“Empresária por escolha, líder por essência”

Marta Sousa, gestora da Irmãos Sousa, tem vindo a consolidar o seu espaço num setor tradicionalmente masculino. A gestora fala de resiliência, competência e inovação como pilares de uma liderança construída com credibilidade, num percurso marcado pelo desafio de provar o seu valor e pela responsabilidade de honrar um legado familiar.

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Como tem sido o seu percurso enquanto mulher líder e que desafios sentiu ao assumir funções de liderança?
O meu percurso enquanto líder tem sido simultaneamente desafiante e enriquecedor. Assumir responsabilidades numa empresa com história, fundada pelo meu avô e hoje liderada pelo meu pai, trouxe-me um forte sentido de responsabilidade, mas também a necessidade de construir a minha própria identidade.
Num setor tradicional como o da indústria de cereais, onde muitos empresários têm idade para serem meus pais, senti que precisava de provar mais, não apenas pela idade, mas também por ser mulher. Com o tempo, percebi que a melhor forma de afirmar a minha visão não era pela imposição, mas pela competência e pelo conhecimento profundo do negócio.

Ser mulher influenciou o seu percurso enquanto empresária?
Obrigou-me a desenvolver maior resiliência, inteligência emocional e capacidade de adaptação. Existem ainda preconceitos, sobretudo sendo uma mulher jovem, mas transformei essa pressão em motivação. Os desafios só se tornam obstáculos quando definem os nossos limites. A estratégia foi assumir uma postura afirmativa, preparar-me, conhecer profundamente o negócio e agir com confiança, dando todos os dias o meu melhor para terminar com o sentimento de dever cumprido.

Que valores orientam a sua liderança e a cultura da Irmãos Sousa?
A empresa assenta em compromisso, qualidade e respeito, valores que atravessam gerações. Procuro honrar esse legado, acrescentando inovação, sustentabilidade e responsabilidade social. Num setor ligado à cadeia alimentar, temos responsabilidade acrescida na promoção de práticas sustentáveis, na eficiência de recursos e na garantia de qualidade e segurança. Internamente, privilegio a proximidade com os colaboradores, para que se sintam valorizados e envolvidos no crescimento da empresa.

Como tem lidado com períodos de incerteza e crise?
Liderar é, inevitavelmente, lidar com incerteza. O nosso setor foi impactado pelas flutuações dos preços das matérias-primas, sobretudo durante a pandemia de Covid-19 e no início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, grandes potências no mercado de cereais. A instabilidade e o aumento abrupto dos preços exigiram decisões rápidas, com informação em constante mudança, obrigou-nos a arriscar com prudência e visão de futuro. Foram períodos de enorme pressão, sem precedentes na minha experiência, mas determinantes para o meu crescimento pessoal e profissional.

Que mensagem deixa às jovens mulheres que ambicionam liderar?
Não esperem sentir-se totalmente prontas, a liderança constrói-se no caminho. Invistam em formação, conheçam bem o setor e, acima de tudo, acreditem em vocês. Tenham ambições claras, responsabilidade e compromisso diário. Ser jovem e mulher exige respeito mútuo e coerência pelo exemplo. Nunca permitam que o sucesso ultrapasse as vossas raízes. Há uma frase que me acompanha: “Empresária por escolha, líder por essência”. Isto mostra que a liderança se aprende e faz evoluir, mas também nasce connosco.