A primeira coisa que a psicologia nos pode informar para a preparação de um artigo deste tipo é que nós, seres humanos, não somos grande coisa a predizer o futuro.
Os psicólogos e psicólogas terão oportunidades e desafios que poderão ser ainda mais transformadores para a profissão do que as mudanças que se têm verificado até aqui. No curto e médio prazo (cinco anos) o número de profissionais existentes actualmente, cerca de 27.000, acrescidos de mais de 1000 novos psicólogos anualmente, deverão continuar a permitir responder às necessidades crescentes da população. Uma profissão ainda jovem, mas já bastante especializada, que ainda assim terá de responder com mais especialização e exigência com o seu desempenho.
O aumento da literacia em saúde significa um maior conhecimento sobre o que esperar dos serviços prestados por estes profissionais e, consequentemente, melhor escrutínio sobre a qualidade dos seus actos. A conjugação deste factor, de maior acessibilidade e das alterações à Lei que determina a actualização da regulação da profissão, que entrará em vigor no próximo mês de Março, exigirá uma resposta acrescida da Ordem dos Psicólogos Portugueses, através do seu Conselho Jurisdicional, mas também do novo órgão, o Provedor dos destinatários dos serviços.
Numa análise ao contexto envolvente podemos encontrar um crescimento da procura de serviços. O impacto da pandemia, as guerras, as dificuldades financeiras e a crise da habitação são fenómenos que acresceram à situação já difícil em termos de prevalência de alguns problemas de saúde mental na população portuguesa e a algumas outras vulnerabilidades socio-económicas. Nas escolas encontramos dificuldades daqui resultantes nas aprendizagens e desenvolvimento sócio emocional das crianças e jovens, com surgimento de novas dependências e violência no seio das suas famílias ou interpares.
A inteligência artificial cria a necessidade de acautelar os seus diversos impactos, entre eles os de adaptação das pessoas à transição digital e de uma transformação que acautele o factor humano e as dimensões éticas e protecção da saúde e segurança dos cidadãos.
Os impactos ambientais à escala global, os fluxos migratórios, e a necessidade de adaptação das populações criam a necessidade de implementação e desenvolvimento de estratégias de integração reforçadas e cumpridoras dos direitos humanos.
Nas organizações assistimos à maior valorização do factor humano, de forma a vincular talento e garantir melhorias de produtividade, apostando para isso na prevenção de riscos psicossociais e na promoção do bem-estar dos seus trabalhadores.
À semelhança do que sucede noutros países, os temas do desenvolvimento pessoal, da autoajuda, da felicidade e da saúde mental têm sido cada vez mais abordados por pessoas sem competências adequadas a actividades em saúde, com práticas e crenças pseudocientíficas ou técnicas aplicadas avulso, sem o devido enquadramento e preparação técnico/científica, domínio ético e contexto regulatório protector do cidadão.
Se, por um lado, as pessoas devem ter o direito de escolher os serviços que entendem, por outro é imperativo que o Estado acautele a devida diferenciação das práticas reguladas e com garantias de maior protecção das pessoas que recorrem a estes serviços.
A capacidade de comunicação, marketing pessoal e correspondência entre crenças pessoais e um discurso fluído, cheio de certezas, sempre positivo, e simpatia confundem-se com a aplicação de uma ciência como a psicologia.
A Lei 72/2023 vem proteger os actos dos psicólogos e clarificar aquilo que não deve ser feito por qualquer um, sob prejuízo do interesse público. É o início de um caminho mais seguro. É válido para as empresas, desporto, escolas, saúde, justiça ou qualquer área social e é certamente o símbolo da intersecção futura entre oportunidades e desafios para a psicologia. Uma profissão com um futuro cada vez mais presente e uma oportunidade em termos de contributo para a resolução de inúmeros desafios societais.









