“Zero resíduo não começa no ecoponto, mas sim na estratégia industrial”

João Gonçalves defende que reduzir resíduos exige repensar toda a cadeia produtiva e apostar na inovação biotecnológica para transformar recursos subvalorizados em soluções de alto valor acrescentado.

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O Dia Internacional do Resíduo Zero lembra-nos que os recursos do planeta são finitos. Na sua perspetiva, qual é o principal desafio que as empresas enfrentam hoje para reduzir o desperdício desde a origem?
O principal desafio é mudar a lógica de gestão, deixar de tratar o desperdício como uma consequência inevitável e passar a encará-lo como uma falha de desenho do processo. Muitas empresas ainda atuam de forma reativa, corrigindo perdas no fim da cadeia, quando o verdadeiro ganho está em prevenir essas perdas na origem.

Isso exige visão estratégica, investimento em inovação e capacidade de rever modelos produtivos instalados há muitos anos. Reduzir desperdício desde o início implica repensar matérias-primas, formulações eficiência industrial, conservação, logística e até o destino dos coprodutos. O desafio não é apenas técnico é sobretudo cultural e de liderança.

A Tree Flowers Solutions dedica-se ao desenvolvimento de soluções naturais para a indústria agroalimentar e vitivinícola. De que forma a inovação biotecnológica pode contribuir para uma economia mais circular e com menos resíduos?
A biotecnologia tem um papel decisivo porque permite transformar recursos subvalorizados em soluções de alto valor acrescentado. É exatamente aí que nasce a economia circular séria, quando deixamos de ver determinados fluxos como “resíduos” e começamos a vê-los como matéria-prima para novas aplicações.

Na Tree Flowers Solutions trabalhamos precisamente nessa lógica. Desenvolvemos ingredientes naturais a partir de recursos botânicos, valorizando compostos bioativos e criando alternativas sustentáveis para diferentes indústrias. Isto permite reduzir dependência de aditivos sintéticos, prolongar a vida útil dos produtos, aumentar a eficiência dos processos e dar nova utilidade a recursos naturais que, muitas vezes, estavam mal aproveitados.

A biotecnologia, quando bem aplicada, não é apenas ciência é uma ferramenta concreta de reindustrialização sustentável.

Muitos consumidores associam o conceito de “resíduo zero” apenas à reciclagem. Porque é que considera mais importante repensar os processos de produção e reduzir o desperdício logo na fase inicial?
Porque reciclar, embora importante, é a última linha de defesa não é a solução principal. O verdadeiro impacto está em evitar que o desperdício aconteça. Quando uma empresa perde matéria-prima, energia, água, tempo de produção ou estabilidade do produto, já houve custo económico e ambiental. Reciclar no fim não apaga essa ineficiência.

A abordagem certa é desenhar processos mais inteligentes, à partida, formulações mais estáveis, cadeias mais curtas, melhor aproveitamento de recursos, menos perdas em produção e maior durabilidade dos produtos. É aí que se gera competitividade real. Zero resíduo não começa no ecoponto, começa na estratégia industrial.

Produtos naturais como o ChestWine® desenvolvido pela empresa, surgem como alternativas a aditivos sintéticos na conservação do vinho. Que impacto podem estas soluções ter na redução de resíduos e no aumento da sustentabilidade na indústria alimentar?
Podem ter um impacto muito relevante. Quando introduzimos uma solução natural eficaz na conservação e proteção de um alimento ou bebida, estamos a atuar em vários níveis ao mesmo tempo: preservamos qualidade, reduzimos perdas, aumentamos estabilidade e evitamos desperdício ao longo da cadeia.

No caso do ChestWine®, falamos de uma solução natural com potencial para apoiar a proteção e estabilidade do vinho, contribuindo
para uma abordagem mais clean label e mais alinhada com as exigências atuais do mercado. Se um produto mantém melhor a sua integridade, há menos risco de devoluções, menos desperdício no armazenamento, menos perdas no enchimento e maior eficiência global. Sustentabilidade, neste contexto, não é apenas substituir um ingrediente é melhorar o sistema como um todo.

Premiada nos Portugal Ventures Awards 2024, na categoria “Startup Novos negócios”

Na sua experiência, sente que o setor empresarial português já está preparado para adotar modelos de produção mais sustentáveis e alinhados com o conceito de resíduo zero?
Portugal tem empresas muito capazes e setores com enorme potencial, mas a verdade é que ainda existe um desfasamento entre intenção e execução. Há hoje mais consciência, mais discurso e mais abertura para a sustentabilidade, mas a transformação profunda dos processos ainda não está a acontecer à velocidade que devia.

As empresas que liderarem esta mudança vão ganhar vantagem competitiva. Não tenho dúvidas sobre isso. O tema deixou de ser apenas reputacional passou a ser económico, industrial e estratégico. Quem conseguir produzir com maior eficiência, menor desperdício e maior valorização de recursos estará melhor preparado para competir nos mercados internacionais.

O país tem talento científico, capacidade empresarial e recursos naturais para isso. o que falta, muitas vezes, é mais ambição na escala e mais coragem para transformar.

Para assinalar esta data, que mensagem gostaria de deixar às empresas e também aos consumidores sobre o papel de cada um na construção de uma economia com menos desperdício?
A mensagem é simples, desperdiçar menos não é um gesto simbólico, é uma decisão de futuro.

Às empresas, diria que este é o momento de agir com seriedade. Sustentabilidade não pode continuar a ser tratada como acessório de comunicação, tem de estar no centro da operação, da inovação e da estratégia de crescimento. Quem não redesenhar processos agora ficará para trás.

Aos consumidores, deixo a ideia de que cada escolha conta. Quando valorizam produtos mais sustentáveis, mais naturais e desenvolvidos com lógica de eficiência e responsabilidade, estão a influenciar toda a cadeia de valor. A mudança acontece quando mercado e indústria se alinham.

Uma economia com menos desperdício constrói-se com exigência, inovação e responsabilidade partilhada. e esse caminho já não é opcional é inevitável.