O ano de 2025 marcou uma viragem clara no mercado de crédito em Portugal. Depois de um período de forte pressão sobre os orçamentos das famílias, provocado pela subida abrupta das taxas de juro, assistimos a uma normalização progressiva das condições financeiras e a um regresso da confiança. Os dados mais recentes do Banco de Portugal confirmam essa tendência: o crédito voltou a crescer, sobretudo no segmento da habitação, atingindo ritmos que não víamos há quase duas décadas.
O crédito à habitação foi, de forma inequívoca, o grande motor desta recuperação. O crescimento anual acima dos 10% no final de 2025 reflete não apenas a descida da Euribor, mas também a conjugação de vários fatores: maior previsibilidade nas prestações, alguma recuperação do rendimento disponível e medidas públicas que facilitaram o acesso dos jovens à compra da primeira casa. O mercado reagiu, e reagiu bem. As famílias voltaram a tomar decisões de longo prazo, sinal de confiança no futuro.
Mas esta evolução positiva esconde um desequilíbrio que merece reflexão: enquanto o crédito à habitação acelerou, o financiamento às empresas manteve-se praticamente estagnado. Os dados mostram um crescimento muito modesto do crédito às empresas num ano em que a economia portuguesa continuou a crescer, ainda que de forma moderada. Esta divergência não é irrelevante. Pelo contrário, é estrutural.
Portugal continua a ter uma economia fortemente apoiada no consumo e no imobiliário, mas com dificuldades persistentes em canalizar financiamento para o investimento produtivo. O crédito às empresas continua a enfrentar critérios exigentes, perceções de risco elevadas e uma abordagem bancária muito prudente, num contexto em que o crédito à habitação é visto como um produto de menor risco, com garantias mais sólidas e menor taxa de incumprimento.
Esta lógica é compreensível do ponto de vista da gestão do risco bancário. Mas, do ponto de vista económico, levanta um problema: sem financiamento adequado, muitas empresas (em particular PME) adiam investimento, inovação e crescimento. O resultado é uma economia que cresce abaixo do seu potencial e que tem dificuldade em reforçar a sua competitividade.
O sistema financeiro mostrou capacidade de adaptação ao novo ciclo de taxas de juro. O desafio agora é outro: garantir que o crédito cumpre plenamente a sua função económica e social. Isso implica ir além da habitação e do consumo e olhar com mais ambição para o financiamento das empresas, sobretudo daquelas que criam emprego, exportam e investem.
O balanço de 2025 é, portanto, misto. O crédito voltou a crescer e isso é uma boa notícia. Mas cresceu de forma desequilibrada. Se quisermos uma economia mais resiliente, menos dependente do consumo e mais orientada para a criação de valor, é essencial que o financiamento às empresas deixe de ser o parente pobre do sistema de crédito.
O verdadeiro teste para os próximos anos não será saber se o crédito continua a crescer, mas onde cresce e se está, de facto, a apoiar o desenvolvimento sustentável da economia portuguesa.









