Borracha: As várias aplicações de um produto ainda pouco valorizado

A Genan nasceu com o desígnio de resolver um problema causado pelos pneus que estavam a acumular-se nos aterros em todo o mundo, nos anos 80. Ao longo dos anos, a empresa dinamarquesa foi crescendo e tem, desde 2020, uma empresa em Ovar, que desenvolve produtos de granulado de borracha, com base nos constituintes de pneu. Marta Martins, gestora de projetos de inovação, reconhece que falta dar a conhecer à população o valor da borracha e as suas aplicações e realça, em números, o valor do trabalho da Genan.

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Inicialmente, qual era o objetivo desta reciclagem? Novos produtos, ou reciclar o material para produção de novos pneus?

Nos anos 70 e 80 houve um crescimento exponencial de todo o tipo de veículos e os pneus em fim de vida tornaram-se um problema. Foi aqui que a Genan viu uma oportunidade – dar um novo destino a uma quantidade crescente de pneus em fim de vida. Os pneus são verdadeiros produtos de engenharia – são compostos por centenas de produtos químicos, tendo em vista elevados desempenhos mecânicos e de segurança, de maneira que seria um desperdício descartá-los em aterro. Além disso, esta solução é absolutamente nefasta para o meio ambiente. Assim, em 1990, começou a operar a primeira fábrica, na Dinamarca. Depois, surgiram mais três na Alemanha e uma nos EUA. Há cerca de três anos, a Genan adquiriu a Biosafe, em Ovar, que já trabalhava na área da reciclagem de pneus. O que a Genan faz é usar processos mecânicos altamente eficientes para obter uma
separação dos diferentes componentes do pneu – a borracha, o têxtil e o aço – e damos uma nova vida a cada um deles – o aço vai para a siderurgia; o têxtil é usado como recurso energético nas cimenteiras, mas estamos a
desenvolver outras soluções com vista à reutilização da totalidade dos constituintes dos pneus em fim de vida em aplicações sustentáveis. No caso do têxtil, passa pela criação de estruturas tridimensionais com enorme potencial para isolamento térmico e acústico; e a borracha tem um sem-número de aplicações. É produzida numa variedade enorme de granulometrias – desde os pós muito finos, como o pó criogénico, conseguido através da moagem a baixas temperaturas, pós mais ou menos finos, até aos granulados. Cada um tem uma aplicação diferente – materiais para a ferrovia, campos de relva sintética, barreiras sonoras, parques infantis, tapetes de
ginásio, construção civil, para isolamento e proteção,… Também já conseguimos vender para fabricantes de pneus – numa quantidade ainda pequena (comparativamente a toda a formulação de novos pneus) e numa
granulometria muito específica (pó criogénico).

Porquê a aposta na moagem criogénica?

A Genan não faz qualquer transformação química dos materiais constituintes dos pneus, pelo que há um limite naquilo que podemos alcançar. Do ponto de vista de qualidade, o pó criogénico tem vantagens em relação ao pó
ambiental, pois o processo de baixa temperatura permite que muitas impurezas (o têxtil, por exemplo, que nunca é eliminado totalmente do granulado) sejam eliminadas, tornando este um pó muito limpo. Este produto
alarga bastante o leque de possibilidades de aplicação da borracha reciclada e conseguem obter-se granulometrias realmente muito baixas, que são requisito absoluto em certos processos.

Quão importante e crítica é, para a Genan, a I&D?

É importantíssima e muito crítica! O departamento de inovação é absolutamente essencial para a empresa, não só porque combina diferentes áreas de expertise – qualidade, produção, ambiente – mas porque mantém sempre o foco na sustentabilidade, transparência e qualidade como os valores centrais da Genan. A inovação da Genan tem como foco principal estimular e facilitar o desenvolvimento de novos produtos e aplicações para o nosso pó e granulado de borracha. Embora a Genan possa ser apenas um fornecedor de matéria-prima, estamos empenhados em liderar projetos de inovação sustentáveis, em cooperação com parceiros de relevo.

Em números, que reflexo tem no mercado o trabalho desenvolvido pela Genan, no que respeita a retirar do mercado os pneus usados e à redução do impacto ambiental que isso tem?

As últimas estimativas apontam para números absolutamente alarmantes: todos os dias são descartados sete milhões de pneus em fim de vida. Se considerarmos apenas o aço proveniente destes pneus, seria possível
construir o equivalente a uma Torre Eiffel por dia. Na Genan, transformamos este problema numa oportunidade verde, tendo as fábricas da Genan capacidade para processar aproximadamente mil toneladas de pneus em
fim de vida por dia reduzindo emissões de CO2 em 280 mil toneladas por ano. Estamos a desenvolver um site, intitulado “Drowning in tyres”, que está visualmente muito bonito, com animações e com métricas interessantes, que ajudam as pessoas a ter uma noção da importância de dar uma nova vida aos pneus usados.

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