BAÍA IMPECÁVEL: projeto pioneiro cria e comercializa camarão fresco em Portugal e na Europa

A Baía Impecável é a primeira empresa em Portugal dedicada à produção de camarão em águas marinhas, em regime de aquacultura sustentável. Cofinanciado pelo Mar 2030 e apoiado pela StartUp Portugal, o projeto de Paulo Marques está a nascer no Cadaval e contará com maternidade e tanques de engorda de camarão litopenaeus vannamei, que poderão depois ser distribuídos pelos clientes, quer em Portugal, quer um pouco por toda a Europa, para colmatar uma lacuna existente num mercado onde o consumo deste marisco está a aumentar: disponibilizar um produto fresco e produzido de acor￾do com as normas europeias aos clientes.

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Quais são as características que distinguem este projeto, que é apoiado pelo Mar 2030 e certificado enquanto startup?

Em Portugal e na Europa simplesmente não existia produção de camarão, pelo que somos a primeira empresa a fazê-lo. O clima era a principal razão pela qual não se criava este marisco no continente europeu – este animal necessita de água a 28 graus e a nossa costa tem-na a cerca de 16/17 graus. Por essa razão, não era sequer sustentável economicamente produzir camarão. A Baía Impecável tentou suprir todos os obstáculos que
impossibilitavam a produção de camarão na Europa, e foi isso que levou ao desenvolvimento tecnológico aquícola que originou a atribuição da definição de startup por parte da StartUp Portugal. Este projeto reúne as características necessárias para ser classificado como tal, nomeadamente: é uma empresa recente; tem um modelo de negócio que é replicável; e o nosso processo de criação e engorda de camarão indoor é uma novação tecnológica.

Como funciona este processo de produção e engorda de camarão indoor?

Nós introduzimos dentro dos tanques de engorda água marinha, uma microalga e camarão. Apenas isso. Não introduzimos nenhum fármaco. Depois, aquecemos o ambiente à temperatura de 28 graus. A novidade tecnológica está no processo em si, porque todos os componentes que dele fazem parte já existiam anteriormente.

O que mudou para que se tenha tornado rentável a produção de camarão em ambiente aquecido?

A questão climatérica é importante, porque, até ao momento, a única forma de produzir este marisco era criar uma “lagoa” junto ao mar – aquecia-se a água do mar, o camarão vivia nessa água e, ao fim de dois dias, 20% da água
tinha de ser renovada, o que significava colocar nova água nas lagoas e ter de voltar a aquecê-la. Uma vez que não se colocava a microalga, a água não durava muito tempo. Com a microalga, não há necessidade de substituir a água quase diariamente, o que torna este processo executável mesmo em zonas afastadas da orla costeira. Outra questão prende-se com a forma de aquecer a água. É economicamente mais viável fazer o aquecimento utilizando painéis solares, que é o nosso caso. Utilizamos uma tecnologia de uma startup finlandesa, que se chama bateria de areia,
cujo objetivo é aquecer a areia que, possuindo sílica, é um material que mantém o calor. Este calor é depois transportado por uma serpentina que permite aquecer todos os tanques à temperatura ótima para o crescimento do camarão.

Qual o papel da microalga dentro dos tanques de engorda de camarão?

A microalga tem a particularidade de, além de regenerar a água, ser um alimento para o próprio camarão. O animal come a ração, pode alimentar-se também da microalga, defeca, perde a sua casca, e todos estes dejetos são depois absorvidos pela microalga. Isso mantém a água limpa e leva a que a mesma não necessite de ser trocada durante os próximos sete a 10 anos. Note-se, também, o seguinte: uma vez que a microalga é alimento para o próprio camarão, o rácio de ração que é introduzida para fazer um quilo deste marisco é menor. Em vez de pormos três quilos de ração para fazer um quilo de camarão, pomos apenas 1,4 quilos de ração para fazer a mesma quantidade de camarão. O rácio de transformação do alimento em proteína é muito mais baixo. Esta é uma das razões pelas quais a Startup Portugal nos certifica.

Que outras razões levaram a Startup Portugal a certificar este projeto?

A outra razão é o facto de as unidades de engorda poderem ser replicadas facilmente. Para montar uma unidade de engorda, basta ter os tanques, uma forma de controlar a temperatura a 28 graus, a microalga e efetuar injeções de
oxigénio na água, de vez em quando (que nada mais é do que introduzir ar dentro de água).

Quais as vantagens deste negócio ser levado a cabo diretamente na Europa, neste caso a partir de Portugal?

Em primeiro lugar, falamos de camarão fresco. Hoje, todo o camarão que se come em Portugal e na Europa é importado, o que significa que, após ser feita a despesca (termo utilizado para pesca em aquacultura) do camarão, este é preparado e congelado e tem de ser transportado, por via marítima, até ao continente europeu.
Normalmente é descarregado em Vigo e depois é distribuído para quem compra. Tendo camarão fresco a partir de Portugal, desaparece a necessidade de transporte marítimo, o que já torna o processo mais sustentável e amigo do
ambiente, além de que este camarão é produzido de acordo com as normas europeias para a alimentação, sem qualquer fármaco, ao contrário do camarão que é importado atualmente. A própria água utilizada nos tanques de criação e engorda pode regressar ao mar sem qualquer problema, finda a década de utilização na criação e engorda dos camarões.


O que são as larvas de Tenebrio molitor e qual a vantagem de alimentar o camarão com elas?

Está tudo relacionado com a taxa de conversão de cada animal. O camarão tem uma taxa de conversão de 1,4 e o tenebrio tem uma taxa de conversão semelhante. Isto significa que, para cada quilo que eu dou de alimento ao tenebrio, isso reflete-se na quantidade de proteína (de produção animal) que daí resulta. Além disso, o tenebrio já está autorizado para a alimentação humana, o que significa que este é o tipo de produto com o qual podemos alimentar também o camarão, segundo normas europeias.

Este é um projeto com escala para crescer?

Sem dúvida. Neste caso, não existe o problema de produzir e não ter quem comprar. O preço deve, apenas, manter-se competitivo, mas ainda que seja ligeiramente mais caro, o facto de ser camarão fresco e produzido segundo as
normas europeias são grandes mais-valias.

É possível replicá-lo fora de Portugal ou só faz sentido continuar a crescer dentro do país, já com a infraestrutura montada?

Sim, é possível replicar. Estamos agora a lançar as bases do projeto – precisávamos de uma maternidade, de uma engorda juvenil e de vários tanques de engorda. A maternidade é a base de tudo, mas não precisa de ser replicada. Podem construir-se apenas infraestruturas de engorda, em qualquer lugar que faça sentido – à entrada de grandes cidades, por exemplo – de forma a facilitar a logística da entrega do camarão aos clientes.