Ana Beatriz Bravo: entre algoritmos e direitos fundamentais

Ana Beatriz Bravo representa uma geração de mulheres que alia rigor técnico, pensamento crítico e visão de futuro. Entre o Direito, a inteligência artificial e a regulação dos serviços digitais, construiu um percurso marcado pela ambição de contribuir para uma tecnologia mais justa, inclusiva e responsável.

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Fez Mestrado em Direito e Tecnologia nos Países Baixos e especializou-se em IA e serviços digitais. O que a fascinou neste cruzamento e como isso definiu a sua identidade profissional?
O que mais me fascinou foi perceber que o Direito não vive à margem da tecnologia: é precisamente chamado a dar-lhe forma, limites e sentido. Inicialmente, escolhi Direito com a vontade de trabalhar em direitos humanos, mas foi ao longo da licenciatura que me apaixonei pela inteligência artificial, pelo seu impacto e pela sua regulação.

Apercebi-me de que estava perante uma área tecnicamente muito estimulante e, ao mesmo tempo, profundamente humana, com um impacto cada vez mais evidente nos nossos direitos, liberdades e na forma como somos tratados enquanto cidadãos.

Hoje, isso define a minha identidade profissional: procurar contribuir para que a inovação tecnológica continue a evoluir, de forma justa, responsável e consciente.

Pertence a uma geração que entrou no mercado de trabalho em plena transformação digital. Isso trouxe mais liberdade e oportunidades ou também novas pressões?
Acho que ambas as coisas. Por um lado, mais liberdade e oportunidades, porque a minha geração entrou no mercado com acesso a mais informação, ferramentas e possibilidades do que qualquer outra. Por outro, trouxe também uma nova pressão: a de acompanhar tudo, estar sempre atualizada e pronta para mudar rapidamente.

Mas encaro isso como um convite à adaptabilidade, onde o verdadeiro desafio é acompanhar a mudança sem abdicar do pensamento crítico. Porque na advocacia, a diferença continua a estar na capacidade de pensar com profundidade, filtrar o ruído e transformar mudança em valor. Na CCA, procuramos fazer isso mesmo: incorporar ferramentas de IA de forma segura, tirar partido da mudança e do avanço tecnológico e, ao mesmo tempo, manter um olhar crítico, sempre focado na melhor assessoria ao cliente.

A sua carreira tem-se desenvolvido nas áreas de Tecnologias, Media e Telecomunicações. Sente que as mulheres ainda têm de provar mais competência?
Tenho consciência de que existe um caminho ainda a ser feito,  mas essa não é a minha experiência na CCA. Aqui, as mulheres representam dois terços dos advogados do escritório e o que conta verdadeiramente é a qualidade do trabalho, o rigor e a colaboração.

E são estes valores organizacionais que  fazem toda a diferença: sermos  avaliados pela qualidade do que entregamos, e não por preconceitos prévios. Esta é a base de uma cultura verdadeiramente meritocrática, que existe na CCA, e para a qual a sociedade deve continuar a caminhar em todas as áreas.

Tem participado na reflexão sobre ética, transparência algorítmica e governação da IA. Até que ponto a presença feminina é essencial para garantir uma tecnologia mais ética, inclusiva e humanizada?
É absolutamente essencial. A IA não é neutra: reflete as escolhas, os dados e os enviesamentos de quem a desenvolve, regula e implementa. E quando falamos de tecnologia que influencia o acesso a emprego, crédito, justiça ou informação, falamos também de poder. Por isso, não podemos construir o futuro digital apenas a partir de uma perspetiva.

A presença feminina nestas discussões não é apenas uma questão de representação; é uma condição para decisões mais justas e humanas. Quanto mais diversas forem as pessoas à mesa, menor é o risco de criarmos tecnologia desligada da realidade de quem ela afeta. Esse é, para mim, um dos grandes desafios da nossa geração: garantir inovação sem perder a humanidade pelo caminho.

O seu percurso começou ainda na universidade, através de estágios de verão em sociedades de advogados de referência. Houve algum momento em que sentiu que precisava de encontrar a sua própria voz num meio tão competitivo? Como aprendeu a afirmar-se sem perder autenticidade?
Nos estágios, sobretudo no início, há uma tendência natural para querer provar tudo, dizer tudo e nos adaptarmos ao tom de toda a gente à nossa volta. Eu também vivi isso. Mas cedo percebi que, num meio competitivo, a verdadeira força não está em imitar, mas sim em dominar tudo aquilo a que nos propomos fazer, e em saber quando e como nos afirmar.

Além disso, o percurso de cada um é também moldado pelas pessoas que se vão cruzando no nosso caminho, e que nos ensinam, desafiam e acompanham, e eu tenho sido uma privilegiada. Por onde passei, e hoje na CCA, tenho a sorte de aprender com profissionais excelentes, exigentes e rigorosos, que me dão espaço para pensar por mim própria, discutir ideias e crescer. E isso faz-me querer ser mais, querer ser melhor.

O que é que ninguém vê por trás de uma jovem advogada que trabalha diariamente com inovação, regulação e futuro digital?
Ninguém vê as horas de estudo, de atualização e de reflexão que estão por trás de cada tema. Trabalhar nesta área exige aprendizagem constante, porque tudo muda muito depressa e há ainda muitas respostas por consolidar. Mas também é isso que a torna fascinante: fazer parte da construção de um caminho regulatório que ainda está a desenhar-se.

Além disso, tenho a sorte de estar num escritório onde há uma aposta real na formação contínua das pessoas, e isso faz toda a diferença. Estamos sempre a aprender, a antecipar e a acompanhar o ritmo do mercado.

Que mensagem gostaria de deixar a outras mulheres?
Diria para não esperarem pelo momento em que se sentem totalmente prontas, porque esse momento raramente chega antes de avançarmos. Construir carreira em áreas exigentes e em mudança constante exige trabalho, curiosidade e, acima de tudo, resiliência. Não é preciso encaixar num molde para ser levada a sério. O que faz a diferença é a preparação, a consistência e a capacidade de continuar a aprender sem perder a própria voz. E acrescentaria: procurem lugares e pessoas que vos desafiem, motivem e impulsionem. No fim, as carreiras que deixam marca são as que se constroem com humildade, visão, compromisso, resiliência e vontade de crescer.