O Mundo está mais digital! E agora?

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“Temos vivido os melhores tempos para a aceleração da digitalização”. Todos o sabemos e todos o celebramos. Em todas as profissões surgem as formações para a transição digital e para a requalificação profissional que, na
maior parte das vezes, se confundem com formação exclusiva em tecnologia. Tudo isto para dar acesso a
todos à cultura, aos serviços do Estado, ao comércio global, à saúde, etc.

Para os mais preparados, esta aceleração digital veio permitir a inclusão das pessoas mais isoladas, o acesso ao conhecimento global, que só a internet permite, e a partilha de hábitos, rotinas e processos ao redor do mundo. Esta inclusão faz-se porque existe o digital!

Temos, porém, dado menos importância ao facto de que esta digitalização alterou comportamentos, separou equipas, alterou rotinas e criou novas oportunidades, novos empregos e novas esperanças para alguns. Não foi apenas a pandemia que alterou as rotinas do emprego e da vida familiar, mas também, e principalmente, a digitalização acelerada por ela.

Esta realidade, que facilitou a vida da maioria dos que me estão a ler, é ainda insuficiente para incluir muitos e continua a provocar a exclusão de outros. Senão vejamos:

A febre de formação tecnológica inundou as comunidades de formação intensiva em ferramentas tecnológicas, esquecendo as metodologias para a sua aplicação à realidade nas respectivas profissões. Nada pior do que a assunção de que após dois ou três dias de formação em determinada ferramenta, tudo na rotina diária pode
ser alterado sem uma aplicação gradual e progressiva. Em todas as áreas a tecnologia é um meio para desenvolver projectos, cumprir tarefas ou seguir processos. Para utilizar os meios digitais temos de aprender metodologias de projecto, de organização e de sistematização que nos permitam, através das ferramentas tecnológicas, atingir os nossos objectivos.

Outro fator importante é o facto de grande parte da tecnologia que poderia estar já disponível à comunidade continuar ainda fechada em centros tecnológicos e de investigação, em universidades e empresas recheadas de grandes investimentos ou “bolsas” financeiras.

O Mundo mudou e a concepção das novas ferramentas tecnológicas tem como principal característica a fácil acessibilidade e usabilidade. Por outro lado o maior acesso ao conhecimento global dos jovens de hoje faz com que não necessitem de um curso numa área específica para dominarem temas aos quais se dedicam. Qualquer
psicólogo se pode tornar num guru em programação apenas porque nos seus tempos livres se dedicou a aprender a programar. É por isso fundamental promover a disponibilização de ferramentas tecnológicas à comunidade, permitindo à população de menor rendimento ou formação académica o acesso ao poder da
Tecnologia. Esta medida tem no meu entender duas consequências diretas: a possibilidade de maior criatividade e originalidade nas soluções e a motivação de indivíduos excluídos ou fora do sistema.

Tenho repetido incessantemente aquilo que todos sabemos: os modelos social, político e económico estão obsoletos. Esta época fracturante do ponto de vista comportamental é uma oportunidade única para incluirmos indivíduos desmotivados, deprimidos ou só e apenas excluídos do sistema. Incluem-se nestes o crescente número de jovens NEET (que nem estão empregados, nem estão em formação, nem registados em qualquer sistema de emprego), que na sua maioria têm elevados níveis de formação, mas que não se adaptam à realidade
em que os posicionaram.

Aproveitemos por isso este momento para aceitar que o Mundo mudou, que o conhecimento é global e que necessitamos de voltar a questionar todas as nossas crenças e preconceitos. Tudo isto sem conclusões apressadas e assumindo que a beleza da Tecnologia é a capacidade de nos colocar no centro do mundo e do conhecimento, e de nos permitir ser mais ousados e determinados para atingir os nossos sonhos e objectivos!

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