“Urge simplificar o sistema fiscal português”

João Rita é o diretor da Azzur Portugal, uma empresa que presta serviços de Contabilidade, Consultoria e Aconselhamento Fiscal a clientes nacionais e estrangeiros. Com dois anos de atividade, a pandemia surgiu no início da atividade desta empresa, mas João Rita está orgulhoso do trabalho desempenhado pela equipa – com mais de 15 anos de experiência nesta área – e assume que o negócio cresceu, mesmo em período pandémico.

0
288
João Rita, diretor

O que o fez apostar na criação da Azzur Portugal e como se posicionaram no mercado?

A Azzur Portugal tem cerca de dois anos de atividade no mercado, mas convém referir que a equipa conta com cerca de 15 anos de experiência neste setor. Eu já detinha uma empresa anteriormente, mas resolvi recomeçar, num projeto novo. Comigo trouxe a equipa que já trabalhava comigo e todos os clientes nos acompanharam – o que é, por si só, um ótimo sinal. Posicionámo-nos no mercado de forma a atingir algumas franjas de mercado diferentes e a verdade é que estamos a consegui-lo. Estamos sediados em Lisboa, mas temos clientes em todos os pontos do país, na Europa e mesmo fora deste continente. São clientes das mais variadas nacionalidades, investidores ou empresários que desenvolvem o seu negócio em Portugal. Dada esta diferenciação de clientes, a Azzur Portugal conseguiu crescer neste último ano e meio, em plena pandemia. Acredito que este crescimento também se deve ao tipo de serviço que apresentamos: o que fazemos é oferecer um pacote de serviços completo, mas sempre adaptado ao cliente e às suas necessidades. Sendo uma empresa de Contabilidade, Consultoria e Aconselhamento Fiscal, além dos serviços relacionados com estas áreas, desenvolvemos também uma série de serviços conexos com estas atividades, alguns obrigatórios, de acordo com a legislação, como sejam os serviços jurídicos, medicina e segurança no trabalho, seguros…Para tal, trabalhamos com parceiros que nos permitem apresentar toda esta gama de serviços aos nossos clientes e fazê-lo a um preço altamente competitivo.

Considerando a complexidade do nosso sistema fiscal e a burocracia que o mesmo envolve, como é possível explicar esta realidade aos investidores estrangeiros?

A nossa equipa já tem largos anos de experiência nesta área, mas de facto, quando os clientes estrangeiros nos abordam e pedem explicações sobre o sistema fiscal, até para nós se torna altamente complexo explicar como o sistema funciona, mesmo considerando que são questões com as quais lidamos diariamente. Tal acontece porque este sistema é tão complicado e tão cheio de pormenores técnicos, jurídicos, legais e fiscais que se torna confuso explicar como funciona. Isso leva a que uma das observações mais frequentes feitas pelos investidores recaia sobre o facto de vir para Portugal praticamente apenas para pagar impostos. Este feedback é frequente e parece-me importante que as autoridades competentes tenham noção disso e tomem medidas para alterar esta complexidade. Uma das principais preocupações de quem nos procura – sendo empresário nacional ou estrangeiro – é perceber, no momento em que se prepara para iniciar o seu negócio, qual a melhor forma de o fazer. Além desta questão, temos também uma outra muito frequente, que é a quantidade de obrigações fiscais que recaem sobre os empresários. Este planeamento fiscal surgiu de forma mais evidente durante a pandemia, porque ninguém queria ter surpresas.

Esse desconhecimento, por parte dos empresários, relativamente às obrigações que devem cumprir, ainda é grande?

Essa é uma questão muito interessante, porque por mais instruída que seja a pessoa, muitas vezes não percebe os impostos que tem de pagar. Existe uma multiplicidade de impostos e taxas de que as pessoas nunca ouviram falar, mas se abrirem uma empresa ou atividade em nome individual, terão de as conhecer. Por essa razão, eu acredito que, para qualquer pessoa que quisesse abrir um negócio em Portugal, deveria ser obrigatório a realização de um curso – com um número determinado de horas – que elucidasse os futuros empresários sobre os seus deveres e obrigações, bem como a realidade organizacional de uma empresa. Nota-se muito a iliteracia existente sobre as questões fiscais e contabilísticas, sobretudo quando as pessoas decidem emitir opiniões sobre o trabalho dos contabilistas.

Durante a pandemia, muitas empresas puderam apenas contar com os contabilistas para pedir os apoios estatais e foram estes profissionais que estiveram na “linha da frente” relativamente ao apoio às empresas e à economia. Parece-lhe que este reconhecimento do trabalho dos contabilistas ficou mais evidente, desde essa altura?

O contabilista era importante antes da pandemia, continuou a sê-lo durante este período e é importante depois da pandemia. Além disso, estes profissionais são preponderantes na vida económica em Portugal. O contabilista certificado é um profissional altamente qualificado e que tem sobre si uma imensa responsabilidade, que pode influenciar, literalmente, a vida financeira dos seus clientes. Um bom contabilista tem um grande impacto na gestão contabilística, fiscal e mesmo administrativa das empresas. Na pandemia, estivemos na linha da frente, mas atualmente o contabilista não é ainda devidamente reconhecido, pois ainda é muitas vezes visto como um “faz tudo” – o próprio cliente, provavelmente devido à iliteracia que o acompanha, confunde frequentemente questões de contabilidade pessoal com a contabilidade da empresa. Na minha ótica, o contabilista deve ser, cada vez mais, um consultor, embora deva continuar a levar a cabo o seu trabalho de contabilidade – este é um ponto a ter em conta pelas autoridades competentes, considerando que, com a quantidade de obrigações declarativas que o contabilista deve preencher e entregar, sobra muito pouco tempo para dedicar aos processos contabilísticos e à consultoria. Ainda assim, no caso da Azzur Portugal, conseguimos analisar os casos dos nossos clientes um a um e, das centenas de candidaturas que entregámos, com vista à obtenção de apoios, todas elas foram aprovadas. Isso deixa-me muito orgulhoso, sobretudo considerando que, para algumas empresas, estes apoios foram fundamentais para manter as empresas em funcionamento.

Como vê a realidade da retoma económica?

Na Azzur Portugal, vemos um crescimento de negócios novos, mas outra coisa diferente é aquilo que se vê na rua. Há empresas novas a serem criadas, mas em simultâneo também existem muitas empresas que ainda estão em situações difíceis e que, por enquanto, ainda beneficiam de apoios estatais, mas estes estão a terminar e, sem eles, as empresas podem não conseguir sobreviver. Algo que também tem vindo a aumentar é o índice de falências. No entanto, acredito que a economia vai inevitavelmente crescer e, com a chegada dos apoios europeus, esperemos que Portugal os aproveite bem e que o país possa desenvolver-se e crescer, porque as empresas – e o país – merecem.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here