“É fulcral pensar o setor de forma holística”

Focada no mercado de vestuário de malha e banho, a Fortiustex inspira-se no lema “CITIUS, ALTIUS, FORTIUS”, - “mais rápido, mais alto, mais forte”-, que traduz a ambição em elevar os seus clientes. A empresa direciona a sua atividade para os artigos têxteis de gama média-alta, promovendo a conceção de produtos diferenciados. José Guimarães Teixeira, administrador da Fortiustex, destaca o foco da empresa em satisfazer as necessidades dos clientes e em acrescentar-lhes valor.

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Como é que a Fortiustex se posicionou em tempo de pandemia?

O ano 2020 foi particularmente perturbador em termos da nossa atividade empresarial. Em comparação a 2019, a nossa faturação desceu 35%. Tivemos um período longo em lay-off, com cerca de 50 pessoas em casa, de abril a junho. A procura que tínhamos não justificava a presença de todos os colaboradores. Terminámos, assim, o ano com uma perda, em termos do volume de negócios, que teve consequências nos resultados da empresa.

Este ano foi possível recuperar alguns desses resultados?

Sim, 2021 tem sido um ano muito positivo. Retomámos significativamente a nossa atividade e incrementámos o nosso departamento comercial, o que permitiu que o volume de negócio crescesse. Neste momento, estamos com valores 10% superiores, relativamente ao período de 2019. Vamos terminar o ano com valores 80% superiores ao ano passado. Em termos da experiência que tenho no setor, fico um pouco dececionado, porque algumas entidades da fileira têxtil não estão sensíveis a este acréscimo significativo da procura e não respondem adequadamente. Temos situações de muita dificuldade, em termos de cumprimento de prazos e satisfação das nossas encomendas, nomeadamente nas tinturarias. As tinturarias estão com uma procura muito superior a 2019 e não conseguem dar resposta. O setor poderia crescer muito mais se todos entendessem a importância que é satisfazer o cliente. 90% do setor trabalha para exportação, portanto, poderíamos crescer muito mais.

“O setor poderia crescer muito mais se todos entendessem a importância que é satisfazer o cliente”

A questão da mão de obra é um problema para o setor?

Sim. Acredito que as opções que têm sido tomadas em relação a melhorar o salário mínimo nacional são aliciantes e que podem ajudar a mitigar esta situação. No entanto, penso que não será essa a via. Apesar dessa valorização do salário, ainda existem muitas pessoas sem motivação para trabalhar. Portanto, a solução passará por recrutar pessoas do exterior.

A Fortiustex é especializada em vestuário de malha e banho. Que vantagens traz esta aposta para a empresa?

Conseguimos entrar no mercado com um grande destaque nessa área. Demos formação intensa a várias pessoas, para melhorar as competências da equipa e, hoje em dia, essa área já representa cerca de 30% da nossa faturação. No mercado, não há muitas empresas com competência para esta área têxtil e, portanto, fomos felizes nesta opção.

A Fortiustex também se preocupa em investir em equipamentos tecnológicos, com vista a melhorar o seu desempenho?

Os nossos clientes são marcas de grande referência mundial e propõem-nos que os acompanhemos nas opções que vão fazendo. Estamos muito focados em aceitar esses desafios. Na verdade, estamos capacitados para responder a todo o tipo de situações. Além disso, temos o nosso departamento de desenvolvimento, que está no mercado, e que vai procurando os artigos que as empresas vão propondo. As marcas têm departamentos incríveis em termos de criatividade, portanto exigem muito de nós. Tem havido uma alteração muito relevante em termos de funcionamento do setor nessa área.

Há quem diga que a retoma vai chegar. Enquanto empresário, qual é a sua opinião relativamente a esta questão?

Eu penso que a retoma já chegou. Estamos num processo de crescimento significativo. Neste setor, temos algumas dificuldades às quais não estamos a conseguir responder. Muitos empresários não estão disponíveis para perceber o setor de forma holística. Portanto, pensam apenas neles e não adotam as medidas ajustadas para melhorar as condições do setor. Além disso, a falta de matérias-primas é também uma situação preocupante.

Já sentiram essa realidade?

Sim. De acordo com os fornecedores, a matéria-prima demora muito mais tempo a ser importada. Por efeito do crescimento da procura a nível mundial e da insensibilidade das empresas para aumentar a sua produção começamos a sentir dificuldades na aquisição de matérias-primas. Tudo isto está a impedir que a retoma tenha um crescimento superior ao que está a ocorrer. Portanto, penso que a própria recuperação já está a ter dificuldade em concretizar-se de forma estável, devido a esta falta de respostas a nível de oferta.

A própria recuperação já está a ter dificuldade em concretizar-se de forma estável, devido a esta falta de respostas a nível de oferta

No futuro, essa realidade poderá traduzir-se em problemas maiores?

Sim. Na verdade, pode impedir que as empresas utilizem racionalmente a capacidade industrial instalada. Para além disso, pode gerar instabilidade ao nível de preços. Estabelecer um preço pressupõe que haja confiança nos custos, no entanto, se há incerteza, é criada uma dificuldade comercial de relevo, que deve ser gerida com equilíbrio. A instabilidade é geral e temos de criar mecanismos de segurança. Portanto, o mercado retoma, mas com desafios que não eram previsíveis anteriormente.

Ainda relativamente ao futuro, o que está reservado para a Fortiustex?

Atendendo a que, em termos de procura, estamos a ganhar posição no mercado, apostamos em criar a maior autonomia possível, nomeadamente com uma estamparia que trabalha exclusivamente para nós e que nos dá independência nessa componente. Em termos de confeção, estamos a negociar outra unidade produtiva, para nos possibilitar maior autonomia. A ideia é que seja gerida por nós numa perspetiva de dotar a Fortiustex de vantagens competitivas. Queremos que a Fortiustex tenha uma posição cada vez mais autónoma no mercado. Além disso, vamos continuar a motivar as pessoas a aderirem ao projeto, de forma empenhada e disponível. Este é um fator decisivo para o nosso sucesso, porque as pessoas são determinantes para conseguirmos cumprir os nossos objetivos.

“As pessoas são determinantes para conseguirmos cumprir os nossos objetivos”