Crédito com riscos externos e prudência financeira

Segundo Pedro Gonçalves, o aumento da procura por financiamento indica uma retoma saudável, desde que sustentada por critérios rigorosos e decisões informadas. Ainda assim, alerta para o impacto da instabilidade geopolítica e da baixa literacia financeira.

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Considera que estamos perante um ciclo saudável de retoma ou perante uma nova fase de exposição ao risco?
Estamos a assistir a uma retoma clara da procura por financiamento, o que pode ser saudável quando assenta em rendimentos estáveis, critérios de concessão rigorosos e decisões informadas. Ainda assim, a instabilidade geopolítica associada à guerra no Médio Oriente, pode refletir-se em variáveis críticas para o crédito, como os preços da energia, custos de transporte, inflação importada, confiança dos consumidores e, pressão sobre taxas de juro e condições de financiamento. Por isso, pode haver retoma, mas com um alerta: o risco não está apenas dentro do mercado de crédito, está também no ambiente macroeconómico e geopolítico.

Que cuidados devem ter os particulares que ponderam recorrer ao crédito?
Num cenário de maior incerteza externa, o principal cuidado é evitar decisões no limite. O crédito deve ser encarado como um compromisso capaz de resistir a choques, por isso, é essencial:

  • Simular cenários de stress: como subida de taxas, aumento de despesas com energia, combustíveis ou alimentação, e até uma redução temporária do rendimento;
  • Evitar taxas de esforço demasiado elevadas: a prestação tem de ser confortável mesmo em meses menos favoráveis;
  • Avaliar o tipo de taxa (fixa, variável ou mista): tendo em conta que a previsibilidade pode ser uma forma de proteção;
  • Olhar para a prestação: é fundamental analisar o custo total, através da TAEG e do MTIC, e manter sempre um fundo de emergência.

Que papel desempenham os intermediários na transparência, comparação de soluções e proteção do consumidor?
Num contexto instável, o papel do intermediário torna-se ainda mais relevante, porque o consumidor precisa de clareza e de comparação real para decidir com segurança. Um intermediário de crédito competente pode traduzir o impacto de cenários macroeconómicos em decisões práticas, comparar propostas com base no custo total, na flexibilidade e no risco, e garantir que o cliente percebe o que está a contratar. Isso ajuda a reduzir decisões por impulso e reforça a proteção do consumidor, evitando soluções desajustadas ao seu perfil financeiro. Para este papel ser verdadeiramente positivo, é essencial transparência sobre com quem o intermediário trabalha, como decorre o processo e qual o racional de cada recomendação.

A literacia financeira continua a ser um problema no acesso ao crédito?
Sim, a literacia financeira continua a falhar em três pontos: confundir uma “prestação que consigo pagar hoje” com uma “prestação sustentável ao longo do tempo”, não compreender totalmente o impacto das taxas e do custo total do crédito, e subestimar a forma como choques externos podem afetar o orçamento. Melhorar a literacia financeira é melhorar o acesso e a qualidade do crédito, com menos risco, mais decisões conscientes e maior proteção do consumidor.