Arquitetura nacional sustentável e inovadora

O arquiteto Francisco Cunhal é apaixonado pela sua profissão. Enquanto diretor da DARQ2 – Arquitetura e Design, acredita que cada projeto é único e que cada edifício deve ter “Alma Própria”, conseguida através de uma conjugação de materiais, texturas e cores. O projeto One Health Research Center, em destaque nesta entrevista, foi desafiante e enriquecedor, sobretudo por ser um edifício único a nível internacional. Vai nascer em Almada, na Margem Sul do Tejo.

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Como se caracteriza um espaço com “Alma”?

Um espaço com “Alma” tem identidade própria, é aquele ambiente onde nos sentimos bem, que nos provoca emoções, ou mesmo memórias no seu observador. É sempre diferente de espaço para espaço, porque serão únicos e projetados à imagem do promotor. A preocupação é grande nos detalhes para que se sintam confortáveis e que, se possível, ultrapasse as expectativas, por isso são muito pensados para as diversas propostas distintas.

Os materiais e as cores são também fundamentais para esse bem-estar. Qual a importância dos materiais utilizados na Arquitetura?

Os materiais evoluíram muito, de forma extraordinária, e fazem parte integrante do processo. Através da forma, cor, textura dos materiais escolhidos que transmitem diferentes sons e temperaturas, conseguimos oferecer uma superior amplitude social e estética através de uma Arquitetura que se prende na serenidade, sedução e conforto. Despendemos muito tempo na seleção e escolha para cada projeto, o que nos obriga a estarmos permanentemente atualizados. As cores afetam a emoção e a razão e os efeitos que cada cor pode ter sobre a cor típica de cada sentimento, como do amor ao ódio, do otimismo à tristeza, da elegância à desarmonia, do belo ao feio, do moderno ao antiquado, do claro ao escuro, não se combinam ao acaso, mas condicionam a materialização da nossa Arquitetura. Usar as cores de maneira bem direcionada significa poupar tempo e esforço, fazendo com que a Arquitetura já não seja mais do mesmo.

Neste momento, a Arquitetura está interligada com várias questões, para além da importância dos materiais, a poupança energética, a sustentabilidade e a diminuição do impacto ambiental. É possível fazer uma boa Arquitetura, mesmo tendo de respeitar todos estes desafios?

A Arquitetura está cada vez mais desafiante e isso também obrigou a fazer uma reflexão sobre o modo de a desenhar. Houve uma fase muito difícil porque a legislação mais rigorosa estabeleceu como prioritária uma imensidão de regras e regulamentos na parte tecnológica das construções. Só depois de todas as especificidades técnicas estarem asseguradas é que o projeto passava para a fase criativa, que ficou comprometida. Felizmente, com a evolução das técnicas e dos equipamentos disponíveis, os engenheiros acompanharam essa evolução e, hoje, já é possível projetarmos um edifício com grande criatividade, onde a questão infraestrutural não se coloca porque existem sempre soluções de engenharia que respondem às necessidades. A sustentabilidade hoje é quase uma obrigação. Isto tem um custo para o promotor, mas cabe-nos explicar que o investimento não pode ser visto como algo para o momento, mas como algo que compensará a longo prazo.

Um dos projetos que conjuga todos os pontos mencionados acima é o do One Health Research Center. Quais as principais características deste projeto?

Este projeto é realmente diferenciador, porque vai muito além da arquitetura. É o próprio conceito do edifício que é inovador. É um projeto que a Universidade Egas Moniz, Cooperativa de Ensino em Ciências Médicas, vai tornar realidade. É um edifício complexo que conta com diferentes componentes vocacionadas para utilizações específicas. Destacam-se o Hospital Veterinário Escolar de Animais de Companhia, o Hospital Veterinário Escolar de Equinos, Laboratórios de Investigação, Laboratórios de Competências e Simulação Clínica. Este edifício tem mais de seis mil metros quadrados e trata-se de um Centro de Investigação de Ciências Médicas. Foi pensado para a área da Saúde Veterinária, mas também para a área do Ensino e concebido para que lá circulem diariamente 800 pessoas. O One Health Research Center é um edifício totalmente inovador, tecnologicamente avançado, com sistema de biossegurança implementado, ecologicamente sustentável e com domótica inteligente que permite o controlo de todo o edifício com elevada eficiência energética. Prevê-se um custo de exploração quase nulo para o aquecimento/arrefecimento das águas e do próprio edifício. As fachadas ventiladas, coberturas vegetais, jardins verticais, aproveitamento das águas pluviais, vidros de baixa emissividade, sistema geotérmico, painéis fotovoltaicos, ajudam ao alto desempenho. Na gestão de resíduos, destaca-se o sistema de compostagem para transformação em fertilizantes. Foi um projeto que demorou cerca de um ano e meio a executar e terá um valor de obra estimado em 10 milhões de euros.

Em Portugal, já é dada a devida importância à Arquitetura e aos arquitetos nacionais?

Para que a Arquitetura nacional tivesse a devida projeção interna, foi necessário que alguns grandes arquitetos portugueses vencessem os principais prémios de Arquitetura mundial. Além disso, a revogação da lei que permitia aos engenheiros desempenharem a função de arquitetos permitiu que os projetos de Arquitetura regressassem aos arquitetos e, claro, esta área desenvolveu-se e evoluiu. A partir daí, surgiram jovens arquitetos com projetos muito bons, que foram reconhecidos internacionalmente, bem como foram responsáveis por obras internacionais de renome, o que permitiu valorizar a profissão e esta classe de profissionais também internamente.

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