Antes de dar forma aos projetos empresariais que hoje lidera, Carlos Latourrette passou 18 anos na SONAE onde esteve ligado a áreas como a Contabilidade, gestão documental, sistemas de informação e automatização. “Foi uma experiência determinante para compreender que a tecnologia só ganha verdadeiro significado quando consegue transformar a forma como uma organização trabalha”, recorda.
Seguiu-se um percurso empreendedor com projetos nacionais e internacionais, a expansão para a América Latina e uma trajetória empresarial que hoje se traduz, entre outros projetos, na Bizdocs e na Latourrette.ai. Contudo, o percurso não foi linear. A pandemia obrigou a uma profunda reestruturação, num período em que projetos foram cancelados e alguns clientes enfrentaram dificuldades. “Foi nesse contexto que a digitalização ganhou uma nova urgência e a bizdocs encontrou uma oportunidade para acelerar”, explica.
Para o empresário, esta capacidade de atravessar diferentes ciclos faz parte da própria liderança: “perceber quando é necessário insistir, quando é preciso mudar e, sobretudo, não confundir estabilidade com evolução”.
Do digital à contabilidade
A Bizdocs nasceu precisamente neste espaço, procurando ligar documentos, processos, empresas, clientes e sistemas contabilísticos. A solução ganhou um novo impulso em 2020, num contexto em que a pandemia acelerou a necessidade de digitalização e a legislação já permitia a desmaterialização legal de documentos. A automatização das tarefas mais repetitivas coloca uma questão inevitável: se a tecnologia conseguir tratar cada vez mais das obrigações, qual será o verdadeiro valor acrescentado do contabilista? Carlos Latourrette acredita que a resposta passa por uma aproximação à gestão.
O profissional de contabilidade do futuro poderá deixar de estar tão concentrado no cumprimento de obrigações e assumir um papel mais próximo do empresário, apoiando a análise de números, margens, clientes, fiscalidade e decisões estratégicas. “Se o contabilista apenas consegue tratar da parte das obrigações fiscais, é isso que vai entregar. mas, se conseguir começar a dizer ao empresário: ‘Isso já está resolvido. agora vou ajudar-te a olhar para o negócio’, então estamos perante uma realidade completamente diferente”.
Além disso, a mudança poderá alterar também a forma como o próprio serviço é valorizado: “uma obrigação fiscal tende a ser encarada como um custo necessário. Já uma intervenção que ajude uma empresa a compreender melhor o negócio, a otimizar recursos ou a tomar decisões poderá ser entendida como uma fonte direta de valor”, exemplifica.
“Uma obrigação fiscal tende a ser encarada como um custo necessário. Já uma intervenção que ajude uma empresa a compreender melhor o negócio, a otimizar recursos ou a tomar decisões poderá ser entendida como uma fonte direta de valor”
A inteligência artificial muda a escala
Se a digitalização permitiu automatizar processos, a Inteligência Artificial poderá alterar a própria forma como o trabalho é organizado. A diferença não está apenas na capacidade das ferramentas, mas na velocidade com que estão a evoluir. “Novos modelos, funcionalidades e aplicações surgem continuamente, fazendo com que aquilo que hoje parece extraordinário possa tornar-se banal num curto espaço de tempo”. É precisamente essa velocidade que cria um desafio para empresas e profissionais. “Não basta conhecer uma ferramenta. é necessário perceber como funciona, onde pode ser aplicada, quais são os seus limites e de que forma pode ser integrada nos processos existentes”.
Para o gestor, a tecnologia vai tornar-se cada vez mais acessível. “O acesso, por si só, deixará de ser suficiente para criar valor. Se todos podem utilizar ferramentas semelhantes, o valor estará na forma como cada pessoa ou organização as utiliza. é aqui que o conhecimento da área de negócio assume uma importância decisiva”.
Uma ferramenta de IA pode produzir uma resposta convincente e, ainda assim, estar errada. sem conhecimento especializado, o utilizador pode não conseguir identificar o erro ou perceber que a resposta não é adequada ao contexto. por isso, “a adoção da ia não significa substituir conhecimento humano por tecnologia. significa combinar conhecimento especializado com novas capacidades tecnológicas”.

Antes de automatizar, simplificar
É neste contexto que a formação deixa de poder ser encarada como uma etapa isolada. a aprendizagem tem de acompanhar a evolução das ferramentas e, sobretudo, estar ligada aos problemas concretos de cada empresa. “Mostrar que uma ferramenta consegue criar uma imagem, produzir um texto ou executar determinada tarefa não significa ensinar uma empresa a retirar valor dessa capacidade”. Existe, porém, uma condição anterior à implementação da IA: perceber se o processo que se pretende automatizar deve realmente continuar a existir. Para Carlos Latourrette, este é um dos erros que muitas organizações podem cometer.
Em vez de repensarem processos antigos, limitam-se a acrescentar tecnologia sobre aquilo que já fazem. “Estamos a colocar a tecnologia mais poderosa do mundo em cima de um processo obsoleto. a abordagem deve começar pelo resultado pretendido. depois, deve analisar-se o processo, eliminar tarefas desnecessárias e simplificar o percurso. Só posteriormente faz sentido decidir aquilo que deve ser automatizado”. a mesma lógica aplica-se aos dados.
Uma empresa pode ter acesso às ferramentas mais avançadas, mas isso não significa que esteja preparada para utilizá-las. Dados incorretos, desorganizados ou inacessíveis comprometem a qualidade dos resultados. O mesmo acontece quando não estão definidas regras claras sobre acessos, segurança, privacidade e governação. “Quem começar agora a fazer estas coisas sem tratar primeiro da base vai enfrentar um problema muito grave: as infraestruturas, os dados, os acessos e a governação. se isto não começar por baixo, será um castelo de cartas”. A preocupação ganha ainda maior importância quando estão envolvidos dados de clientes.
É preciso saber onde está a informação, como é utilizada e que tratamento recebe quando é introduzida em sistemas de inteligência artificial. Neste contexto, até o prompt ganha uma dimensão diferente. “O prompt não deve ser entendido simplesmente como uma pergunta escrita numa caixa de texto, mas como uma instrução estruturada que ajuda a orientar o sistema e a manter o resultado dentro dos limites pretendidos”.
A mudança acontece nas pessoas
Por mais poderosa que seja a tecnologia, a mudança não acontece automaticamente. É necessário preparar as pessoas para trabalhar num contexto em que algumas tarefas serão progressivamente executadas por sistemas automatizados e agentes de IA. É aqui que o papel da liderança ganha nova importância. As administrações terão de perceber que competências existem dentro das organizações, quais serão necessárias no futuro e como podem ser desenvolvidas. “Para mim, a revolução não é técnica. É uma revolução de pessoas. A questão é: que pessoas vamos ter daqui a dois anos? Que competências vão precisar de ter para viver no mundo daqui a dois anos?”
A questão não é apenas preservar postos de trabalho ou substituir determinadas tarefas. É perceber como cada pessoa pode continuar a acrescentar valor quando uma parte significativa do trabalho operacional passa a ser executada por tecnologia. “Quando tivermos uma empresa muito automatizada, com muitos agentes a fazer tarefas que antes eram realizadas por pessoas, a questão passa a ser: como é que essas pessoas acrescentam valor? Se não fizerem esse caminho, não acrescentam valor”.
É neste contexto que surge o programa de adoção de IA proposto pela Latourrette.ai e pela Bizdocs. “Mais do que uma formação convencional, a proposta assenta num percurso que começa por identificar o nível de literacia das pessoas e as competências necessárias para os objetivos de cada organização. Seguem-se a formação, a experimentação assistida, a identificação de casos de utilização e o apoio à implementação das soluções”.
As duas empresas acompanham o processo desde a preparação das pessoas até à aplicação concreta da tecnologia. “Não podemos colocar uma ferramenta na mão das pessoas e dizer: ‘agora utilizem-na’. Tem de existir um caminho. temos de perceber o ponto de partida, aquilo que cada pessoa precisa de aprender, quais são os casos de utilização relevantes para a empresa e qual é o resultado que queremos alcançar”.
“Para mim, a revolução não é técnica. É uma revolução de pessoas. A questão é: que pessoas vamos ter daqui a dois anos? Que competências vão precisar de ter para viver no mundo daqui a dois anos?”
A eficiência também se mede pelo custo
Quando uma empresa integra serviços de IA nos seus sistemas, entra também numa lógica de consumo. Não se trata apenas de pagar uma mensalidade. cada utilização pode representar processamento e, consequentemente, custos. Por isso, nem sempre a escolha deve recair sobre o modelo mais poderoso ou mais caro. “Não faz sentido utilizar sempre o modelo mais caro ou mais poderoso para todas as tarefas. tenho de perceber qual é o modelo adequado para cada necessidade. A escolha deve considerar o tipo de tarefa, a velocidade necessária, o desempenho esperado e o custo. uma interação com um cliente que tenha de responder em dois segundos, por exemplo, terá requisitos diferentes de uma tarefa de análise que possa demorar mais tempo”.
A velocidade de evolução obriga a uma mudança na própria forma de pensar a formação profissional. já não existe um momento em que se possa considerar concluída a aprendizagem de uma tecnologia que está em permanente transformação. “Novos modelos, alterações de funcionalidades, preços diferentes e novas possibilidades de utilização obrigam empresas e profissionais a manter uma atualização constante. a aprendizagem deixa de ser uma ação pontual e passa a integrar o funcionamento normal das organizações”.
A visão do empresário sobre a Inteligência Artificial não se resume à tecnologia. Está, sobretudo, ligada à transformação das organizações e das pessoas que as constituem. “Haverá empresas capazes de aumentar significativamente a produtividade através da IA, reduzindo tempos de execução e custos e acelerando a chegada de produtos e serviços ao mercado. Mas esse resultado não surgirá simplesmente pela aquisição de ferramentas. Será necessário repensar processos, preparar dados, garantir segurança, controlar custos, formar pessoas e escolher os casos de utilização certos. E, acima de tudo, será necessário criar dentro das organizações uma cultura de aprendizagem contínua.
A experiência empresarial de Carlos Latourrette ajuda a explicar esta perspetiva. A tecnologia foi sempre um meio para resolver problemas. Agora, com a Inteligência Artificial, a escala da mudança é maior, mas o princípio mantém-se. “Se todos tivermos acesso às mesmas ferramentas, isso não significa que todos vamos obter os mesmos resultados. haverá pessoas e empresas que vão perceber como tirar partido dessas ferramentas de uma forma completamente diferente”. É nessa capacidade de transformar conhecimento em ação que Carlos Latourrette identifica a verdadeira fonte de criação de valor. num cenário em que a tecnologia estará cada vez mais acessível, será a capacidade humana de a compreender, adaptar ao contexto e aplicar com propósito que transformará potencial em resultados.
E é por isso que, perante uma transformação de uma escala sem precedentes, que está ainda a começar, a sua principal mensagem não é tecnológica. “A tecnologia, por si só, não transforma organizações. são as pessoas que transformam organizações com tecnologia. E essa mudança só se torna real quando é incorporada pelas pessoas que conhecem o negócio, os processos e os clientes”, conclui.
No futuro, a questão já não será apenas saber que tecnologia existe ou a que ferramentas se tem acesso. Será perceber o que cada organização está preparada para fazer com esse potencial. porque, no fim, o futuro não será definido pela tecnologia disponível, mas pelas pessoas que souberem transformá-la em valor.










