“Portugal e Itália têm uma relação privilegiada”

As relações existentes entre Portugal e Itália remontam a vários séculos. O embaixador de Itália em Portugal, Carlo Formosa, destaca justamente esta ligação privilegiada entre os dois países, nas várias áreas, e dá exemplos da evolução deste bilateralismo.

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As relações entre Portugal e Itália estendem-se por muitos anos e sempre com proximidade entre os dois povos. Como caracteriza este relacionamento entre ambos os países?

Numa palavra, ‘privilegiado’. Se Itália continua a exercer um fascínio incontrastável no imaginário de tantos portugueses, também é verdade que Portugal é hoje o destino europeu favorito dos italianos, não só em turismo mas também para residência. A comunidade italiana é cada vez mais numerosa, bem-recebida e perfeitamente
integrada, assim como as relações bilaterais entre os nossos Estados gozam de ótima saúde. Saliento ainda que Itália adere desde 2018 à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) com o estatuto de Observador Associado.

Quão importante é Portugal, enquanto mercado de investimento e faturação, para as empresas italianas?

Nos últimos anos, a importância de Portugal para as nossas empresas tem vindo a crescer de forma sustentada, como demonstram os valores das trocas comerciais, que em 2022 ultrapassaram o valor recorde de 9 mil milhões
de euros. Somos o sexto maior fornecedor e o sexto maior cliente de Portugal. Os dados de 2023 testemunham a resiliência dessas trocas.

Relativamente ao contexto de exportações, muitas empresas portuguesas exportam para Itália; outras têm relações muito próximas e fazem parte da cadeia de produção de produtos pelos quais a Itália é reconhecida. Como são estas relações?

Muito boas. As empresas portuguesas têm intensificado a sua aposta no mercado italiano. Entre 2017 e 2021, as exportações para Itália cresceram em média 10,9% ao ano. Se olharmos mais detalhadamente para as estatísticas, apercebemo-nos de que muitos dos produtos importados de Portugal para Itália são bens intermédios: veículos e outros meios de transporte (17,9% do total), máquinas e equipamentos (11,9%), produtos agrícolas (9,2%), plásticos e borracha (6,4%), só para mencionar alguns.

Quais as principais áreas económicas onde Portugal e Itália mais estão presentes, em ambos os países?

Posso dizer que em Portugal temos hoje cerca de 150 empresas italianas; muitas são PMEs que operam sobretudo nos setores tradicionais: alimentação, têxtil e indústria transformadora, da alta moda e no segmento de luxo, especialmente no setor automóvel. Também não faltam grupos italianos de média e grande dimensão, que operam através de uma presença produtiva estável ou sob a forma de colaborações industriais com parceiros locais. Por último, temos a presença de grandes grupos como Leonardo, Generali, Ferrero e Mapei, que anunciou uma recente aquisição em Portugal por 12 milhões de euros. A presença portuguesa em Itália é igualmente diversificada e muito interessante. Basta pensar em multinacionais como a Sonae, detentora de várias marcas
italianas, ou a Efacec, no setor da energia. Casos recentes interessantes são os da GamaLife, a antiga seguradora do Novo Banco, anteriormente conhecida como GNB Vida, que vai entrar no mercado italiano com a compra de uma sucursal da Zurich Investments Life em Itália, num investimento de 128 milhões de euros; Sensei, uma startup portuguesa que abriu o primeiro supermercado totalmente autónomo em Itália, em Verona; a portuguesa Coverflex, que adquiriu a licença da italiana EatsReady, juntando-se assim ao grupo exclusivo de apenas 10 empresas em Itália que podem operar no mercado dos vales de refeição.

No que respeita a outras áreas, nomeadamente a cultura e a educação, como se relacionam Portugal e Itália?

Nos últimos quatro anos assistiu-se a uma intensificação do diálogo bilateral. De todas as nossas iniciativas gostaria de destacar os grandes concertos (Paolo Fresu, Il Giardino Armonico) ou o vídeo-mapping com obras do
nosso Renascimento projetadas no Castelo de S. Jorge. Ainda no âmbito da indústria criativa, saliento o Design. A 14 de março celebrámos a edição ‘24 do Italian Design Day, trazendo a Lisboa importantes curadoras de design. No plano da educação, renovámos um protocolo de entendimento entre os nossos governos que permite o ensino do Italiano nas escolas secundárias portuguesas. E apoiamos as universidades de Coimbra, Lisboa e Aveiro. Ainda, existem apoios às traduções que permitem potenciar a circulação das obras de autores e pensadores. Enfim, uma panóplia de contextos e ferramentas que fortalecem as trocas.

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