A CorPower Ocean nasceu na Suécia, em 2012, com a ambição de transformar a energia das ondas numa fonte renovável fiável. Pode contar-nos a história da empresa e explicar de que forma evoluiu da fase de investigação para a instalação do primeiro conversor comercial em Viana do Castelo?
A história da CorPower Ocean começa com uma inspiração interessante: o coração humano! O fundador, o cardiologista Stig Lundbäck, utilizou o seu conhecimento sobre como o coração bombeia sangue e regula a pressão para desenhar um sistema que pudesse fazer o mesmo com a energia das ondas. A Fase de Investigação, entre 2012 e 2015, focada no desenvolvimento e melhoria do conceito, em protótipos de pequena escala a operar em tanques de ondas, permitiu validar o conceito de acumulação de energia “WaveSpring”. Seguiu-se uma Fase de Demonstração entre 2015 e 2021. Foram realizados testes muito rigorosos em laboratório, evoluindo até à escala real, utilizando simuladores que replicam as dinâmicas do oceano. A transição para a fase pré-comercial, em curso, passa pelo projeto HiWave-5. O C4, o primeiro conversor de energia das ondas (WEC) em escala real, inclui uma boia produzida em materiais compósitos integralmente concebida e fabricada em Portugal, e está a ser testado no mar da Aguçadoura, ao largo da Póvoa do Varzim.
Portugal foi escolhido como palco para testes em mar aberto e para o desenvolvimento do projeto VianaWave, um parque de 15 MW ao largo de Viana do Castelo. Quais foram os fatores decisivos para esta aposta em Portugal e que papel desempenham as condições naturais, o ecossistema industrial e o enquadramento institucional português?
Portugal, e em particular Viana do Castelo, reúne condições ímpares para este setor: Recursos Naturais, ondas de classe mundial, consistentes e mar com profundidade ideal para conversores do tipo “Point Absorber”; Logística e Infraestrutura: a proximidade entre o Porto de Viana (a nossa base operacional, com apoio da APDL) e a zona de teste pré-licenciada da Aguçadoura simplifica a complexa logística de instalação e ligação à rede elétrica; Ecossistema Industrial: a existência de clusters de construção naval, metalomecânica pesada, e componentes eólicos (materiais compósitos) em Viana oferece o conhecimento técnico necessário e o enquadramento essencial para uma coordenação público-privada produtiva e consequente.

A tecnologia da CorPower Ocean inspira-se no funcionamento do coração humano e aposta num sistema de “phase control” para maximizar eficiência e garantir robustez em condições extremas. O que distingue concretamente os vossos conversores de energia das ondas (como o C4) das soluções anteriores no mercado?
O nosso sistema distingue-se pela sua capacidade de sobrevivência a tempestades e pela sua eficiência. O WEC dispõe de um conjunto de soluções para acumulação de energia mecânica e de controlo de fase, que permitem amplificar a deslocação da boia face aos geradores, aumentando a quantidade de energia produzida. O nosso WEC permite produzir até 5 vezes mais energia por unidade de peso de equipamento instalado, face a outros sistemas comparáveis. A capacidade de sobrevivência a tempestades decorre da robustez da solução, bem assim como do controlo de fase. Em condições extremas, o WEC assume o funcionamento em “transparency mode”, deixando as ondas passar sem oferecer qualquer resistência, o que contribui para evitar danos estruturais. Este mecanismo é uma inovação nos sistemas de energia das ondas, muito em linha com o que acontece nas turbinas eólicas, que ajustam o ângulo de suas pás para reduzir a carga em caso de ventos fortes.
“Verifica-se uma complementaridade estratégica entre a tecnologia sueca, a capacidade de trabalhar materiais compósitos e os recursos endógenos portugueses”.
Para além da produção de eletricidade renovável, a CorPower Ocean está a explorar novas aplicações, como a produção de hidrogénio verde em parceria com a SwitchH2. Que potencial vê na integração entre energia das ondas e hidrogénio, e que impacto poderá ter na transição energética europeia?
A parceria com a SwitchH2 visa criar um “Floating Green Hydrogen Hub”. O potencial é disruptivo por dois motivos. Enquanto os recursos solar e eólico apresentam alguma variabilidade (ou intermitência, como por vezes se diz), as ondas são um recurso persistente, que permite ao nosso WEC apresentar um perfil de produção não intermitente, especialmente interessante para consumidores intensivos de eletricidade, como os eletrolizadores. Por outro lado, sendo as ligações à rede elétrica um ponto sempre sensível no desenvolvimento de projetos de renováveis, e localizando-se quer a produção de eletricidade quer o seu consumo em ambiente off-shore, pode dispensar-se a necessidade de ligação elétrica submarina a terra, à rede elétrica nacional.
Sendo a CorPower Ocean uma empresa sueca com forte presença em Portugal, como avalia as relações bilaterais entre os dois países no domínio da energia, inovação e economia azul? Que oportunidades adicionais podem emergir desta cooperação?
Verifica-se uma complementaridade estratégica entre a tecnologia sueca, a capacidade de trabalhar materiais compósitos e os recursos endógenos portugueses. A Suécia possui uma longa tradição em inovação em engenharia de precisão, sistemas de controlo e financiamento de capital de risco para cleantechs. A CorPower Ocean beneficia deste ecossistema de inovação sueco para desenvolver o “cérebro” e o “coração” tecnológico dos seus conversores. Por outro lado, Portugal oferece uma costa atlântica com uma densidade energética de ondas excecional e águas que não congelam, permitindo testes e operações durante todo o ano. Além disso, Portugal possui uma infraestrutura portuária e industrial capaz de produzir e instalar ao largo estruturas marítimas de grande escala. Em Portugal, esta parceria contribui para a criação de empregos qualificados e para a revitalização de alguns setores, como a construção naval, fabrico de peças em materiais compósitos e a metalomecânica pesada, orientando-os para a fabricação de componentes para energias renováveis oceânicas. Esta colaboração é vital para que a energia das ondas saia do nicho de investigação e se torne uma realidade comercial no mix elétrico europeu. Ambos os países partilham a visão de que a autonomia energética da Europa passa pelo aproveitamento do oceano. A Suécia vê em Portugal a porta de entrada para demonstrar tecnologias que depois podem ser exportadas para todo o mundo.
“Os próximos passos da CorPower Ocean em Portugal focam-se na transição da fase de demonstração tecnológica para a expansão comercial em larga escala, aproveitando o novo quadro legal para energias renováveis offshore”.
Depois de garantir financiamento significativo europeu e reconhecimento internacional, incluindo a distinção no “Global Cleantech 100”, quais são os próximos passos da CorPower Ocean em Portugal e na Europa? Quando poderemos falar de energia das ondas plenamente integrada no mix energético comercial?
Os próximos passos da CorPower Ocean em Portugal focam-se na transição da fase de demonstração tecnológica para a expansão comercial em larga escala, aproveitando o novo quadro legal para energias renováveis offshore (PAER; Resolução do Conselho de Ministros n.º 19/2025). Em termos concretos, estão em curso os últimos testes da versão C4, para a conclusão da certificação do WEC pela DNV (potencia nominal plena e validação de tecnologia em condições reais de operação continua). Em paralelo, estamos a produzir e testar os WECs da família C5, tendo em vista a demonstração de capacidade de operação de um parque de ondas, com a instalação de 3 dispositivos, totalizando uma capacidade de 1,2 MW, para atingir TRL 8 em final de 2027. O projeto VianaWave, corresponderá a um projeto de capacidade instalada 15 MW, para o qual já estão garantidos apoios europeus de ca 80 M€, esperando-se que a decisão final de investimento, em condições pré-comerciais, seja tomada ainda em 2027, para uma data esperada de colocação em serviço em 2029. Acreditamos que a partir de 2030 poderemos considerar esta tecnologia como apta a poder integrar o mix energético em termos comerciais. Em todo o caso, será necessário rever o enquadramento regulatório e legal, nomeadamente alguns aspetos fundamentais para a viabilidade económica destes projetos. Fora de Portugal, a CorPower Ocean lidera ou participa em projetos de implementação de sistemas de energia das ondas no Centro Europeu de Energia Marinha (EMEC) em Orkney, na Escócia, incluindo o desenvolvimento de instalações de pequena escala (5 MW em Billia Croo) e a iniciativa multilateral POWER-Farm da UE para comprovar a viabilidade financeira da tecnologia.







