Consolidar uma carreira no setor da Contabilidade – o exemplo de Estela Justino

A área da Contabilidade e Auditoria é exigente em termos de atenção e cuidado com o trabalho desenvolvido. As mulheres são, por norma, atentas ao detalhe, rigorosas e organizadas, o que as torna elementos de excelência neste setor. Estela Justino construiu a sua carreira a pulso nesta área e é, hoje, CEO da Star Accounting. Enquanto líder, assume que algumas alterações serão mais fáceis de implementar no mercado laboral quando as mulheres tiverem mais acesso aos lugares de decisão.

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As mulheres são, atualmente, cada vez mais nas áreas da Contabilidade e Auditoria. A que lhe parece que tal se deve?

A crescente presença feminina na Contabilidade e Auditoria deve-se a uma combinação de fatores sociais, educacionais e culturais. Por um lado, estas são áreas que valorizam o rigor, a organização e a ética, competências
em que as mulheres sempre se destacaram. Por outro, houve um avanço significativo no acesso à educação superior e na valorização da diversidade no mundo corporativo. Além disso, acredito que muitas mulheres encontraram na contabilidade uma forma de construir carreiras sólidas e independentes, com espaço para crescimento técnico e
também para liderança. No meu caso, essa escolha permitiu-me não só alcançar a posição de CEO e fundar a minha própria empresa, como também construir uma família, provando que é possível conciliar ambição profissional com realização pessoal.

Estas áreas são, também, exigentes. Como consegue uma mulher coordenar as suas funções e disponibilidade para a carreira com as outras atividades que – por norma – ainda passam por ela, como a gestão doméstica e a organização e apoio familiar? Sentiu, pessoalmente, este desafio?

Sem dúvida, conciliar uma carreira exigente com as responsabilidades familiares é um dos maiores desafios enfrentados por muitas mulheres, e eu não sou exceção. A contabilidade e a consultoria fiscal exigem precisão, foco e muitas horas de dedicação. Ao mesmo tempo, a gestão da vida familiar, que ainda recai em grande parte sobre as mulheres, exige presença, sensibilidade e energia. Pessoalmente, enfrentei esse desafio com organização, resiliência e, sobretudo, com uma rede de apoio sólida. Aprendi a estabelecer prioridades, a delegar quando necessário e a aceitar que não é preciso ser perfeita em tudo, todos os dias. O equilíbrio não é estático, é uma construção contínua, feita de escolhas conscientes e, muitas vezes, de renúncias temporárias em nome de um propósito maior.

O que é que, a seu ver, as mulheres aportam ao setor da Contabilidade e Auditoria, no que respeita às suas características e forma de trabalhar?

As mulheres aportam ao setor da Contabilidade e Auditoria uma combinação poderosa de rigor técnico, sensibilidade humana e visão estratégica. A sua forma de trabalhar tende a ser marcada pela atenção ao detalhe, pela ética profissional e pela capacidade de conciliar múltiplas responsabilidades com excelência. Além disso, vejo nas mulheres uma grande capacidade de escuta ativa, de empatia nas relações com clientes e equipas, e de resiliência perante os desafios.

Que medidas faltam introduzir no setor para que mais mulheres possam ter acesso a ele, sobretudo no que respeita à carga horária comummente associada a esta profissão?

Acredito que três medidas são particularmente urgentes: Flexibilização dos horários e modelos de trabalho; Promoção de políticas de igualdade de género nas empresas; Cultura organizacional mais inclusiva e humana. Acredito que liderar é também abrir caminho para outras. Como líder, acredito que flexibilizar não é perder rigor, é ganhar inteligência organizacional. E quanto mais o setor se abrir para modelos inclusivos, mais mulheres poderão contribuir com todo o seu potencial.

Acredita que, pela maior presença de mulheres a liderar empresas de Contabilidade e Auditoria, estas medidas de maior apoio às mulheres poderão surgir mais rapidamente?

Sim, acredito firmemente que a crescente presença de mulheres em posições de liderança e nas equipas de trabalho tem o potencial de acelerar a implementação de medidas mais inclusivas e equilibradas no setor da Contabilidade e Auditoria. Quando mulheres ocupam espaços de decisão, há uma maior sensibilidade para os desafios reais que muitas profissionais enfrentam, desde a conciliação entre vida pessoal e profissional até à necessidade de ambientes mais flexíveis e humanos.
A liderança feminina tende a valorizar a escuta ativa, a empatia e a construção de culturas organizacionais mais colaborativas. Isso cria terreno fértil para políticas que promovem o bem-estar, a equidade e a retenção de talentos.

Como avalia o seu percurso, no que respeita às dificuldades sentidas e à forma como elas se foram esbatendo ao longo do seu caminho profissional? Nota essa evolução positiva?

Avalio o meu percurso com um profundo sentido de realização, mas também com consciência das dificuldades que enfrentei ao longo do caminho. Ser mulher num setor tradicionalmente exigente, assumir responsabilidades de liderança e, simultaneamente, construir uma família, exigiu de mim uma força interior, uma disciplina constante e uma visão clara de propósito.
As dificuldades existiram, desde a necessidade de provar competência em ambientes predominantemente masculinos, até à gestão do tempo entre reuniões, prazos fiscais e os momentos em família. No entanto, cada desafio foi também uma oportunidade de crescimento.
Aprendi a transformar obstáculos em alavancas, e a usar a adversidade como combustível para a superação. Com o tempo, notei uma evolução positiva, tanto no setor, que tem vindo a abrir-se à diversidade, como em mim própria, que fui ganhando confiança, maturidade e capacidade de liderar com mais empatia e estratégia. Hoje, olho para trás com gratidão e para a frente com entusiasmo.