O homem e o profissional por detrás da Fujitsu Portugal

A Fujitsu Portugal é uma empresa de tecnologia pioneira em muitas das aplicações tecnológicas que utilizamos no país. Na sua sede, no Japão, fica aquele que é considerado o computador mais rápido do mundo há vários anos, o que denota uma constante aposta na investigação tecnológica e na implementação da inovação no dia a dia da população. Alexandre Ferreira foi recentemente nomeado responsável pela operação da empresa nipónica em Portugal e, sendo um profissional cujo passado laboral passa pela Gestão e Finanças, está capacitado para reconhecer o mérito que a tecnologia e a sua implementação nos setores privado, público e social pode trazer ao funcionamento da sociedade. Uma entrevista que toca os aspetos pessoais, de carreira, mas também as grandes questões que se impõem às empresas atualmente, como a sustentabilidade, a transformação digital e o desafio da cibersegurança.

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Quem é o Alexandre Ferreira? Desde pequeno que tem um gosto particular pelos números e pela Gestão? Como se descreve enquanto pessoa?

Sempre fui uma criança ligada a algum tipo de estruturação. Mesmo nos jogos, a parte analítica e a estrutura das coisas eram importantes. Gostava muito, por exemplo, de puzzles, e legos. São ainda hoje hobbies aos quais
me dedico em família, quando tenho algum tempo. Quando iniciei o meu percurso estudantil, nunca tive muitas dificuldades nas áreas da Matemática. Desse ponto de vista, acabar por me licenciar em Gestão, e enveredar profissionalmente pela área Financeira, fez todo o sentido e acabou por ser algo natural.

Quais as suas características pessoais que destacaria e que aplica no seu dia a dia laboral? Como se sente atualmente, num momento em que chegou recentemente à função de CEO da Fujitsu Portugal?

Interagir com as pessoas sempre foi algo que eu fiz de forma natural. Enquanto trabalhei em Consultoria, durante 13 anos, o trabalho era sempre desempenhado em equipa, pelo que me senti sempre muito à vontade. Foi sempre isso que fiz e sempre estive ligado às pessoas, sendo capaz de agregar consensos e ser um team player. Esta é a valência mais crítica para mim. Nesta nova função, acredito que isso ainda seja mais crítico. A
grande diferença está aqui: enquanto eu estava na área financeira, concentrava a minha atenção naquele tema, embora na Fujitsu isso se tenha esbatido um pouco, já que sempre estive muito próximo e envolvido nos negócios, numa lógica de business partner, e isso fez-me viajar por mais de 20 países e dar-me a conhecer a muitas pessoas.

Que diferenças implementou na sua liderança?

Ainda vamos com pouco tempo desta nova etapa, mas há duas coisas que me vêm logo à cabeça quando me faz essa pergunta: a informalidade –não que a anterior liderança fosse formal, que não era, mas porque eu acho que
me é característica e por outro lado, estando eu já cá há alguns anos, e tenho uma experiência em várias áreas porque já passei por várias situações até em contexto internacional, as pessoas têm uma informalidade grande para comigo. Em segundo lugar, gosto de ouvir. Gosto de tomar decisões informadas e, considerando que estou a iniciar funções, quero perceber de forma mais aprofundada alguns temas. Mudo de opinião três, quatro vezes nas reuniões, porque vou construindo a minha opinião. A minha porta está sempre aberta e muitas vezes trabalho no
open space. Procuro liderar com entusiasmo, diversão e também aprendendo ao longo da jornada, e espero conseguir ajudar a criar e/ou transformar algo.

O foco da escolha do futuro CEO é efetivado com base na credibilidade e na reputação construída por esse executivo. As habilidades comportamentais mais fortes provavelmente estarão baseadas no poder de observação, na habilidade de escuta e na sabedoria de fazer as perguntas certas. Como foi esta viagem de C-Level?

Os CFOs, de “onde venho”, inevitavelmente ligados aos números e à performance financeira estarão por defeito tipicamente associados ao rigor e à tal “credibilidade” que refere. No meu caso, tendo a Gestão como formação de base, desenvolvi a primeira metade da minha atividade profissional até à data na consultoria e auditoria financeira, e a segunda metade da mesma na Fujitsu, onde tenho tido a sorte e a oportunidade de ajudar a empresa no crescimento e transformação do seu negócio em variadas operações e países ao longo dos anos. Desde o passado dia 1 de outubro iniciou-se uma nova etapa, como responsável da operação em Portugal, o que encaro naturalmente com elevada motivação e sentido de responsabilidade. Assumo-o também com alguma naturalidade na justa medida em que o CFO é, e tenho sido, alguém muito próximo do CEO e do negócio, das áreas de vendas, de entrega e da gestão da empresa como um todo.

A Fujitsu é uma empresa conhecida pela sua constante adaptação ao presente, enquanto prepara o futuro. Quais os últimos avanços que considera dignos de destaque, no que respeita às diferentes áreas de atividade da Fujitsu? Como se posicionam no mercado, quando falamos de tecnologia?

A Fujitsu, sendo o maior empregador japonês em Portugal, com uma equipa de mais de dois mil colaboradores, está presente há várias décadas em setores vitais da economia, tendo desenvolvido ao longo dos anos e com uma autonomia local significativa mas sempre alinhada com a estratégia e portfolio global, várias soluções inovadores nas áreas do retalho, da banca ou para a administração pública. Ao nível da tecnologia, o nosso posicionamento tem sido o de procurarmos centrar-nos num modelo de cocriação com as empresas e organizações que connosco trabalham.
Mais do que apresentar somente soluções fechadas, procuramos a discussão regular com os nossos clientes de modo a compreendermos como podemos transformar os seus negócios utilizando as mais recentes tecnologias como, por exemplo, a automação de processos, a inteligência artificial, soluções de cibersegurança empresarial ou a computação de alto desempenho (High Performance Computing).

“A Fujitsu acelerou em 20 anos os seus planos
para alcançar a neutralidade
de carbono nos seus negócios,
definindo o ano fiscal de 2030
como o novo objetivo para reduzir as suas
emissões liquidas de carbono para zero”.

Que exemplos pode dar da aplicação disruptiva destas tecnologias que menciona?

No caso do retalho, a Fujitsu foi pioneira na implementação de caixas de pagamento self-checkout. Poderia também assinalar uma outra tecnologia, referente à bilhética dos transportes públicos e ainda desmaterialização de processos e documentos, em grande parte dos organismos da Administração Pública. Neste caso, este software é uma solução nacional que está implementada de forma muito significativa na Administração Pública. Um exemplo mais recente – enquadrado no High Performance Computing – é o novo computador de alta performance instalado na Universidade do Minho, que integra um projeto europeu e que é Fujitsu.

A sustentabilidade é falada continuamente, hoje, na medida em que todas as empresas, das maiores às menores, têm responsabilidades perante a sociedade e as pessoas. O impacto deste tema tem vindo a crescer no mundo empresarial e as empresas procuram soluções para conseguirem corresponder à necessidade de adaptação às novas tendências. Como caracteriza e classifica o esforço que vem sendo feito pelas empresas para corresponder a este novo desafio?

Penso que as empresas estão conscientes que hoje é necessário ter sempre presente a vertente da sustentabilidade nos seus três pilares: Ambiental, Social e de Governo societário. Creio portanto que é um
processo necessário em limite porque não há “planeta B”, que se está a tornar de caráter obrigatório para as empresas em virtude de regulamentação e exigências ao nível das práticas empresariais e na venda dos seus bens e na prestação dos seus serviços. As empresas que mais cedo endereçarem de forma estruturada a temática da sustentabilidade nas suas operações e nos seus modelos de negócio terão certamente uma vantagem competitiva e, a prazo, será uma questão de sobrevivência organizacional. O esforço existe e tem vido a ser empreendido globalmente por parte das empresas, não ao mesmo ritmo em todos os setores da economia, sendo porventura as empresas do setor industrial as que têm abordagens mais estruturadas e maduras, em virtude do seu maior impacto ambiental.

Como está a Fujitsu a lidar com esta mesma realidade? Que impacto isso tem no vosso dia a dia, por um lado, e nas ações planeadas ao longo do ano?

A Fujitsu acelerou em 20 anos os seus planos para alcançar a neutralidade de carbono nos seus negócios, definindo o ano fiscal de 2030 como o novo objetivo para reduzir as suas emissões liquidas de carbono para zero.
Pretendemos ainda atingir zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa em toda a cadeia de valor do Grupo Fujitsu até ao ano fiscal de 2040.

A própria internet pode ser mais sustentável, na medida em que a poluição causada pela tecnologia é, também, uma realidade. Enquanto integrante da Fujitsu, esta discussão é tida em conta?

Quando diz “a internet” penso que se está a referir à pegada ecológica que o mundo digital tem na nossa sociedade. De um ponto de vista estrito da infraestrutura tecnológica que a suporta, estamos focados em reduzir as emissões nos nossos datacenters e desenvolvemos recentemente soluções de servidores e storage para alimentar um dos primeiros datacenters com emissões de carbono quase zero do mundo: o WindCores.
De uma forma mais abrangente, a Fujitsu desenvolve e integra soluções que ajudam organizações / empresas a medir o impacto dos seus sistemas na sua pegada de carbono e em seguida a executar planos concretos para
reduzir, compensar ou eliminar essas emissões. Não tenho dúvidas que o digital faz parte da solução mais do que do problema.

A transformação digital é crucial para o desenvolvimento e evolução de todas as empresas. A Fujitsu é, aliás, um exemplo disso mesmo, com a transformação que operou em si mesma e nos seus produtos ao longo do tempo. Quão estratégico é este tópico, atualmente, para se continuar a avançar rumo a uma Era onde a tecnologia pode começar a tomar decisões por si mesma?

Relativamente ao advento da inteligência artificial, além do notável desenvolvimento a que estamos a assistir, importa relevar a componente ética e a sua aplicação nesta tecnologia. Nesse domínio, a Fujitsu foi nomeada como membro sénior/consultivo do Grupo de Alto Nível Europeu sobre Inteligência Artificial, desempenhando um papel proativo e a meu ver essencial para moldar políticas futuras que reflitam a opinião do público sobre a IA, a sua Ética e Governance. Nas minhas reuniões e conversas com CEO’s e CIO’s de empresas portuguesas um tema central que gera bastante ansiedade são os impactos da IA nos modelos de negócio de cada organização.

As áreas do Estado, do Privado e do Social são três pilares fundadores da sociedade portuguesa e a transformação digital tem estado a acontecer em todos eles. Como caracteriza a presença e aplicação da tecnologia em cada um deles?

Existe uma tendência natural para pensar que o setor privado lidera a revolução digital na economia, e em grande medida temos visto isso a acontecer. No setor privado em concreto diria que temos, por um lado, organizações que querem projetos de transformação digital para baixar custos e outras que querem encontrar
novas áreas de negócio ou acrescentar valor. Em Portugal temos visto um enorme apetite do setor público para a transformação digital, para dar mais serviço aos cidadãos, se possível reduzindo custos, mas diria que existe uma
preocupação maior, na componente do valor em particular, em utilizar os projetos de transformação digital como fator de inclusão (fazer mais e chegar a mais pessoas).

Como se caracteriza Portugal, enquanto país desenvolvido tecnologicamente?

Creio que se pode dizer que Portugal se caracteriza por um país desenvolvido tecnologicamente e que tem feito um esforço para se posicionar como tal, embora ainda enfrente alguns desafios. Nas duas últimas décadas investimos em infraestruturas tecnológicas e de comunicações com uma cobertura significativa de banda larga e redes de comunicação. Ao nível da Academia e da investigação, existem várias instituições e universidades em Portugal que estão envolvidas em atividades de pesquisa e inovação em diversas áreas, incluindo ciências da
computação, inteligência artificial, biotecnologia ou energias renováveis. Os grandes polos / cidades têm apostado em centros de startups e empreendedorismo e o ecossistema de startups tem crescido, com várias empresas emergentes inovadoras em setores como tecnologia financeira, saúde digital e sustentabilidade. O
facto de Portugal estar inserido na União Europeia tem proporcionado acesso a fundos e programas de desenvolvimento tecnológico e inovação, impulsionando a modernização do país.

Que importância tem a comunidade CIONET, que chegou recentemente a Portugal? Que mais-valias podem as empresas tirar da presença dos seus C-Level do digital neste grupo?

Num mundo que gira a um ritmo cada vez mais acelerado e em que assistimos ao aparecimento de novas soluções tecnológicas a cada dia, é crítica a colaboração, a entreajuda e o estabelecimento de parcerias e contactos. Uma comunidade como a CIONET, onde podem ser criadas sinergias e partilha de conhecimentos em áreas tecnológicas afigura-se, a meu ver e neste contexto, como algo de uma grande-valia, capaz de contribuir ativamente para o desenvolvimento tecnológico do país.

Quão importante é a tecnologia e as suas aplicações para o garante da soberania nacional? Como podemos ter a certeza, enquanto população, que o país está verdadeiramente seguro?

O conceito de fronteira é cada vez mais ténue na sociedade em que vivemos e num mundo cada vez mais global e digital vai muito além das linhas traçadas no mapa. Opções sobre clouds híbridas, diretrizes de cibersegurança ou a localização de dados críticos são realidades com que as organizações e o país têm de lidar todos os dias e temos que ter uma especial preocupação com tudo o que tem a ver com armazenamento e tratamento de dados. Quando falamos em economia digital estamos acima de tudo a falar de dados e esse deve sera meu ver a
principal preocupação de Portugal e da União Europeia.

Em Portugal, existem quatro áreas estratégicas que beneficiariam muito de investir de forma séria na transformação digital, sob pena de se atrasarem consideravelmente relativamente aos outros países. São elas a Saúde, a Educação, a Justiça e a área Social. Embora algumas destas já tenham iniciado uma ligeira transformação, estamos longe de exemplos de países tecnologicamente avançados. Quais são, na sua opinião, os aspetos basilares que devem ser urgentemente considerados e em que áreas ou situações a aplicação da tecnologia se torna particularmente premente?

Nas áreas que refere creio que os principais esforços devem ser empreendidos na interoperabilidade entre os diferentes sistemas utilizados em hospitais, escolas, tribunais e serviços sociais, o que facilitaria a troca eficiente
de informações e a colaboração entre diferentes entidades. Especificamente em cada uma das áreas: (i) a telemedicina na saúde, investindo em soluções para melhorar o acesso aos cuidados de saúde, especialmente em áreas remotas; (ii) a educação digital e aprendizagem online, apostando em sistemas de estudo híbridos que
incluam plataformas de ensino à distância, conteúdos digitais interativos e ferramentas de avaliação online; (iii) a automatização e digitalização na justiça, com sistemas de gestão processual eletrónica para agilizar os
procedimentos judiciais, incluindo a digitalização de documentos, audiências virtuais e o uso de inteligência artificial para a análise de dados jurídicos; e (iv) a inclusão digital na área social, garantindo às populações a prestação de serviços sociais online, facilitando o registo e acompanhamento de casos, contribuindo também para a promoção da literacia digital.

A tecnologia é uma área em desenvolvimento constante e os próximos anos podem significar altos incríveis, comparativamente com o que hoje se conhece. Como se prepara a Fujitsu para os próximos dois a três anos? O que lhe parece previsível que aconteça, na área tecnológica? Quais as áreas que obterão maior desenvolvimento?

Estamos muito atentos aos novos desafios que as sociedades enfrentam e a nova marca global de negócios Fujitsu Uvance (“Universal Advance”), pretende antecipar os problemas que a humanidade enfrentará em 2030 – apoiando uma transformação para um mundo mais sustentável, alavancando as capacidades tecnológicas e a experiência em resolução de problemas da Fujitsu e contribuindo para a realização do objetivo “tornar o mundo mais sustentável, construindo confiança na sociedade através da inovação”.