No mundo contemporâneo, fala-se de igualdade de género, empoderamento feminino e oportunidades equitativas. No entanto, a realidade mostra que estas palavras muitas vezes ficam no papel. Em Portugal, em pleno século XXI, as mulheres continuam a enfrentar barreiras estruturais que limitam a sua valorização profissional e pessoal. Diferenças salariais, preconceitos implícitos e discriminação por idade ou maternidade são apenas a ponta do iceberg.
Aproxima-se o Dia da Mulher, a 8 de Março. Este dia deve ser celebrado, mas sou apologista da igualdade de oportunidades, direitos, liberdades e garantias para todos, de forma equitativa. Apesar das diferenças que ainda existem em Portugal e no mundo, devemos ser gratos pelo que foi conquistado e pelo direito à liberdade que hoje consideramos garantido.
Como especialista em Recursos Humanos e Talent Acquisition, notei em diversas empresas — sobretudo no retalho — que a idade era um critério limitativo: +40 anos. Com 42 anos, percebi que o meu tempo ali seria curto — e efetivamente foi.
O Dia da Mulher, para mim, tem sido descaracterizado. Muitas vezes transforma-se em celebrações sociais, afastando-se do significado histórico que lhe deu origem. Isto não invalida que as pessoas queiram celebrar, mas é essencial não perder de vista o propósito que este dia representa.
Os dados mostram que as desigualdades estruturais persistem no mercado de trabalho português. Em 2023, a remuneração base média das mulheres era 12,5 % inferior à dos homens. Ajustando variáveis como idade, qualificação e antiguidade, o diferencial podia atingir até 17,5 %. Quase 60 % recebiam uma remuneração base até 1 000 € brutos, com rendimento médio líquido cerca de 14,4 % inferior ao dos homens. A presença feminina em cargos de liderança mantinha-se desigual, com apenas 34,7 % em posições de topo, ainda abaixo da média europeia.
Estas estatísticas ganham ainda mais peso quando olhamos para realidades extremas, como a do Irão. Conforme referiu Meryl Streep, “um pássaro tem mais direitos do que uma mulher, porque pode cantar no parque”. Uma frase chocante que nos obriga a refletir sobre o valor e os direitos de cada ser humano.
Diz o ditado: “cada cabeça, sua sentença”. Haverá sempre opiniões divergentes sobre capacidades físicas ou profissionais entre homens e mulheres. Mas limitar-se a essas generalizações desvia-nos do essencial: a valorização pelo que fazemos com quem somos. Se algumas mulheres chegaram ao topo, todas podem fazê-lo, se assim o desejarem. Não se trata de teorias conspirativas; trata-se de criar objetivos claros, definir métricas e lutar pelos sonhos.
Maria da Fonte fez história; Marie Curie e o seu marido partilharam o Prémio Nobel; Margaret Thatcher é um exemplo de determinação e objetividade. Hoje, tantas outras mulheres anônimas lutam pelos seus direitos, muitas em contextos perigosos e hostis. Estas notícias chegam diariamente às nossas casas, pelos canais de televisão e redes sociais.
Enquanto especialista em Recursos Humanos, contrataria todas elas pelas skills que possuem: liderança, conhecimento técnico, iniciativa e capacidade de lutar pelos objetivos. Mais do que o género, é aquilo que fazemos com quem somos que nos define.
O mundo evoluiu e globalizou-se. Muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades silenciosas; outras desafiam o status quo. Viver não é fácil; os obstáculos estruturais tornam o percurso feminino muitas vezes mais exigente, tanto no mercado de trabalho como na sociedade.
Para empresas e líderes, é fundamental não apenas reconhecer estas desigualdades, mas também atuar. Definir métricas claras, monitorizar progressos e implementar políticas de igualdade de género não é apenas justo — é estratégico. Todos ganhamos quando o talento é valorizado pelo seu mérito e potencial, independentemente do género.
Quem sou:
Sou profissional de RH com mais de oito anos de experiência como parceira estratégica do negócio, apoiando líderes e equipas na tomada de decisões que impactam performance, cultura e retenção de talento. Ao longo da minha carreira, criei e estruturei departamentos de RH do zero, implementei políticas e processos, defini KPIs e utilizei People Analytics como base para decisões estratégicas. Acredito em RH com dados, critério e impacto real.
Ainda hoje permaneço em constante evolução. Tal como diria Charles Darwin, “quem não se adapta extingue-se”. O desafio atual é integrar a Inteligência Artificial nos processos de recursos humanos. Confesso que nada nos estudos prepara para o impacto emocional de liderar pessoas e gerir talentos. Procurem-me no LinkedIn, onde sou seguida por mais de 30 700 seguidores.









