“O conhecimento não deve ser compartimentado”

O agrupamento de escolas de Benavente aposta, para o ano letivo 2021-2022, num Plano de Inovação do ensino, aprovado pelo Ministério da Educação, que permitirá redefinir o calendário de avaliações e criar novas disciplinas, onde o ensino prático complementa o teórico. Além disso, como explica Mário Santos, o diretor deste agrupamento escolar, existirão novas disciplinas, que resultam da união de conteúdos entre outras disciplinas-base já existentes.

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Mário Santos, diretor

O ano letivo 2020-2021 ainda foi um misto de ensino à distância e aulas presenciais. Que análise faz deste segundo ano escolar alvo de restrições?

Ainda iremos analisar esta questão…há coisas que, na Educação, só se percebem passado algum tempo. A sensação que tenho é de que este ano letivo ainda foi uma “montanha-russa” de emoções, isto porque, por um lado, o ensino à distância ainda foi necessário – embora tenha corrido consideravelmente melhor do que da primeira vez, pois os professores, os pais e os próprios alunos aprenderam com a primeira experiência – mas, por outro lado, foi muito bom regressar às aulas presenciais, pois o ensino é diferente, nesse caso. Foi bom podermos voltar, falar uns com os outros, estar em conjunto, mas ainda assim este ano letivo tivemos “a escola possível” e não a escola que queremos ter. Felizmente, desde que regressámos às aulas presenciais não tivemos quaisquer casos de Covid-19, mas isso deve-se também à forma que adotámos para as aulas – pedimos aos alunos que viessem às aulas e, mal acabassem o seu dia escolar, se dirigissem para casa. Tudo quanto eram atividades extracurriculares, projetos paralelos, não estavam ativos. Ora, a escola é muito mais do que as aulas. Há toda uma educação informal que acontece na escola e que este ano não se verificou. Todavia, conseguimos recuperar as aprendizagens perdidas e tudo correu pelo melhor.

Em relação ao ensino profissional, existem novas ofertas formativas?

Não, não existe uma nova oferta formativa, sobretudo devido à pandemia. Somos a única escola do concelho que dispõe deste tipo de ensino, mas os concelhos que connosco fazem fronteira também têm esta oferta formativa. Assim, estabelecemos uma rede de oferta formativa, para que esta seja a mais alargada possível e responda às necessidades das comunidades, mas com a pandemia não nos foi possível reunir e repensar esta oferta. Sentimos, porém, internamente, necessidade de o fazer, dada a procura dos alunos e a excelente saída profissional que estes cursos representam. Tendo em consideração o que foi dito, iremos manter as oficinas de Eletrónica e Mecânica, bem como os cursos de Desporto, Informática e Saúde.

Além disso, quem segue pelo curso profissional pode, da mesma forma, candidatar-se ao Ensino Superior, correto?

Sim, é verdade, embora existam cursos que trazem mais vantagens do que outros a quem quer ir para a universidade. Todavia, quem opta pelo ensino profissional consegue, normalmente, ter médias mais altas, dadas as características dos cursos técnico-profissionais e isso pode ajudar a candidatura ao Ensino Superior.

No que respeita à oferta de cursos científico-humanísticos, existe uma nova oferta para o próximo ano letivo?

Sim, Artes Visuais. Temos notado alguma procura deste curso, mas teremos de esperar pelas matrículas para confirmar este interesse. Este é um curso que vem tornar mais eclética a oferta formativa que tínhamos disponível e que complementa na perfeição todos os restantes cursos científico-humanísticos.

O agrupamento de escolas de Benavente está envolvido num projeto que começará oficialmente a partir do próximo ano letivo e que durará três anos, relacionado com a flexibilidade curricular. Em que se fundamenta este projeto?

Há três anos que o Ministério da Educação tem feito sair informação sobre autonomia e flexibilidade curricular. Estes diplomas permitem que as escolas tenham maior autonomia e que possam pensar o currículo de uma forma mais autónoma e flexível. O nosso agrupamento quis ir mais longe e apresentou ao Ministério da Educação um Plano de Inovação, que nos permite substituir os períodos por semestres e criar disciplinas novas, que são um conjunto de outras disciplinas já existentes e que trabalham os conteúdos programáticos de forma mais ampla e não compartimentada. O que temos de assegurar é que, no final do ano, as competências e objetivos que estão definidos para os alunos serão cumpridos. Para concretizar estas novo Plano de Inovação, fizemo-lo funcionar em torno de quatro eixos: Cidadania, Digital, Ambiente e Saúde. Assim, na área do Digital, por exemplo, juntámos as disciplinas de TIC, Educação Tecnológica e Inglês numa outra disciplina que se chama Oficina Digital, onde se trabalharão os conteúdos comuns a TIC, Educação Tecnológica e Inglês num único momento. O mesmo aconteceu para a área da Saúde, onde Matemática, Educação Física e Ciências Naturais se complementam, em torno de conteúdos comuns. As disciplinas-base não desaparecem, obviamente, pois há conteúdos que são exclusivos de cada área, mas o que será feito é um alargamento dos conteúdos comuns a essas disciplinas, para parar de compartimentar os conteúdos programáticos e ensinar os alunos a pensar “fora da caixa”, de forma alargada e envolvendo vários conteúdos diferentes. É dessa partilha de conhecimentos que nasce a aprendizagem.

Em que anos será aplicado este Plano?

Iniciaremos no próximo ano letivo com o 5º ano e o 7º ano e esperamos, nos anos letivos seguintes, alargá-lo, consequentemente, ao 6º e 8º anos e, por último, ao 9º ano.

Este ensino permitirá aos jovens alargar o seu raciocínio, utilizando os diversos conteúdos aprendidos de forma relacional?

Sim, claro. O objetivo é que os alunos possam cumprir os objetivos finais, delineados nas avaliações, que passam por relacionar conteúdos, ter capacidade para colocar questões e resolver problemas apontando soluções baseadas em várias disciplinas. Até agora, estes já eram os objetivos finais pedidos aos alunos, mas a verdade é que o ensino não era desenhado de forma a complementar conteúdos e relacionar assuntos. Pelo contrário, os professores tinham os mesmos alunos, mas cada um deles apenas se preocupava em lecionar o seu conteúdo programático, de tal forma que, às vezes, os próprios alunos diziam que já tinham falado de determinado assunto numa outra disciplina e isso era novidade para o professor. Porquê compartimentar o conhecimento, quando este não é estanque?

Diria que este é o caminho para o futuro do ensino?

A sociedade evoluiu consideravelmente e a escola tem de fazer o mesmo, sob pena de se tornar obsoleta, no sentido em que os jovens poderão aprender mais fora da escola, do que dentro dela. É fundamental que os alunos gostem da escola e do que aprendem nela. Se passam aqui tanto tempo, têm de estar ativos, reconhecer e identificar os problemas da sua própria comunidade e região e utilizá-los para aprender novos conteúdos, aplicando-os à sua realidade. A escola tem de acompanhar as mudanças sociais e estar integrada na comunidade. Não pode, nunca, ser um mundo à parte.

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