“O papel da mulher na Advocacia tem a mesma relevância que na sociedade”

A Advogada Cláudia de Sousa Oliveira conta com mais de duas décadas a advogar e assume nunca se ter sentido discriminada ao longo da sua carreira. Alerta para a necessidade de continuar a apostar na formação dos Advogados Estagiários e a importância da proteção aos Advogados que necessitem de apoio, por parte da Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores (CPAS).

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Enquanto Advogada, conta com uma experiência de mais de 20 anos de Advocacia. Ao longo destas décadas, o que mudou no exercício da Advocacia, a seu ver?

Destaco a disponibilidade de ferramentas digitais que revolucionaram o exercício da profissão. Utilizo-as no interesse dos meus clientes, dado possibilitar-me maior rapidez e proximidade nos contactos e no apoio a prestar. Já no que se refere às relações com os Colegas de profissão e outros operadores judiciários, procuro manter a praxis e assim exerço. E exercer “à antiga” é manter relações cordatas, de respeito e de cooperação mútua. Este é o quadro em que desenvolvo a minha atividade profissional.

Já exerceu a sua profissão através de uma Sociedade de Advogados e, agora, em nome individual. Quais as principais diferenças entre trabalhar numa Sociedade de Advogados e a de exercer a prática do Direito em nome individual?

Estagiei com um Colega que exercia em prática isolada. O meu Patrono viria a ser sócio fundador de uma das primeiras Sociedades de Advogados em Coimbra, onde ainda exerci atividade. Dei o “salto” impulsionada pela minha família para abrir o meu escritório, tendo criado, pouco tempo depois, com uma Colega amiga de infância,
Joana Fânzeres da Mota, a O&M-Sociedade de Advogados. Este foi o “meu” primeiro projeto profissional, do qual guardo as melhores recordações. Passados uns anos decidi potenciar o que realmente considero ser a minha melhor ferramenta nesta atividade: resolver, simplificando processos na procura de uma solução segura, definitiva, rápida e consensual. Por isso voltei à prática isolada. Do exercício e conhecimento nas duas realidades posso elencar mais vantagens que inconvenientes. Saliento o trabalho de equipa e a partilha de conhecimentos nas sociedades e a simplificação de procedimentos e proximidade com os clientes na prática individual.

Como avalia o impacto da presença da mulher na Advocacia, sobretudo numa altura em que as mulheres já são mais do que os homens nesta profissão?

Eu sou uma terceira e única filha. Nasci, por isso, “rodeada” de homens. Habituei-me, no ambiente familiar, a confrontar-me com eles e a impor-me. Os meus pais são pessoas cultíssimas. Cresci em África. A minha condição feminina não foi fator de discriminação. Regressada a Portugal, aos 14 anos, ser mulher continuou a não ser motivo de diferença. Talvez as raízes e a minha personalidade me tenham preparado para o exercício desta profissão. Hoje o mais normal é debater-me com Colegas mulheres pois somos a maioria, e mesmo nos Tribunais estar representado em maioria o meu género. Considero que o papel da mulher na Advocacia tem a mesma importância e relevância que na sociedade em geral.

Como avalia a situação das mulheres Advogadas relativamente aos apoios atribuídos pela CPAS em caso de maternidade ou doenças graves? É uma situação que deve ser alterada?

Há muito que defendo que a Ordem dos Advogados deve ter como valores fundamentais a proteção dos seus membros nas fragilidades inerentes à profissão. O caso da maternidade é circunscrito às mulheres, mas não o da doença em geral. Mesmo no caso da maternidade há que proteger os direitos de parentalidade dos Colegas do género masculino. Mais do que a questão de género é essencial que a CPAS tenha capacidade financeira para garantir proteção eficaz ao Advogado que, por motivo de saúde ou parentalidade, dela careça.

O Dia Nacional do Advogado celebra-se a 19 de maio. Num dia em que assinala a profissão, o que lhe parece que seria importante destacar como pontos a alterar nesta área de trabalho?

Parece-me essencial continuar a investir na formação dos Colegas Advogados Estagiários, transmitindo-lhes valores pelos quais se devem reger no exercício da profissão: educação, seriedade, conhecimento e permanente
atualização profissional. Esforço-me por transmitir estes valores enquanto formadora nos cursos de estágio do Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados.