As relações bilaterais entre Portugal e a Alemanha têm vindo a aprofundar-se em várias áreas. De que forma avalia o impacto concreto destas parcerias na competitividade de ambos os países, e que desafios estruturais ainda persistem?
Portugal e a Alemanha mantêm uma parceria sólida e duradoura, assente em valores comuns.
A nossa cooperação é estreita, também na área da economia. As interligações económicas trazem vantagens para ambas as partes e aumentam a competitividade dos dois países. Existem muitos exemplos disso: grandes empresas alemãs, como a VW, a Bosch e a Continental, bem como empresas familiares alemãs, mantêm há muito tempo unidades de produção muito bem-sucedidas em Portugal. Esta presença fortalece os fornecedores locais e regionais, assim como as cadeias de valor. Para além da produção, Portugal está a tornar-se cada vez mais importante como local de desenvolvimento para empresas alemãs, graças à sua mão de obra altamente qualificada e motivada. Dado o bom clima de investimento, muitas empresas alemãs estabeleceram, nos últimos anos, centros de software e serviços de atuação mundial em Portugal.
Felizmente, os desafios estruturais afetam, de um modo geral, relativamente pouco a cooperação económica com Portugal. No domínio da digitalização da administração pública, Portugal encontra-se entre os países pioneiros na União Europeia. O tema do reforço da competitividade ocupa uma posição de destaque na agenda da UE; para tal, é necessário, para além da conclusão do mercado interno da UE, proceder a uma redução substancial da burocracia. A Alemanha e Portugal dedicam-se intensamente a esta tarefa. Trata-se também de processos como a concessão de licenças de construção, de exploração ou de produtos — áreas em que ainda há caminho a percorrer.
Num contexto europeu marcado por tensões geopolíticas e reconfiguração das cadeias de abastecimento, que papel específico podem Portugal e a Alemanha desempenhar conjuntamente para reforçar a autonomia estratégica da União Europeia?
A Alemanha e Portugal estão, em larga medida, de acordo em questões de política europeia. A nível internacional, ambos os países defendem ativamente o multilateralismo, o Estado de direito e uma ordem baseada em regras. Tudo isto, em conjunto com uma União Europeia forte e capaz de agir, constitui a garantia das nossas liberdades e do nosso bem-estar.
Para o efeito, é necessário, por um lado, reforçar a defesa europeia e, sobretudo, a indústria de defesa, de modo a fortalecer o pilar europeu da NATO.
Existe consenso quanto ao facto de o reforço da competitividade europeia ser atualmente uma prioridade muito elevada. No âmbito dos Conselhos Europeus, promovemos conjuntamente uma agenda ambiciosa em matéria de competitividade na Europa. Pretendemos, em conjunto, reduzir os custos burocráticos, assegurar energia sustentável e acessível e fomentar a inovação. Face aos desafios geopolíticos, Portugal e a Alemanha apostam também na abertura de novos parceiros para a UE e na diversificação das relações comerciais. Saudamos, por isso, vivamente a conclusão do acordo de comércio livre entre a UE e os países do Mercosul, bem como os avanços nas negociações com a Índia e, mais recentemente, com a Austrália.
“A Alemanha e Portugal estão, em larga medida, de acordo em questões de política europeia. A nível internacional, ambos os países defendem ativamente o multilateralismo, o Estado de direito e uma ordem baseada em regras”
A cooperação económica luso-alemã tem sido historicamente robusta, sobretudo no setor industrial e tecnológico. Que oportunidades emergentes identifica para pequenas e médias empresas portuguesas no mercado alemão, e que obstáculos ainda dificultam essa internacionalização?
A Alemanha é, a seguir à Espanha, o maior parceiro comercial de Portugal, contando com mais de 700 empresas alemãs estabelecidas no país. Estas empresas geram cerca de 85 000 postos de trabalho e representam aproximadamente 12 % do PIB português. Existem muitas PME portuguesas que colaboram com estas empresas alemãs na qualidade de fornecedores.
Para as PME portuguesas, as atuais perturbações internacionais e as incertezas económicas associadas representam também oportunidades. Na Alemanha, tal como em toda a Europa, o nearshoring e a segurança das cadeias de abastecimento assumem uma importância crescente; para a indústria alemã, os parceiros económicos europeus tornam-se cada vez mais relevantes.
A economia portuguesa passou, desde a crise financeira, por uma profunda transformação e modernização. As características e a qualidade dos produtos portugueses, bem como os padrões tecnológicos, situam-se hoje, em muitos setores, ao mais alto nível internacional. O principal foco das importações e exportações bilaterais situa-se no domínio das máquinas e equipamentos.
Não identifico obstáculos reais ou fatores impeditivos à entrada de empresas portuguesas no mercado. Ainda assim, uma análise de mercado rigorosa, realizada previamente e considerando todos os parâmetros necessários, é sempre recomendável. Neste processo, a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã (CCILA) presta apoio com a sua vasta experiência, através da rede de câmaras de comércio na Alemanha e a nível mundial, bem como pelo intercâmbio com os seus mais de 1.000 membros em Portugal.

Para além das dimensões económicas e políticas, as relações culturais e académicas têm sido um pilar importante da cooperação bilateral. Que iniciativas concretas estão em curso, ou previstas, para reforçar o intercâmbio entre jovens, investigadores e instituições de ensino superior dos dois países?
As relações culturais bilaterais entre a Alemanha e Portugal baseiam-se numa parceria muito longa e numa elevada estima mútua. O nosso instituto cultural, o Goethe-Institut Portugal, está presente no país há mais de 60 anos, e as duas escolas alemãs em Lisboa e no Porto contam entre as mais antigas escolas alemãs no estrangeiro, com 175 e 125 anos de existência, respetivamente.
No que diz respeito ao ensino universitário, existem, no quadro da UE, diversos programas de cooperação, incluindo com universidades alemãs. Em particular, os prestigiados programas de MBA da Universidades Nova e da Universidade Católica, em Lisboa, atraem numerosos estudantes alemães.
Do nosso ponto de vista, a expansão do ensino do alemão como língua estrangeira, bem como o reforço da cooperação cultural bilateral, constituem aspetos centrais. Neste domínio, apoiamo-nos sobretudo na oferta do Goethe-Institut em Lisboa e no Porto, mas contamos também, desde 2008, com um projeto-piloto de escolas sob a égide da Embaixada, que envolve atualmente 46 escolas públicas portuguesas no continente e nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira — um motivo de grande orgulho e gratidão. O objetivo desta rede de escolas-piloto de alemão é despertar o interesse pelo ensino e pela aprendizagem da língua e da cultura alemãs.
Que mensagem gostaria de deixar sobre a importância da relação entre Portugal e a Alemanha?
As relações entre a Alemanha e Portugal são excelentes em todos os níveis. Tendo em conta as transformações em curso na ordem geopolítica – às quais a Europa também terá de se adaptar – isto reveste-se de um valor inestimável. Em conjunto, queremos preparar-nos, e preparar a União Europeia, para o futuro e assegurar um crescimento económico que permita preservar os nossos modelos de sociedade social e liberal.









