O relatório Draghi analisa os aspetos mais fortes da União Europeia enquanto comunidade, aqueles em que necessita de melhorar e sugere formas de corrigir “pontos fracos”.
Ursula von der Leyen levou a sério as palavras deste relatório e a sua nova Comissão começou a trabalhar logo após tomar posse: “A primeira ação do novo mandato foi a nossa Bússola da Competitividade, que traduz o relatório em políticas práticas. Depois, começámos a trabalhar a todo o vapor. Com o Pacto Industrial Limpo. As Gigafábricas de IA. O novo Quadro de Auxílios Estatais. O Plano de Ação para a Energia Acessível. A União da Poupança e do Investimento. Planos de ação personalizados para a indústria automóvel, siderúrgica e química. O maior aumento do investimento na defesa da nossa história. Novas propostas sobre o mercado único, o Fundo para Start-ups/Scale-ups e a Quantum. E seis pacotes de simplificação a caminho. Esta é a mentalidade de urgência que prometemos”.
O modo de vida europeu pode ser seriamente afetado se a União Europeia não alterar os seus comportamentos. O relatório Draghi avaliou o que é necessário alterar e centra-se em três áreas-chave: diminuir a diferença que existe entre a Europa e os mercados chinês e norte-americano; criar e desenvolver um plano conjunto nas áreas da descarbonização e competitividade; e, por último, reduzir as dependências externas da União Europeia, nomeadamente em matéria de energia.
“É evidente que a Europa deve agora assumir a maior parte da responsabilidade pela sua própria segurança”
No que concerne à Inovação, a Inteligência Artificial é o guia para a liderança tecnológica: “A Europa tem alguns dos melhores supercomputadores do mundo. E apesar de os gigantes tecnológicos de todo o mundo continuarem a construir computadores maiores e mais rápidos, conseguimos reforçar a nossa posição no ranking global. Há seis anos, tínhamos dois supercomputadores no top 10 mundial. Então, no início do meu primeiro mandato, decidimos investir maciçamente em poder de computação de alto desempenho. Hoje, temos quatro supercomputadores no top 10 mundial, graças ao lançamento, no ano passado, do Júpiter, na Alemanha, e do HPC6, em Itália. As nossas políticas e investimentos neste domínio estão a começar a dar frutos”.
A Europa está, de acordo com a Presidente da Comissão Europeia, bem posicionada no que respeita à adoção da IA. Ursula von der Leyen destaca o exemplo da aplicação sueca Lovable, que se tornou a empresa de software mais rápida da história a atingir os 100 milhões de euros. E prossegue, fornecendo mais alguns dados: em 2025, o número de empresas europeias que adotaram IA subiu 67% relativamente a 2024.
Mas falta a ação direta nas empresas e nos mercados: “Precisamos de colocar a nossa infraestrutura digital ao serviço da indústria e dos inovadores. Por isso, criámos fábricas de IA e, em breve, iremos atualizar as melhores delas para Gigafábricas. O objetivo é que as nossas incríveis start-ups inovadoras possam aceder ao poder de computação e testar e treinar os seus modelos, especialmente pensando em aplicações setoriais. E a resposta do setor privado europeu tem sido impressionante. O nosso objetivo inicial era mobilizar 20 mil milhões de euros em investimentos para desenvolver as nossas Gigafábricas. Recebemos 230 mil milhões de euros em propostas do setor privado [até ao dia 16 de setembro deste ano]”. Este é um dos objetivos da próxima década: tornar a Europa um continente líder em IA.
No seu relatório, Mario, afirmou que precisamos de criar um círculo virtuoso, em que o investimento alimenta a inovação e a inovação atrai mais investimento. Esta é a ideia central por trás do nosso novo Fundo de Competitividade. Será a peça central do próximo orçamento europeu, com uma capacidade proposta de mais de 400 mil milhões de euros. Isso inclui um aumento de duas vezes mais dinheiro para a investigação e cinco vezes mais dinheiro do que hoje para o digital. Seis vezes mais para tecnologias limpas. Este é o investimento de que a Europa precisa e agora o Parlamento e o Conselho têm de ser convencidos”. Em termos energéticos, a aposta em energias limpas já está a acontecer. A União Europeia tem desenvolvido este setor, tendo como base a energia nuclear e tem obtido resultados muito promissores: já lançou um Pacote Eólico que permite reduzir os prazos do licenciamento em dois terços; no primeiro semestre de 2025, o investimento na energia eólica europeia atingiu os 40 mil milhões de euros.
No entanto, este avanço nas energias renováveis ainda não permite que os preços baixem e sejam competitivos, além de existirem diferenças significativas nos valores entre os diversos Estados-membros, o que está diretamente relacionado com as dificuldades de circulação da energia através das diversas redes nacionais: “O Parlamento Europeu aprovou a nossa proposta de utilizar os Fundos de Coesão para impulsionar as infraestruturas energéticas. É o caso da interligação celta, que em breve acabará com o isolamento da Irlanda da rede europeia. Ou do projeto da Baía de Biscaia, que duplicará a capacidade entre França e Espanha. Além disso, iremos propor um pacote de redes e uma nova iniciativa de autoestradas energéticas”.
A transição limpa é outra área onde a União Europeia está declaradamente a apostar, sobretudo por pode tornar-se o principal mercado de exportação de produtos como lítio e baterias.
O terceiro pilar do Relatório Draghi é a necessidade de reduzir as dependências. Além da energia, a Europa está dependente da produção do muitos produtos: a China controla 75% do processamento de cobalto, 90% das terras
raras e 100% do grafite. A Presidente da Comissão Europeia acredita que, com as políticas certas, é possível reforçar a segurança e construir a independência. O processo para se alcançar isso passa pela diversificação do negócio. Já existem acordos firmados com o Mercosul, o México e a Suíça e existem negociações em curso com a Índia, bem como com a África do Sul, a Malásia e os Emirados Árabes Unidos.
Além disso, a própria UE quer construir uma rede de investimentos um pouco por todo o mundo e já começou, com o níquel do Canadá, suficiente para produzir mais de 800 mil baterias para veículos elétricos por ano; ou o acordo
com o Cazaquistão – Graphite – para 100 mil baterias para veículos elétricos por ano. Mas a nível europeu, este trabalho também está em curso: “Este ano, selecionámos 47 projetos estratégicos em toda a Europa ao abrigo da nossa Lei das Matérias-Primas Críticas. Permitam-me centrar-me em particular na reciclagem. Já hoje, com cada quilograma de matérias-primas, produzimos 33% mais do que os EUA e 400% mais do que a China. Pensem na potencial vantagem competitiva se conseguirmos aumentar esta escala”.
“Há outro setor vital em que não podemos continuar a depender excessivamente de outros. Trata-se da defesa. É claro que uma Europa mais independente em matéria de defesa não se concretizará da noite para o dia. E quero dizer desde já que existe um forte alinhamento com a NATO. Levará anos a cumprir esta tarefa. Mas é evidente que a Europa deve agora assumir a maior parte da responsabilidade pela sua própria segurança. A pensar nisto, foi criado o Readiness 2030, que mobiliza até 800 mil milhões de euros para investimento na área da Defesa. Isto inclui 150 mil milhões de euros – SAFE – para aquisições conjuntas no domínio da defesa. Está a caminho de se tornar o instrumento mais bem-sucedido em matéria de defesa e foram necessários apenas 72 dias para aprovar os empréstimos SAFE. Desde a ideia e o lançamento da nossa proposta até à aprovação, 72 dias. E em menos de seis meses,
já atribuímos o montante total de 150 mil milhões em empréstimos. É este o sentido de urgência de que precisamos. Gostaria de ver o mesmo sentido de urgência em toda a nossa agenda de competitividade. Precisamos de medidas urgentes para fazer face a necessidades urgentes. Porque as nossas empresas e os nossos trabalhadores não podem esperar mais”.
“Precisamos de colocar a nossa infraestrutura digital ao serviço da indústria e dos inovadores”.
Ursula von der Leyen acredita que a União Europeia precisa de agir e tem consciência de que é isso que os cidadãos europeus esperam desta comunidade: “Podemos mover montanhas quando temos ambição, unidade e sentido de urgência. A escolha é nossa. Por isso, vamos fazer essa escolha novamente. Pela prosperidade. Pela independência. E pela Europa”.








