Burnout em Portugal: quando a exaustão se torna norma

Os dados mais recentes mostram que 61% dos portugueses se sentem esgotados ou em risco de burnout, mas apenas 3% recorrem à terapia. Esta discrepância levanta uma questão central: como é que um problema tão prevalente continua tão invisível na procura de ajuda psicológica?

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O burnout é uma resposta a um stress laboral crónico, quando a pessoa sente não dispor de estratégias adaptativas para lidar com ele. E, infelizmente, em Portugal, a elevada prevalência do burnout contrasta com a baixa procura de intervenção profissional devido a vários fatores. Um deles é a falta de literacia em saúde mental: muitos desconhecem o significado real do termo, confundindo-o com simples cansaço. Essa confusão contribui para a subvalorização dos sintomas, que podem evoluir até atingir o limite do corpo e da mente.

Outro fator é a normalização do que não é normal. Portugal é um dos países europeus com mais horas de trabalho, e muitas empresas ainda valorizam a resistência e a disponibilidade permanentes. o resultado é que o burnout passa a ser visto como inevitável para quem trabalha, em vez de um problema de saúde que exige intervenção especializada. Assim, constrói-se um cenário em que o burnout é massivo, mas a resposta terapêutica é mínima.

No meu dia a dia clínico, observo vários sinais de alerta do burnout: emocionais (tristeza, apatia, frustração, irritabilidade, ansiedade, baixa autoestima), cognitivos (dificuldades de concentração, lentidão, menor criatividade, ruminações), comportamentais (comunicação impessoal, evitamento, impulsividade, abuso de substâncias), sociais (isolamento, menor envolvimento com colegas e familiares), laborais (atrasos, absentismo, baixa produtividade, vontade de desistir) e físicos (fadiga, problemas cardiovasculares, dores de cabeça, enxaquecas, distúrbios gastrointestinais).

Estes sinais são alertas claros: o corpo fala, mas precisamos de parar e escutá-lo. Não normalizem o que não é normal. O burnout manifesta-se de forma diferente em homens e mulheres. As mulheres tendem a internalizar mais os sintomas, apresentando exaustão emocional, ansiedade, tristeza e sintomas psicossomáticos como dores de cabeça e fadiga persistente. os homens, por sua vez, exteriorizam mais os sintomas, com explosões verbais, irritabilidade e comportamentos agressivos, embora apresentem sintomas físicos mais tardios. Estas diferenças têm implicações importantes para a identificação precoce e para a intervenção terapêutica.

O tratamento psicológico do burnout começa com psicoeducação, identificando sinais e reforçando a necessidade de parar. Inclui-se também a promoção do autocuidado, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, gestão do tempo, limites e hábitos saudáveis. Assim, a terapia cognitivo-comportamental ajuda a reestruturar pensamentos e crenças limitantes.

Apesar da pressão constante, da hiperconetividade e da instabilidade profissional, a prevenção do burnout é possível. Estabelecer limites claros, delegar tarefas, adotar hábitos saudáveis e fortalecer redes de apoio são essenciais, mas uma mudança cultural é igualmente necessária: o burnout não deve ser visto como inevitável ou como sinal de dedicação, mas como um alerta que exige atenção profissional.

Portugal precisa urgentemente de reverter esta normalização da exaustão. Só quando reconhecermos que o burnout é um problema de saúde e não uma consequência natural do trabalho poderemos reduzir os números alarmantes e permitir que mais portugueses procurem ajuda. Até lá, continuaremos a viver num país onde se trabalha muito, mas se cuida pouco de quem trabalha.