As novas lutas dos trabalhadores do Estado

Paulo Marinho, Secretário-Geral do SISTERP, destaca as novas lutas dos trabalhadores do Estado, da precariedade qualificada ao desgaste emocional, e defende um sindicalismo indepndente, próximo e credível, que acompanhe a digitalização com formação, progressão e condições dignas.

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Quais são as ‘novas lutas’ dos trabalhadores do Estado que ainda não estão reconhecidas no debate público?
Atualmente, as lutas na Administração Pública já não são só as “clássicas”. Há uma necessidade crescente de reinventar, sensibilizar e motivar os trabalhadores para uma reflexão do mundo do trabalho e os novos desafios.

Há uma realidade mais silenciosa, mas muito presente: a precariedade qualificada de profissionais com responsabilidade e formação, mas sem estabilidade, associada ao desgaste emocional, causado pela pressão, falta de meios, empatia e contacto constante com situações exigentes. Soma-se a luta por condições dignas, com equipas reduzidas, acumulação de funções e pela valorização e progressão, muitas vezes inexistentes apesar do esforço e dedicação total. No fundo, a grande luta é simples: reconhecimento e condições reais para desempenhar bem o trabalho, promovendo o bem-estar laboral e pessoal.

Como é que a independência do SISTERP e a aposta na credibilidade se traduzem em benefícios face aos modelos sindicais tradicionais?
A independência do SISTERP não é um slogan é uma forma de estar. As decisões partem dos problemas reais dos trabalhadores, sem condicionamentos de agendas externas, interesses partidários ou lógicas afastadas do local de trabalho. Isso traduz-se em respostas mais rápidas e ajustadas, maior proximidade no acompanhamento de casos e uma negociação focada em quem vive o dia a dia dos serviços públicos.

Esta independência reforça a confiança com os trabalhadores, garantindo que a sua voz é ouvida sem filtros e defendida com coerência e credibilidade. O resultado é um sindicalismo mais próximo, transparente e eficaz, onde cada trabalhador se sente parte ativa da solução.

A digitalização e modernização têm valorizado as carreiras e condições de trabalho ou criaram desequilíbrios?
A digitalização trouxe mudanças profundas e, se bem aproveitada, pode ser uma enorme oportunidade. Porém, nem sempre foi acompanhada pela valorização equivalente dos trabalhadores. Muitos enfrentam novas ferramentas, processos e maiores exigências sem formação adequada, reforço de equipas ou reconhecimento nas carreiras, criando um desequilíbrio estrutural: mais responsabilidade e complexidade sem compensação e valorização. Ainda assim, a tecnologia deve ser encarada de forma proativa, como forma de melhorar o serviço público e valorizar competências. Para isso, é essencial investir em formação, garantir adaptação e assegurar que a evolução se reflete na progressão e valorização profissional.

A modernização só faz sentido com valorização real e efetiva dos trabalhadores, caso contrário exige-se mais sem retorno.

Como pretendem equilibrar a defesa dos trabalhadores com a qualidade e eficiência no serviço prestado?
Para o SISTERP, não há oposição entre defender os trabalhadores e garantir um serviço público de qualidade: uma coisa depende da outra. A missão é melhorar o serviço público prestado aos cidadãos, lutando por melhores condições, capacitação, estabilidade, formação e reconhecimento, porque só profissionais motivados e respeitados conseguem responder com qualidade e eficiência às exigências diárias. Assumimos uma postura responsável e construtiva, participando no diálogo, apresentamos propostas e procurando soluções que melhorem a organização dos serviços, simplifiquem processos e aproveitem os recursos humanos e materiais. O equilíbrio passa por colocar trabalhadores e cidadãos no centro, porque quando o sistema cuida de quem nele trabalha, o resultado é um serviço mais próximo, eficaz e digno.

Se tivesse de eleger uma medida urgente, qual seria e porquê?
A medida mais transformadora seria a valorização efetiva das carreiras e remunerações na Administração Pública, eliminando as atuais carreiras gerais e criando modelos pluricategoriais. Não se trata de ajustes pontuais ou paliativos, mas de uma decisão estrutural que reconheça as funções e valor remuneratório. Esta prioridade é decisiva porque retém e atrai talento, reconhece o esforço e melhora a qualidade do serviço público. Contudo, a concertação social deve tornar-se mais representativa e plural. O modelo atual exclui o sindicalismo independente da Comissão Permanente de Concertação Social, apesar de representar a maioria dos sindicatos existentes em Portugal. O Governo continua a negociar com estruturas menos representativas, ignorando a USI, que agrega mais de 80% dos sindicatos independentes e representa sobretudo trabalhadores qualificados e altamente especializados.

Se queremos políticas públicas mais justas, equilibradas e eficazes, a concertação social tem de ir além do “sistema fechado” atual e abrir-se aos independentes, reforçando a legitimidade das decisões, aproximando o diálogo da realidade e permitindo reformas mais consistentes. Valorizar carreiras, salários e valorizar quem representa efetivamente os trabalhadores não são caminhos paralelos, são partes da mesma transformação estrutural de que o Estado precisa.