Portugal e Moçambique: Relações comerciais duradouras assentes na Língua Portuguesa

As relações entre Portugal e Moçambique sempre se desenvolveram de forma cordial. Muitas empresas nacionais estão em Moçambique há muitos anos, e outras expandiram-se mais recentemente, mas a conexão entre estes dois países já há muito que é forte e próxima. Rui Motty é o vice-presidente da Câmara do Comércio Portugal-Moçambique e, nesta entrevista, destaca a transversalidade da presença de empresas nacionais nos setores da economia moçambicana e a forma como a língua portuguesa, embora seja um fator unificador, não define o sucesso de um negócio.

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A Câmara do Comércio Portugal-Moçambique medeia a interação entre empresários nacionais e moçambicanos, abrindo portas a uma maior interação comercial entre estes dois países. Como caracteriza as relações comerciais que já existem entre Portugal e Moçambique?

As relações comerciais entre Portugal e Moçambique são historicamente relevantes para a manutenção da rota de aproximação entre os dois países. A economia e as relações que daí derivam são razão para a criação de valor entre os dois países. A presença portuguesa em Moçambique é robusta e não me refiro em exclusivo ao grupo das grandes empresas, refiro-me também às muitas pequenas e microempresas que fazem parte do tecido empresarial.

Que impacto pode ter o novo visto da CPLP, que torna mais fácil a entrada em Portugal para cidadãos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, no aumento de negócios entre estes países?

Admitamos que é a eliminação de uma das várias barreiras à entrada de empreendedores no país. Sustentado na minha experiência pessoal, considero que essa barreira não será a mais relevante, tendo em conta fatores como a perceção real das características culturais do mercado, as suas necessidades e uma estratégia adaptada ao setor para uma penetração assertiva, numa lógica de investimento de longo prazo. É minha convicção que o novo visto impactará mais no eixo turístico como elemento facilitador no aumento da entrada de portugueses.

Acredita que a língua é, de facto, um fator unificador e facilitador da realização de negócios?  Em que medida?

De acordo com a Unesco, Moçambique tem mais de 20 dialetos ao longo do seu território. Foi necessária a adoção de uma língua oficial que unificasse o ensino e a comunicação na sociedade moçambicana. A opção do português justifica-se naturalmente pela presença histórica de Portugal no país e pela sua importância no papel unificador da sociedade civil.

No que diz respeito aos negócios, eu diria que é um ponto de partida, não um ponto de chegada. Veja-se o caso de alguns dos pesos pesados da economia portuguesa. Foram um completo insucesso nas suas ambições expansionistas no Brasil. Muito embora com as respetivas adaptações e variações regionais da língua, também se fala em português. Se a língua, por si só, fosse um garante de sucesso, então o que aconteceu a todas aquelas empresas?

Quais as áreas em que se desenvolvem mais negócios?

Eu diria que a presença de empresas portuguesas no tecido empresarial moçambicano é transversal. Encontramo-las em setores estruturais e estratégicos, o da energia, o das infraestruturas, o da saúde, assim como o setor financeiro. A representatividade na banca de retalho é efetivamente marcante e, desde sempre, foi uma importante alavanca do investimento português em Moçambique. O turismo é outra das áreas muito bem representada.

A Câmara do Comércio desenvolve também um programa muito ativo no que se relaciona com a vinda de estudantes moçambicanos para Portugal, a fim de encontrar respostas para prosseguir os seus estudos. Que impacto tem este programa na educação dos jovens moçambicanos?

O programa trata de promover e integrar o talento dos jovens estudantes moçambicanos no mercado de trabalho, tanto em Portugal como em Moçambique. O programa “Cria Rede” pretende ser um ponto unificador entre a academia, a sociedade e as empresas. Vamos iniciar o programa de estágios de verão e o nosso papel é o de identificar e referenciar organizações na esfera do universo das empresas associadas da CCPM que possam vir a ser boas candidatas a incubadoras de inclusão de talento.

Como apoia a Câmara do Comércio Portugal Moçambique estes estudantes?

O envolvimento da CCPM é bastante dinâmico. No apoio à chegada, quando solicitado, através de um programa de alojamento que consiste em identificar necessidades e confirmar a disponibilidade dos associados para receber os estudantes. Promovemos atividades criadas por estes jovens, é o caso do podcast “Quiduris”, sobre a mulher africana na política e cujo apoio integral coube a um associado da Câmara. Mas, aquilo que demarca a intensidade dos laços da CCPM com a comunidade dos estudantes moçambicanos é a publicação anual do Anuário dos Estudantes Moçambicanos em Portugal. Para além de ser um documento histórico para o futuro, é uma sebenta de trabalho para empresas, quando as necessidades levam à procura de talento para os integrarem nas organizações. A publicação enumera o percurso académico e profissional do estudante auxiliando a busca de quem procura. Temos alguns casos de sucesso. Eu diria que o programa de estágios de verão é outro dos projetos importantes e de grande relevância na ambição da CCPM de promover a inclusão social.

Existe a possibilidade de aumentar a cooperação entre Portugal e Moçambique, a nível empresarial? De que formas?

Obviamente que sim. Parece-me ser fundamental mais e melhor informação económica e cultural de ambos os países. Não me refiro apenas ao corredor do investimento português em Moçambique, mas também ao corredor do investimento moçambicano em Portugal. É importante estabelecer esta bilateralidade para que a linguagem do ambiente de negócios seja de fácil perceção, de modo a mitigar os riscos dos investidores. Como é facilmente entendível, a criação e promoção de todos os instrumentos financeiros de apoio são relevantes para as empresas ampliarem a confiança e arriscarem.

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