validar informação e gerar relatórios sintéticos sobre custos, desvios e áreas críticas. A solução já foi testada e funciona, apesar de ainda existirem limitações. Trata-se de um serviço de advisory para equipas de projeto, tornando o EVM e os seus benefícios mais acessíveis. Os desenvolvimentos serão publicados em www.earnedvaluemanagement.ai. Existem ainda iniciativas semelhantes, como uma na Noruega e uma outra, a Constructer.ai, com participação de profissionais portugueses. A AACEi.org é também uma fonte de práticas muito relevantes nesta área.
Estamos perante uma mudança estrutural na profissão de Gestor de Projetos?
A IA irá libertar os profissionais de tarefas menos relevantes, desde resumos de reuniões a relatórios de progresso. O maior impacto estará na qualidade dos dados e na produção de análises de gestão, incluindo estimativas de custo e prazo ou diagnóstico de desvios. O gestor de projetos do futuro terá de dominar tecnologia e ferramentas de IA, tomando decisões mais rápidas e informadas, com acesso em tempo real a informação avançada.
O perfil será mais estratégico, com novas competências, maior capacidade de decisão e responsabilidades acrescidas. A IA poderá ainda reforçar a transparência, produzindo análises mais independentes, objetivas e menos condicionadas por fatores externos.










