“O Brexit terá um efeito nulo nas relações entre Portugal e Reino Unido”

Portugal e o Reino Unido são, historicamente, países aliados e parceiros económicos. Esta relação diplomática atravessou os séculos e, atualmente, o Embaixador de Portugal no Reino Unido, Manuel Lobo Antunes, destaca as excelentes relações bilaterais existentes e aquilo que se pode fazer para as estreitar.

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Manuel Lobo Antunes, Embaixador de Portugal no Reino Unido Foto: Rui Santos Jorge

Portugal e Inglaterra têm relações diplomáticas centenárias. Como caracteriza a relação atualmente existente entre estes dois países?

Continuamos a ter excelentes relações com o Reino Unido, não só na área económica, mas também na área cultural e na educação, entre outras. Temos uma significativa comunidade portuguesa no Reino Unido, superior a 350 mil pessoas, um comércio bilateral ativo e acolhemos regularmente cerca de dois milhões de turistas britânicos todos os anos, sendo certo que a pandemia alterou este panorama que, todavia, esperamos regresse brevemente a uma situação de normalidade.

Quais as áreas que, atualmente, mais são favoráveis ao investimento nacional em Inglaterra? E no que respeita a Portugal, quais as áreas mais atrativas para os investidores ingleses?

A nossa estratégia de investimento (e de comércio, diga-se) no RU tem dois objetivos principais: consolidar a nossa posição em setores do mercado britânico onde já operamos e conquistar novas fatias desse mercado. Neste último caso temos prestado especial atenção às áreas do e-commerce, saúde e “life sciences”, tecnologias de informação (digital), automóvel (em particular veículos elétricos), energias renováveis/soluções energéticas e produtos alimentares. Em sentido contrário, temos desenvolvido várias ações de atração de investimento britânico em Portugal, sendo de sublinhar que o Reino unido é o quinto maior investidor no nosso país. Olhamos para setores como as tecnologias de informação e desenvolvimento de “software”, indústria metalomecânica e de engenharia aplicada, serviços partilhados e de competências tenológicas, imobiliário, entre outras.

O Brexit veio abalar, de alguma forma, estas relações económicas?

Estes dois últimos anos são certamente atípicos em resultado do impacto da pandemia Covid-19 na atividade económica global, sendo também difícil, para já, distinguir efeitos nas relações bilaterais económicas provocados pela pandemia ou pelo Brexit. A nossa convicção, porém, é a de que o Brexit terá um efeito reduzido ou mesmo nulo no nível dessas relações, e pode mesmo oferecer novas oportunidades ao nosso país e às nossas empresas. Recorde-se que o RU e a UE assinaram um acordo comercial que prevê zero quotas e zero tarifas. A seu tempo estaremos na posse de elementos e dados que nos permitirão ter uma visão mais clara e informada de possíveis impactos, positivos ou negativos.

A comunidade portuguesa em Inglaterra tem uma forte presença. Como está a mesma integrada no país? Economicamente, está presente em diversos setores laborais, ou existe uma área que se destaca?

Como referi acima, a presença da nossa comunidade é numericamente impressiva e muito diversa em termos de idades, formação e setores de atividade. Encontramos compatriotas nossos no setor do comércio, serviços de vária natureza (advocacia, arquitetura, finanças, transportes, por exemplo), mas também na área da investigação, ensino, cultura… Em muitas destas áreas, se não em todas, encontramos portugueses com trabalho notável e reconhecido pelos respetivos pares. Como se sabe, no Reino Unido o sistema de “peer review” (a opinião dos pares, digamos) é um instrumento fundamental para aferir a qualidade de qualquer prestação.

É possível estreitar ainda mais os laços políticos, económicos e de cooperação entre estes dois países?

É sempre possível fazer mais, diversificar, encontrar novas oportunidades, ir mais além ou mais aprofundadamente nesta ou naquela área, tal é o conjunto de interesses comuns que unem Portugal e Reino Unido, também em virtude da antiguidade das nossas relações bilaterais. Neste momento, conforme instruções do senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, estamos a trabalhar com o Governo do Reino Unido para identificar outras oportunidades de colaboração ou cooperação também no quadro do “pós-Brexit”.

Quais as principais ações diplomáticas futuras de que gostaria de dar nota, pela sua importância?

Gostaria de desenvolver ações que utilizassem com maior vigor e frequência o nosso “soft power”, que nos permitam dar a conhecer de forma mais intensa e ampla o “Portugal contemporâneo”, o que temos para oferecer que não se extingue no que é já sobejamente conhecido, designadamente na vastíssima área da cultura e da língua, por exemplo, mas também das novas tecnologias e naquilo que em geral chamo de “nova economia”. Recordo aqui, como exemplo notável do que digo, a recente inauguração da primeira escola bilingue anglo-portuguesa em Londres. Gostaria muito que outras pudessem ser criadas noutras cidades do Reino Unido, estando consciente, porém, que será um trabalho a longo prazo.

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