Miranda do Douro – Terra de cultura viva

Miranda do Douro está situada no distrito de Bragança. Nesta vila raiana de Trás-os-Montes, as tradições são uma parte viva da sua cultura, passada de geração em geração pela população. Foi assim que os Pauliteiros de Miranda, a Língua Mirandesa e o Solstício de Inverno, com as Festas que misturam os rituais pagãos e o fervor religioso, chegaram à atualidade e é com toda a dedicação e amor às raízes que as gentes de Miranda procuram preservar os seu marcos identitários únicos, como realça a Presidente da Câmara Municipal, Helena Barril.

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Miranda do Douro é conhecida como o “paraíso natural e cultural”. Quais os principais destaques que este município apresenta, no que respeita a estes dois aspetos?

Miranda do Douro está associada à frase “Paraíso Natural e Cultural” porque é um território que, dada a sua localização geográfica, se apresenta em comunhão plena com a natureza. Paraíso cultural advém das nossas tradições profundamente enraizadas, que têm passado de geração em geração intactas e refiro-me à Língua
Mirandesa, aos Pauliteiros de Miranda, às Raças Autóctones, às paisagens, à gastronomia.

Os “Pauliteiros de Miranda” são, por si só, uma marca cultural da região mirandesa. Quão importantes são estes grupos para continuar a manter viva a tradição deste folclore?

Os Pauliteiros de Miranda são embaixadores da cultura mirandesa, são a nossa marca identitária enquanto território cultural, continuam a ser um elo de ligação dos jovens à terra. Ser pauliteiro está no ADN dos jovens e já num conceito mais alargado, pois, tanto os rapazes como as raparigas estão empenhados na continuação
desta tradição. Está em curso o pedido de inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial das “Danças Rituais dos Pauliteiros nas Festas Tradicionais em Miranda do Douro”, para valorizar e promover estas danças e rituais e criar uma base de apoio a estas tradições.

Desde tempos da sua fundação que Miranda do Douro preserva o mirandês. Sendo uma língua, a importância de haver quem a fale é estratégica para a sua existência. O que está a ser feito para preservar este património?

A Língua Mirandesa é o nosso legado. A preservação da nossa língua-mãe é primordial para que parte da nossa identidade não se perca. O executivo tem apoiado a edição de livros em mirandês, tem apoiado a Associação da Cultura e Língua Mirandesa no seu trabalho, bem como as iniciativas de outras associações culturais, para que a língua se continue a afirmar na nossa terra e fora dela. As escolas também têm um papel muito importante. A Língua Mirandesa faz parte do ensino nas escolas de Miranda do Douro como disciplina opcional, que começou a ser lecionada no ano letivo de 1986/87.

A carne mirandesa é reconhecida nacionalmente. Como é preservado este património gastronómico?

A raça bovina mirandesa é uma das nossas raças autóctones. A criação das vacas de raça mirandesa tem tido continuidade em jovens agricultores, muitos deles através das explorações dos seus pais e avós. É uma raça resistente e por isso chega aos nossos dias preservada. O solar da raça está espalhado entre o concelho de Miranda, Vimioso, Mogadouro, Macedo de Cavaleiros, Bragança e Vinhais e, por isso, tem permitido a preservação da mesma.

O Solstício de Inverno é, também ele, uma tradição das gentes de Miranda do Douro. Em que consiste esta tradição?

As Festas de Inverno ou Festas do Solstício de Inverno são uma das nossas maiores riquezas culturais. Destacam-se essencialmente, a Festa de Santa Luzia, em São Pedro da Silva; em Constantim temos o “Carocho” e a “Bielha” integrados na Festa de São João Evangelista. As Festas de Inverno terminam a 1 de janeiro, em
Vila Chã de Braciosa, com a Festa do Menino. São festas em que os lados pagão e religioso convivem de boa forma. A essência destas festas não se pode perder, elas fazem parte da génese das três aldeias, é a melhor forma de perpetuar esta tradição.

Festas solsticiais de Miranda do Douro

Festa de Santa Luzia – L Bielho i la Galdrapa
Local: São Pedro da Silva

RITUAL DA FESTA

A Festa de Santa Luzia – também designada por Fiesta de l Bielho i la Galdrapa dá início ao período das festas solsticiais com mascarados na Terra de Miranda. Consiste na realização de uma ronda de peditório pela povoação, sendo a comitiva integrada pelo Velho, Galdrapa, Bailadores, instrumentistas e mordomos, que têm como função recolher as dádivas para a festa, ao mesmo tempo saudando e convidando os habitantes para a mesma. Durante todo o percurso o Velho tenta dar a beijar o São Ciprião e enfarruscar os rostos das pessoas, mas o excesso de vinho e a idade avançada vão levá-lo por diversas vezes ao chão, perante a indiferença da Galdrapa que não se cansa de o apelidar de bêbado e de estúpido, repetindo que ele não serve mesmo para nada, “nem mesmo para pôr o espantalho no prado”!

Festa dos Moços – Fiesta de San Juan
Local: Constantim

RITUAL DA FESTA

Esta festa solsticial que se realiza entre 27 e 30 de dezembro, dedicada a São João Evangelista, tem como figuras rituais a Bielha e o Carocho, fazendo este a sua primeira aparição pública quando se acende a fogueira. No dia da festa, o Carocho e a Bielha, acompanhados pelos pauliteiros e instrumentistas, vão sendo guiados pelos mordomos pelas ruas da aldeia para se concretizar o ritual do “convite”: oferecendo tremoços e castanhas cozidas, vão de casa em casa recolher a esmola, retribuindo com a dança do “lhaço” pedida pelos moradores. Ao Carocho, durante todo o percurso são permitidas todas as tropelias. A ronda de peditório termina ao fim da manhã, sendo depois celebrada uma missa, durante a qual os pauliteiros dançam o “Señor Mio” e uma vez recolhida a procissão dançam no sagrado uma boa parte do seu reportório. A noite termina com um baile-convívio popular e, no dia seguinte tem lugar o jantar comunitário, para as gentes da terra, após o qual os mordomos se reúnem para prestar contas e efetuar o ritual secreto de passagem do testemunho para o ano seguinte.

Festa do Menino – Fiesta de l Menino
Local: Vila Chã de Braciosa

RITUAL DA FESTA

Realiza-se no dia 1 de janeiro e é uma celebração ritual cujas origens remetem para o tempo do plenilúnio (resquício de carácter pagão), decorrendo no presente em honra do Menino Jesus. As figuras rituais são a Velha, o Dançador e a Bailadeira, que fazem uma ronda de peditório, acompanhadas por tocadores de gaita de foles, caixa e bombo, assim como pelos mordomos. Uma vez acabada a ronda de visita e peditório pela povoação, realiza-se a missa, seguindo-se a procissão, no final da qual manda a tradição que no adro se dance o tradicional “Repasseado”. A meio da tarde e quando a luz do dia ameaça desaparecer, começa a arder a Fogueira do Menino, com a Velha,
Dançador e Bailadeira a fazerem as suas despedidas.