Arquitetura no feminino

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É mesmo estranho uma mulher interessar-se tanto por construção” dizia ele, enquanto achava que me estava a prestar um elogio.

Este tipo de comentários, apresentados sob a forma de elogio são uma constante na vida de algumas mulheres empregadas. Atualmente, estes falsos elogios são das formas de discriminação mais recorrentes na sociedade, e muitas vezes aqueles que os proferem nem sabem que o estão a fazer ou não o fazem com malícia intencional.

No entanto, este género de reações e comentários prejudicam e continuam a ter um impacto negativo no ambiente de trabalho e no ideal de progressão da carreira de muitas mulheres.

No caso da arquitetura, é cada vez mais evidente o aumento da existência de mulheres na profissão. Numa área que era claramente dominada por homens há 50 anos, hoje, aquelas que estão inscritas na ordem dos arquitetos são tantas como os inscritos e nas faculdades, cada vez se denota o aumento da participação das mulheres no curso. Tanto alunas como professoras.

Então, porque é que a construção continua a ser retratada como um mundo masculino? Pela “mão de obra” ser essencialmente, composta por homens? Questões que me parecem pertinentes quando reparamos que essa discriminação é mais evidente no terreno. Quase sempre somos conotadas como as estagiárias ou as ajudantes do arquiteto sénior da obra. Uma realidade que se adensa, se ainda por cima, formos jovens.  

No que diz respeito ao trabalho nos escritórios ou ateliers, essa discriminação muda de tom, tornando-se menos descarada, porque nos habituamos a ver mais mulheres aqui.

O comentário pelo qual comecei este pequeno texto de reflexão é um grande exemplo disso, e há muitos outros que ouvimos, inclusive fora do contexto de trabalho. No entanto, profissionalmente e no que à progressão de carreira diz respeito, isto torna-se mais complexo e este tipo de ideias e exclamações podem prejudicar o psicológico e o desempenho diário de uma mulher. Quando por norma, temos tendência a ser mais prejudicadas, seja no salário, ou na partilha de oportunidades e responsabilidade.

Estas ações ou palavras podem ser muito simples como o ato de interromper constantemente o raciocínio e discurso de uma mulher, muitas vezes para dizer o mesmo por outras palavras, ou por achar que não temos opinião sobre o assunto. Ideias predispostas que à partida podem retirar a visão da mulher das decisões mais relevantes.

Outra ideia para mim desconcertante, é o tipo de comentário que já ouvi mais do que uma vez, em que uma arquiteta tem mais aptidão para projetar a habitação e pequenas obras, e nunca teria estofo suficiente para fazer um projeto maior. Isto porque continuamos a perpetuar o lugar da mulher na organização da casa e daí, discorre o facto de ter a mesma sensibilidade como na vista à criação de um lar. Enquanto o homem tem um papel mais criativo e por isso, terá ideias superiores num projeto de escala maior. Só que essa experiência acontece com todas as vivências que temos ao longo do nosso crescimento enquanto seres humanos, e isso faz com que cada um de nós, homens ou mulheres, tenhamos uma ideia ou conceito diferente, variando de pessoa para pessoa. É tudo isso que nos torna únicos e diferentes ao mesmo tempo e colocar as pessoas em caixas ou estereotipar em qualquer área ou profissão, nunca trouxe nenhuma vantagem. Nem para as empresas e muito menos para os profissionais.

Claro que este tipo de discriminação não acontece em todos os locais de trabalho. Continuam é a ser demasiados e o que mais indigna, é o facto de não ser apenas uma questão geracional, mas de educação, de bases, e acima de tudo, de empatia pelo próximo.

Aproveitando a celebração do Dia da Mulher, continua a ser importante, debatermos estas questões. Não só as de género, como também qualquer outro tipo de discriminação, apontando sempre o caminho com vista à valorização do indivíduo, enquanto pessoa, com todas as suas qualidades defeitos e direitos, aproximando-nos sempre de uma sociedade mais justa e igualitária.

Rita Cunha, arquiteta na A77

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