Escassez de competências leva empresas portuguesas a apostar no desenvolvimento interno

Segundo a Hays, 49% das empresas investe no desenvolvimento de competências dos colaboradores na função atual. 63% das organizações admite sentir escassez de competências, num mercado onde apenas 34% dos empregadores considera que o ensino prepara adequadamente os estudantes para responder às necessidades das empresas.

0
130

O mercado de trabalho qualificado em Portugal continua a enfrentar uma escassez estrutural de competências obrigando as organizações a investir cada vez mais no desenvolvimento interno das suas equipas. Esta é uma das principais conclusões do Guia Hays 2026, que revela uma mudança na forma como as empresas respondem à dificuldade em encontrar talento qualificado.

De acordo com o estudo, 63% das empresas admite sentir escassez de competências — 58% considera-a moderada e 5% extrema — enquanto apenas 7% afirma não enfrentar este desafio.

Entre as principais causas apontadas pelas organizações destacam-se o reduzido interesse das novas gerações por determinadas profissões (37%), a falta de competitividade salarial e de benefícios (35%) e a crescente concorrência pelo talento (33%). O desalinhamento entre a formação académica e as necessidades das empresas (24%) e a insuficiente oferta de programas de formação ajustados ao mercado (23%) continuam igualmente a dificultar o recrutamento.

Perante este contexto, as empresas portuguesas estão a apostar cada vez mais no desenvolvimento e valorização do talento interno. De acordo com o estudo da Hays, 49% das organizações privilegia estratégias de upskilling, reforçando as competências dos colaboradores nas suas funções atuais. Paralelamente, o recrutamento externo continua a desempenhar um papel relevante, sobretudo para posições estratégicas e de elevado impacto no negócio. Contudo, o Guia evidencia que apenas 12% das empresas investe em programas de reskilling, preparando os seus profissionais para assumirem novas funções e responderem às necessidades futuras da organização.

“Num mercado em que a escassez de talento continua a desafiar as organizações, a resposta não passa apenas por recrutar mais, mas por recrutar melhor e desenvolver o potencial existente. As empresas que combinam uma estratégia sólida de atração de talento com investimento em upskilling, reskilling e planos de carreira estruturados, estão melhor posicionadas para responder às suas necessidades de competências, reforçar a retenção e sustentar o crescimento do negócio”, afirma Matilde Moreira, Strategic Accounts Director da Hays Portugal.

Empresas investem em formação, mas colaboradores nem sempre o reconhecem
O estudo evidencia também um desalinhamento entre as iniciativas implementadas pelas empresas e a perceção dos profissionais.

Segundo os empregadores, 82% disponibiliza programas internos de formação ou workshops, 55% oferece plataformas de aprendizagem online, 42% apoia financeiramente cursos e certificações e 31% promove programas de mentoria ou coaching.

Contudo, do lado dos profissionais, 31% afirma não receber qualquer apoio para desenvolver competências na função atual. Apenas 28% refere ter acesso a programas internos de formação, 25% a plataformas de aprendizagem online e 11% beneficia de apoio financeiro para cursos ou certificações.

Este desfasamento sugere que muitas organizações poderão estar a falhar na comunicação, implementação ou visibilidade das iniciativas de desenvolvimento junto das suas equipas.

Quando questionados sobre as medidas que mais valorizam para desenvolver competências, os profissionais colocam em primeiro lugar o financiamento de cursos e certificações (62%). Seguem-se percursos de carreira estruturados, com objetivos claros de desenvolvimento de competências (36%), acesso a plataformas de aprendizagem online (24%), reconhecimento formal das competências adquiridas nos processos de avaliação (24%), programas de mentoria ou coaching (23%) e tempo dedicado à aprendizagem durante o horário de trabalho (22%).

Os resultados demonstram que os profissionais procuram uma proposta de desenvolvimento que combine investimento, estrutura e reconhecimento, reforçando a importância da aprendizagem contínua como fator de atração e retenção de talento.

O estudo revela ainda que apenas 34% dos empregadores acredita que as instituições de ensino preparam adequadamente os estudantes para responder às exigências do mercado de trabalho.

Entre as principais fragilidades identificadas estão o desalinhamento entre a formação académica e a realidade das empresas (79%), o excesso de componente teórica (70%), o reduzido desenvolvimento de competências comportamentais (59%), a falta de competências técnicas específicas (33%) e o desconhecimento do funcionamento dos diferentes setores de atividade (29%).

Ao nível das competências transversais, comunicação, capacidade de resolução de problemas, adaptação à mudança, gestão de pessoas, colaboração entre equipas e pensamento crítico surgem entre as mais valorizadas.