Portugal prepara-se para atribuir 60 MW de nova capacidade para centrais de biomassa. O sinal é claro, mas deixa uma questão: se precisamos da biomassa, porque continuamos a tratá-la como o parente pobre das energias renováveis? Durante anos, a política energética privilegiou o solar e a eólica, juntando agora o armazenamento, o hidrogénio verde e o biometano. Todas são soluções necessárias, mas nenhuma elimina uma fragilidade básica: nem o sol brilha, nem o vento sopra quando precisamos.
Já a biomassa tem uma característica que deveria pesar muito mais nas decisões de política energética. Produz energia de forma contínua, previsível e controlável. E fá-lo utilizando um recurso disponível no território nacional.
Num país que, todos os verões, enfrenta incêndios, abandono rural e falta de gestão florestal, esta deveria ser uma vantagem estratégica. Mas persistimos num paradoxo: queremos limpar a floresta sem garantir valor ao material retirado, reduzir o risco de incêndio sem assegurar uma gestão permanente e reforçar a autonomia energética enquanto subvalorizamos uma fonte renovável nacional.
A floresta não se gere por decreto. Sem procura, sem mercado e sem uma cadeia económica capaz de valorizar os sobrantes florestais, continuaremos a gastar recursos a retirar biomassa do território sem resolver o problema estrutural que passa por tornar economicamente viável uma floresta gerida.
É neste contexto que a nova capacidade anunciada pelo Governo deve ser encarada. os 60 mw previstos, com um máximo de 10 mw por central, podem representar um passo importante. mas convém recordar que portugal em 2006 foram lançados concursos para 100 mw de capacidade em Centrais de Biomassa e os resultados ficaram muito aquém do inicialmente previsto.
Construir novas centrais sem garantir abastecimento sustentável, logística, estabilidade económica e articulação com a política florestal é correr o risco de repetir erros do passado. A biomassa pode alimentar uma bioeconomia de novos materiais, bioprodutos e combustíveis sustentáveis, criando uma oportunidade industrial que vai muito além das centrais.
Temos floresta. Temos matéria-prima. Temos operadores com experiência. Temos um problema estrutural de gestão do território. E queremos um sistema energético mais autónomo, resiliente e menos dependente do exterior. Poucos recursos conseguem responder simultaneamente a tantos desafios.
Por isso, os novos 60 mw são uma boa notícia. mas a transição energética não pode ser uma competição entre tecnologias. precisa de solar e eólica, mas também de fontes capazes de produzir quando aquelas não produzem.
Se o próprio Estado reconhece agora que precisamos de mais capacidade para valorizar biomassa, talvez tenha chegado o momento de responder à questão que há demasiado tempo evitamos: afinal, queremos verdadeiramente valorizar a biomassa ou queremos apenas lembrar-nos dela quando a floresta arde?.










