Jim Player: legado (agora) com sotaque português

Foi no ano de 1968 que o escocês James Player chegou ao Algarve,juntamente com a sua jovem família.O que se designa hoje como Património Cultural de Portugal,a Casa Lumena,foi durante muito tempo a residência que James Player geriu, em Faro, dedicando-se depois a outras áreas de negócio,como por exemplo a criação da primeira publicação em inglês da região,denominada “What’s On In The Algarve”(hoje conhecida como “The News”).

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Fátima Gonçalves, gerente

Apaixonado pelo golf, James Player ocupou durante anos o cargo de Secretário no Clube de Golfe de Vale do Lobo, paixão essa que não o demoveu de fundar a Jim Player Real Estate & Insurance, em Almancil, no ano de 1980, tornando-se inclusive o primeiro mediador de seguros para a comunidade estrangeira. Foi nesse período que Fátima Gonçalves, oriunda da África do Sul, se juntou à equipa criada pelo escocês, agregação essa que dura até aos dias de hoje: “Comecei a trabalhar com o James Player desde 1981. Anos mais tarde, por razões de fiscalidade e de logística, foi formada a sociedade com o nome Jim Player, que se dedicou exclusivamente aos seguros e foi crescendo de uma forma sólida aqui na região”, relata a própria.

Em 2007 James Player faleceu, mas Fátima Gonçalves, atual gerente, não se coibiu de manter o legado do fundador, e com muitos obstáculos pela frente, a jovem “aprendiz” sul- africana que chegou na década de 80 tornou-se a cara de uma agência de seguros histórica da costa algarvia. O objetivo inicial da empresa passava por proporcionar aos cidadãos estrangeiros todo o tipo de seguros que lhes fossem necessários, independentemente do facto de serem proprietários de residências de férias ou residentes. Hoje a Jim Player estende-se também ao cliente português, albergando um leque de nacionalidades e várias parcerias de renome no mercado segurador que permite à agência oferecer diferentes soluções e produtos, num serviço único e exclusivo: “Já me tinha tornado sócia da agência quando o James Player estava vivo. Entretanto, com o seu desaparecimento, assumi a gerência. Mas o legado do James Player manter-se-á sempre no ADN da empresa, e isso é uma das razões para não mudarmos de nome. É uma marca já bastante reconhecida na comunidade estrangeira, e é por essa história que ajudamos sempre quem nos conhece há bastante tempo. Ainda hoje essas mesmas pessoas vêm cá pedir conselhos de coisas que nada têm a ver com seguros, o que é engraçado”.

Fátima Gonçalves está decidida em manter o conceito que a empresa sempre adotou, com uma pequena exceção: o cliente português. Desta forma, o que era antes quase um monopólio do cidadão estrangeiro, é hoje mais “dividido” e virado para território nacional: “Pessoalmente abri um pouco o caminho para a comunidade portuguesa, o que não era o caso até então. A crise, em 2008, abanou um pouco o equilíbrio que existia entre os diferentes mercados, e foi desde aí que comecei a contactar várias empresas portuguesas, e entramos também na área (dos seguros) de vida, depois do decreto-lei que deixava de obrigar as pessoas a recorrer à banca para ter um seguro“, explica a gerente.

Quando questionada sobre a rede de distribuição dos seguros que operam com os clientes da Jim Player, Fátima Gonçalves responde que os“riscos pessoais ainda correspondem à maioria dos seguros praticados”, num mercado que por si só, nos últimos anos, mudou imenso: “O mercado em si está muito diferente de anteriormente. Agora também temos a área dos multirriscos, dos acidentes de trabalho… nas várias empresas em que operamos, portuguesas ou estrangeiras,há um leque de seguros obrigatórios que já se vão espalhando, e que não estão presos a um único setor, como o do automóvel. Há uma diversidade muito maior”, reitera a gestora.

Fátima Gonçalves reconhece que ainda encontra várias diferenças na mentalidade dos portugueses e na dos estrangeiros, no que toca aos seguros, mas que ao longo do tempo o cliente português tem ganho maior perceção e responsabilidade quando chega o momento de acionar uma salvaguarda: “Eu ainda sou do tempo em que os seguros de vida para a comunidade estrangeira eram impraticáveis, porque os seguros eram muito caros e o capital era muito baixo. Não valia a pena fazerem os seguros por cá, porque como geralmente se tratava de cidadãos com alguma idade, eles não estavam habituados a trabalhar com peanuts. Quando queriam fazer um capital, faziam um capital como deve ser, digamos assim. Valores a rondar um milhão, meio milhão… valores que por cá eram impensáveis. Enquanto o português não pensava, de todo, da mesma forma. Ainda assim,creio que gradualmente isso tem sido alterado”, admite a diretora da agência, que explica a seguir as razões que provocaram essa evolução: “Para começar, as pessoas geralmente não possuíam casa própria, pois eram herdadas da família, ou seja, não havia necessidade de recorrer à banca. Ao longo das décadas esse cenário foi-se extinguindo, e hoje as pessoas quando adquirem uma casa automaticamente têm de fazer um seguro, porque a banca assim o exige. Existe uma maior atenção às gerações futuras, nomeadamente os filhos dos clientes com quem trabalhamos atualmente”, ressalva Fátima Gonçalves, que admite que muitos dos “casos que se veem hoje, em que as pessoas não recorrem a seguros, muitas vezes é apenas porque não tem possibilidade de o pagar e não por opção própria”.

No que toca à mentalidade que ainda existe no que respeita à aquisição de seguros, e o estigma de que só se recorre a eles quando “algo de mau acontece”, Fátima Gonçalves não esconde que ainda se trata de um dos maiores obstáculos no setor, tanto para as agências como para os clientes: “Ainda hoje existe essa ideia e vai sempre existir. As pessoas têm de pensar que os seguros não existem para pagar tudo. Os seguros existem para pagar acidentes ou eventos que fogem ao nosso controlo. Por exemplo: há pessoas que vêm aqui para adquirir um seguro de saúde, quando já tem um problema. Isso não funciona, obviamente. As pessoas têm de vir aqui para adquirir um seguro de prevenção, que é bastante diferente. Porque se não o fizerem dessa forma, o que acontece depois? A companhia de seguros não vai pagar, porque vai olhar para o histórico e perceber que havia um antecedente. E quando falo de um seguro de saúde, falo de um seguro de vida ou de outro qualquer”, vinca Fátima Gonçalves.

E foi por falar em saúde, numa área tão delicada, que a Valor Magazine quis perceber como é que a Jim Player escolhe o melhor plano para cada cliente, em função das várias parcerias com as companhias de seguro existentes. Fátima Gonçalves não hesita na resposta e explica que o seu modus operandi está dividido em duas questões essenciais: “Quando se faz um seguro de saúde, há sempre duas questões que eu coloco às pessoas – qual o propósito desse seguro e o que quer pagar. A partir daí eu vou minimizando as propostas mediante essa área. Se a pessoa está preocupada com um seguro para escolher o melhor hospital, pode ser uma situação. Se uma pessoa quer ir ao médico e apenas está preocupado com o custo, as soluções têm de ser outras”.

A verdade é que independentemente do seguro que o cliente escolher, a Jim Player aparenta estar pronta para qualquer cenário e, acima de tudo, para manter um legado que já dura há mais de três décadas e que se cimentou em diversas áreas da região do Algarve. Porque, para Fátima Gonçalves, não existe maior seguro do que esse valor histórico, e essa confiança que tem atravessado gerações de várias nacionalidades.

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