Assegurar a qualidade do ensino vai custar mais dinheiro

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Aristóteles, o grego da Trácia, defendia que nós somos aquilo que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não resultaria de um ato, mas sim de um hábito.

Se fosse tudo tão linear como o filósofo supunha, as mudanças conjunturais e as dificuldades passageiras dificilmente poderiam fazer perigar ou comprometer um trabalho de muitos anos, constante e perseverante como aquele que tem sido feito pelas universidades portuguesas no sentido de se afirmarem pela qualidade e de se
tornarem competitivas num setor largamente dominado pelas laureadas instituições de ensino superior das maiores economias da Europa, da América ou da Ásia, onde os meios são sempre menos contados e a visão estratégica um pouco mais ancha.

Sendo inegável o muito e bom trabalho que tem sido feito entre nós a despeito das dificuldades habituais, o advento da invasão russa da Ucrânia trouxe de volta o fenómeno da inflação galopante, com cifras tão
impressionantes que quase nenhum dos nossos estudantes tem ainda idade para ter sequer assistido a algo
semelhante.

É evidente que a atual conjuntura penaliza (quase) todos os setores de atividade, não sendo um problema
exclusivo das universidades. O surto inflacionário acarreta, todavia, dois grandes riscos essenciais para as
instituições de ensino superior — e dois grandes desafios para o país.

Por um lado, o aumento do custo de vida para a generalidade das famílias pode, em muitos casos, tornar insustentável a permanência dos mais jovens na universidade, mormente quando se encontrem deslocados e não reúnam as espartanas condições de acesso aos apoios sociais do Estado. O perigo é óbvio e passa pela possibilidade de deixarmos de formar e de ajudar a crescer alguns dos nossos melhores recursos humanos. Para
o evitar, será necessário que todas as instituições e o Governo sejam capazes de cooperar e de trabalhar no sentido de sermos capazes de reforçar os programas de ação social, aumentando o número de estudantes apoiados e alargando esse apoio a grupos socioeconómicos que tradicionalmente não reuniam as condições para dele beneficiar.

O segundo risco decorrente da alta inflação não é menos penalizador, nem menos capaz de provocar efeitos
a longo prazo. Refiro-me ao altíssimo impacto da atual conjuntura nos custos da energia para os grandes
consumidores de eletricidade, entre os quais se contam as universidades. Tais aumentos, na casa das várias
centenas de pontos percentuais, acarretam enormes dificuldades para a gestão corrente das instituições e
também, a médio e longo prazo, implicarão cortes no investimento e, consequentemente, prejudicarão o
desenvolvimento do sistema de ensino superior português, condenando a possibilidade de as nossas universidades de manterem competitivas internacionalmente, mantendo-se a par de países onde o financiamento é muito superior. Não menos importante, não será possível às instituições de ensino superior transferir este sobrecusto para os estudantes, fazendo-o refletir-se, por exemplo, nas propinas, sob pena de agravar ainda mais as dificuldades que as famílias já atravessam.

Fazer face a estes dois desafios constitui, pois, uma tarefa enorme — e não só para o ano que aí vem. Os efeitos da redução no investimento nas universidades e um cenário de elevado abandono académico acarretarão pesadas consequências para o país: para a desejável mobilização e rentabilização do nosso capital humano e,
consequentemente, para o progresso nacional aos mais diversos níveis. É, assim, essencial que o Estado
compense efetivamente as universidades pelas perdas decorrentes dos enormes aumentos da conta da eletricidade.

O otimista Aristóteles, que citei no início deste texto, também escreveu que “a energia da mente é a essência
da vida”. É também a essência do desenvolvimento das empresas, das instituições e das nações. Mas a energia gerada pelas mentes mais brilhantes, mesmo que postas a pensar todas juntas no espaço de uma universidade, não é ainda capaz de acender uma única lâmpada.

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