“Reduzir o lixo implica uma forte mudança de mentalidade”

Para Nuno Correia, o caminho para uma economia de resíduo zero em Portugal exige uma mudança nos hábitos de consumo, maior eficiência na cadeia alimentar e uma transformação estrutural das empresas. Defende ainda que só com inovação, valorização de resíduos e regras que incentivem materiais reutilizáveis será possível transformar o desperdício em recurso.

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O Dia Internacional do Resíduo Zero chama a atenção para a necessidade de reduzir o lixo desde a origem. Na sua perspetiva, quais são hoje os maiores desafios que Portugal enfrenta para avançar verdadeiramente para este modelo?
Em primeiro lugar, reduzir o lixo implica uma forte mudança de mentalidade da população em geral, no que ao combate ao desperdício diz respeito, pois teremos que ajustar os hábitos de consumo ao que realmente necessitamos. Em vez de “ter” e depois “escolher” para no fim “desperdiçar”, devemos focar em ter menos escolha e pensar na segunda vida que podemos dar às coisas que compramos. Por outro lado, temos também de melhorar a logística e distribuição dos nossos bens alimentares, uma vez que estas duas fases representam entre 8% a 12% do resíduo alimentar gerado, de acordo com os dados mais recentes do IAPMEI.

Em segundo lugar, para reduzir o lixo não chega reduzirmos a fonte que causa o desperdício, há também que mudar o paradigma da palavra e desenvolver uma economia de reutilização e reciclagem. O “lixo” só é “lixo” quando não procuramos soluções para lhe dar um destino mais nobre, e é nesse ponto que temos de desenvolver e inovar mais.

Muitas vezes o debate sobre resíduos centra-se na reciclagem. No entanto, o conceito de “resíduo zero” implica sobretudo prevenir a produção de lixo. Que mudanças estruturais são necessárias nas empresas e nos sistemas de produção para tornar isso possível?
Conforme disse anteriormente, é necessário que a população mude ainda mais os seus hábitos de consumo e que a distribuição dos nossos bens alimentares seja mais eficiente, para gerarmos menos resíduos. Mas cabe à indústria e ao tecido económico, procurar e desenvolver soluções para novos produtos com uma pegada carbónica mais reduzida, e que possam ser reutilizáveis.    

Esta mudança implica necessariamente uma economia de escala, para que os produtos reutilizáveis possam competir com o preço dos produtos de uso único e de produção em massa. Apostar em soluções de reaproveitamento de resíduos como matéria-prima, é tecnicamente mais difícil, dispendioso e carece de uma cadeia de recolha, seleção e rastreio. Para incentivar as empresas a apostar em inovação, com a incorporação de resíduos como matérias-primas na sua linha de produção, temos de equilibrar a balança criando uma discriminação positiva a essa economia. Não necessariamente através de subsídios, mas antes estabelecendo metas mínimas de incorporação de materiais reciclados nos produtos e penalizando no preço produtos de uso único e não recicláveis.

A C-GREEN trabalha em áreas como a bioeconomia, a valorização da biomassa e a economia circular. De que forma estas soluções podem contribuir para reduzir resíduos e transformar aquilo que hoje é considerado desperdício em novos recursos?
A União Europeia procura fazer da economia circular o modelo económico europeu, e para isso implementou várias diretivas que visam combater o desperdício, aumentar a reciclagem e levar a que a produção e consumo de energia seja mais verde. O caminho para a descarbonização da energia está bem patente nas metas em vigor na RED III (Diretiva Europeia para as Energias Renováveis) e visa alcançar a neutralidade carbónica em 2050. As soluções de produção de energia a partir de resíduos, procuram dar resposta a essa transição.

Na C-GREEN temos apoiado empresas que, por exemplo, usam biomassa para a produção de biometano, usam óleos alimentares usados na produção de biodiesel, procuram matérias-primas renováveis para incorporar nos seus produtos. Mas quando falarmos de economia circular, não falamos só de materiais renováveis ou biomateriais, também devemos falar de materiais com base em carbono fóssil que, uma vez reciclados, permitem a produção, por exemplo, de óleos de pirólise para aplicação como combustível, ou que capturam o CO₂ fóssil de outras empresas na sua produção, reduzindo as emissões industriais e o impacto ambiental do tecido empresarial existente.  

Equipa C-GREEN

Que papel devem desempenhar as organizações e as empresas na transição para uma economia com menos resíduos? E como é que a consultoria especializada pode ajudar nesse processo?
As empresas são o motor desta mudança, e está nas mãos dos empresários querer mudar a oferta e com isso mudar também os hábitos de consumo dos seus clientes. É essencial, para as empresas, incorporar matérias-primas recicladas no seu processo de fabrico, bem como reduzir as emissões e a sua pegada carbónica, aumentando também o consumo de energia renovável. Quanto mais cedo fizerem essa transição, mais bem preparadas vão estar para cumprir com as metas europeias, e para dar resposta à exigência crescente dos seus clientes.

A C-GREEN apoia as empresas nessa transição energética e ambiental, preparando as equipas internas para a certificação de acordo com normas de sustentabilidade, rastreabilidade e redução de emissões de carbono em cadeias de abastecimento de biomassa, biocombustíveis e materiais reciclados. A consultoria especializada ajuda, muitas vezes, as equipas a identificar pontos de melhoria e a otimizar os seus processos.

Pensando no futuro, que tendências ou inovações acredita que terão maior impacto na redução de resíduos e na promoção de modelos mais sustentáveis nos próximos anos?
O modelo europeu, longe de estar perfeito, é o que melhor dá resposta a uma redução efetiva dos resíduos gerados na nossa atividade económica e nas emissões carbónicas. Também ao nível do setor doméstico há inovação, quer na recolha diferenciada de mais resíduos, quer nos sistemas de recuperação de tara de certas embalagens. Precisamos também de continuar a reduzir o consumo de energia fóssil na produção de eletricidade, e se continuarmos pelo caminho traçado pela RED, vamos alcançar um modelo económico mais sustentável e com menos geração de resíduos. Este caminho faz-se com inovação, quer ao nível tecnológico quer ao nível do modelo de negócio.