“Temos uma excelente relação de cumplicidade”

Portugal e Angola mantêm relações diplomáticas há muitos anos, assentes numa relação de amizade entre estes dois países-irmãos, pautadas pela excelência e cumplicidade de quem se conhece e se relaciona há largos anos. Em entrevista, o Embaixador de Portugal em Angola, Pedro Pessoa e Costa, salientou esta realidade relacional e o estreitamento das relações políticas entre Portugal e Angola.

0
590

As relações diplomáticas entre Portugal e Angola têm muitos anos de existência. Como as resumiria, considerando a história que une os dois países?

Portugal e Angola souberam consolidar, desde a sua independência em 1975, uma estreita relação entre países-irmãos, entre dois povos que se conhecem e interagem há muito tempo, respeitando-se mutuamente.

Temos história e línguas comuns, pertencemos à CPLP o que ainda mais reforça esta relação de cumplicidade, em muitos casos até de consanguinidade, sempre com espaço para se aprofundar. Os desafios e o próprio mundo evoluem e obrigam a constante adaptação, como vemos com atual pandemia.

As nossas relações diplomáticas assentam numa relação bilateral de cumplicidade e de excelência, em valores comuns e numa sólida amizade entre dois povos, e que se estende a todos os domínios da ação governativa. Uma indubitável relação que também existe entre povos, com portugueses e luso- angolanos que solidificam cada vez mais esta relação entre os dois países.

Portugal e Angola mantêm também fortes relações comerciais. Quais os principais setores económicos onde os empresários portugueses mais apostam, em Angola? E em Portugal, quais as áreas económicas que mais interesse despertam nos empresários e investidores angolanos?

Quero destacar que quando se fala de concorrência de empresas de outros países, o facto das empresas portuguesas “não virem ao mercado”. Elas “estão no mercado”, e com a Angola e os angolanos fazem parcerias e alianças que ajudam o desenvolvimento do país no presente e para o futuro.

A presença empresarial portuguesa em Angola é transversal, com empresas de capital português em todos os sectores de atividade económica. Os empresários portugueses têm vindo a fazer uma aposta continuada na economia angolana, quer em regime de parceria com parceiros locais, como criando, de raiz, empresas de direito angolano financiadas por capital português.

Presença que passa por grandes, médias e pequenas empresas, de empresários em nome individual que criam emprego direto e indireto para milhares de angolanos, que transferem tecnologia e apostam na capacitação e formação de angolanos.

Investimentos que se concretizam pela convicção de que Angola é uma realidade económica vibrante, uma das maiores economias da África Austral e com um futuro promissor. Contribuir para esse mesmo futuro é o principal objetivo da presença empresarial portuguesa em Angola. Tendo este país envidado um esforço considerável na reconstrução nacional, é natural que a presença de empresas portuguesas na área da construção civil e obras públicas seja bastante relevante. Uma presença que se justifica pela qualidade e excelência da sua atividade, na verdade reconhecida também em outros países do continente africano. Mas vamos mais longe, em outros sectores igualmente estratégicos, como a indústria transformadora, as energias renováveis, o sector da rocha ornamental, os serviços de consultoria e o agro-alimentar com a relevante presença de empresas portuguesas, de novo pela sua qualidade e competência. Os investidores portugueses estão atentos a oportunidades de negócio no âmbito do processo de diversificação económica angolano, e certamente estarão presentes sempre que considerem que as condições para a sua atividade estejam reunidas.

O investimento de Angola em Portugal é também um sinal da relação bilateral de confiança e parceria. Sinal de conhecimento mutuo, e desta cumplicidade que caracteriza a nossa relação. Também ele diversificado, sofreu grandes alterações em 2020, e estava especialmente concentrado nos setores da energia, banca, telecomunicações e imobiliário.

A comunidade portuguesa em Angola diminuiu, numa determinada época histórica, mas tem vindo a aumentar novamente, nos últimos anos. É uma comunidade bem integrada no país? Que análise faz desta presença portuguesa em Angola?

A atual pandemia, conjugada com a crise económica que já estava instalada provocou uma situação especial, com alguma redução do número de portugueses residentes em Angola. Creio que está agora a ser atenuada com o regresso de cidadãos nacionais, fruto de alguma retoma da atividade económica e também da confiança nas medidas de Angola no combate à COVID. Assinale- se que cerca de 65% cidadãos possuem simultaneamente a nacionalidade portuguesa e angolana, mantendo uma tendência crescente na comunidade aqui radicada.

A comunidade dupla nacional encontra-se completamente integrada na vida social e económica angolana, desempenhando funções nas mais diversas áreas como a política, a cultural ou a empresarial.

A presença portuguesa em Angola é muito rica e amplamente disseminada. Encontramos portugueses, de várias gerações, a residir nas 18 províncias de Angola, e a todos procuramos prestar o apoio consular merecido e devido, seja através da nossa rede de consulados.

Como caracterizaria, neste momento, as relações políticas existentes entre Portugal e Angola?

As nossas relações conhecem atualmente uma conjuntura particularmente favorável a todos os níveis. Uma relação que é mais tranquila e musculada. Para dar uma ideia mais concreta, antes da pandemia, e nas três visitas de alto-nível que tiveram lugar a Angola entre 2018 e 2019, foram assinados 35 instrumentos jurídicos de cooperação.

E já depois disso, entre março e dezembro de 2019, foram realizadas mais de 20 visitas a nível político a Angola. Quando me pedem para falar da cooperação entre os dois países alerto sempre para uma longa conversa, tal é a dimensão e o alcance da nossa relação. Portugal e Angola cooperam nas mais diversas áreas, desde a saúde, educação, agricultura, formação, ambiente, energia, justiça, segurança e defesa, entre muitas outras, com base num programa estratégico definido pelos dois governos até 2022.

Estes dois países fazem parte dos designados “países-irmãos” de língua portuguesa. O que falta fazer, na sua opinião, para estreitar ainda mais os laços culturais e sociais entre eles?

Somos “países-irmãos”, somos até “países Família”, daquelas em que se encontram todos os tipos de relações e até desencontros. Portugal e Angola são, de facto, países muito próximos cultural e socialmente e essa proximidade está bem patente no quotidiano de Angola, não só na utilização da língua portuguesa, mas também na mobilidade de cidadãos e até na gastronomia dos dois países. As trocas recíprocas entre as duas culturas são imensas e encontram-se bem enraizadas. Que bem que me sabe ver o apoio dos angolanos à nossa seleção de futebol neste Euro, que bem que me sabe ver o apoio dos portugueses a qualquer equipa ou angolano em competições internacionais. É algo quase natural.

Para estreitar ainda mais os nossos laços de proximidade é essencial prosseguir o que já estamos a fazer, com o desenvolvimento de projetos de cooperação que visem sobretudo reforçar a capacidade de ensino angolano, por via do apoio à formação de professores para o ensino básico e secundário, ou da capacitação do ensino técnico profissional conforme nos tem sido solicitado pelas próprias autoridades angolanas. Uma aposta na educação e talento angolano.

Falando de povos, de cidadãos que se conhecem e se querem conhecer ainda melhor, arriscaria a falar da importância da promoção das indústrias culturais e criativas, a Economia Laranja que tem um valor económico e retorno financeiro, procurando aprofundar intercâmbios nas áreas da música, das artes plásticas, da literatura, da conservação de património e da televisão, entre artistas e produtores de ambos os países. Temos a sorte de dispor de um Centro Cultural Camões em Luanda, um espaço que deve cada vez mais fazer esta ponte entre os dois países, que sirva os dois países, Centro este que nestes tempos de pandemia se reinventou na forma de comunicar com o seu público, mas nunca reduziu a sua atividade ou missão principal.

Quais são os principais eventos/ações diplomáticas ou de outra índole que envolverão Portugal e Angola em breve e dos quais gostaria de dar nota?

Permito-me referir, pelo seu impacto simbólico, a campanha solidária de doação de sangue que promovemos para assinalar o Dia de Portugal, em parceria com o Instituto Nacional de Sangue de Angola. “Estarmos juntos, Está-nos no Sangue” foi o slogan desta campanha em que pudemos contar com a participação de muitos portugueses, incluindo várias empresas e empresários nacionais presentes neste mercado, para ajudar a salvar vidas em Angola, cujas necessidades anuais ascendem 300.000 doações voluntárias de sangue.
Foi uma forma muito concreta, para lá das meras palavras protocolares, de valorizar a cooperação entre os dois países e demonstrar a solidariedade dos portugueses para com o povo angolano e retribuir, mais uma vez, um pouco do tanto que este país nos tem dado.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here