CASA SÃO MIGUEL: o sabor da tradição no coração de Lisboa

Leonor Oliveira iniciou a Casa São Miguel já com mais de 50 anos de idade. Após mais de três décadas a trabalhar nas áreas de gestão e expansão de redes de lojas e direção comercial, o desemprego levou-a a ativamente criar o seu emprego. A Casa São Miguel nasceu da conjugação de fatores como a paixão pelo património português – incluindo louças e gastronomia – e a sua vontade de manter viva a tradição das receitas da doçaria tradicional portuguesa. Hoje, a Casa São Miguel conta com mais de 180 doces, todos feitos de forma tradicional, mantendo as raízes originais, num espaço onde até a decoração é única.

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Há cinco anos que iniciou o projeto Casa São Miguel. Por que razão resolveu avançar para um negócio relacionado com a pastelaria e os produtos tipicamente portugueses?

Depois de quase 30 anos a trabalhar na área da gestão e expansão de redes de lojas, direção comercial e desenvolvimento, fiquei no desemprego! Já com mais de 50 anos de vida, no feminino só tinha uma alternativa; criar o meu próprio emprego. Assim comecei o projeto junto do IEFP, e com a ajuda do meu marido fizemos o projeto de investimento e eu fiz o estudo de mercado.
A área que escolhi foi uma combinação de fatores que se alinharam na perfeição e confesso que tive muita sorte.

Como colecionadora de cerâmicas e loiças antigas, sempre acreditei que um dia a melhor solução seria dar-lhes uma utilização prática, numa loja onde estas pudessem ter uma função específica.

Identifiquei o espaço numa localização onde em 2019 passavam entre 800 a 1000 pessoas / turistas por hora. Aliada à carência de espaços de pastelaria de qualidade na zona mais histórica e visitada de Lisboa, foi assim que decidi
começar um projeto que nos transportasse de volta aos anos 20, 30 e 40 do séc. XX.

Sei desenhar e fiz o projeto da loja, bem como a decoração dos interiores (uma outra paixão), onde consegui colocar parte da minha coleção, que assim passou a estar ao serviço e ter uma função. Quase tudo é original, ou construído como na época.
Tenho um senhorio que soube reconhecer o meu trabalho e as minhas valências e que me deu uma força incrível, porque a abertura foi em 2020, no começo da pandemia.

Ao longo destes cinco anos, enquanto profissional e pessoa, que evolução sentiu em si que se pode dever à sua necessidade de coordenar este projeto e fazê-lo ter sucesso?

A evolução enquanto profissional é-me difícil de analisar, porque encontro dificuldades que não conhecia antes, tais como a gestão dos funcionários, que não sentem a mesma paixão pelo meu projeto. Enquanto pessoa, vivo mais
apaixonada pelo meu trabalho, criei marcas próprias e faço todo o design dos rótulos e de tudo o que envolve o design da marca. Para além disso estou a escrever um livro sobre a história da doçaria que é vendida na CSM.

Como caracteriza este projeto, no que se refere à sua identidade? O que o distingue das restantes pastelarias / confeitarias?

A Casa São Miguel vende ARQUEOLOGIA GASTRONÓMICA PORTUGUESA. Oferecemos um conjunto de receitas que recuperam a memória gustativa da Pastelaria Conventual, Regional e Popular Portuguesa, e que ainda são confecionadas de forma artesanal e sustentável com produtos endógenos de cada região. Desta forma ajudamos a manter vivos os nossos sabores únicos e variados, utilizando os melhores ingredientes locais, e dando a
conhecer a nossa cultura gastronómica.

Também vendemos uma vasta gama de outros produtos portugueses, incluindo cerâmicas, tais como réplicas perfeitas de bolos clássicos.

Acho que respondi às duas perguntas!

Há pessoas que não iniciam os seus projetos por medo de falhar. Aos olhos da Leonor, como pode este medo ser superado?

Eu diria que observando a oferta existente na área em que querem atuar, devem procurar lacunas nessa oferta de bens ou serviços e oferecer algo novo e com uma mensagem atrativa. Eu procuraria entrar em contacto com
profissionais bem-sucedidos por mérito próprio, para me aconselhar. Os bem-sucedidos dão sempre bons conselhos.

Que obstáculos elenca ao longo da sua carreira, para chegar à posição em que se encontra hoje?

Venho de uma área de trabalho maioritariamente exercida por homens e acho que fui a primeira mulher a fazer a expansão de redes de lojas em Portugal. Sempre fui muito reconhecida pelo meu trabalho, mas em casos pontuais
senti claramente resistência por parte de gente que teme ser ultrapassada.

Que medidas devem ser implementadas em Portugal para fomentar o empreendedorismo da Mulher?

Acho que as medidas não passam pelos governos. Faltam visão e educação a alguns líderes de grandes empresas, para ver mais abaixo e perceber que tem colaboradores em cargos elevados a destruir vidas a outras pessoas. As mulheres são as mais prejudicadas e é à custa desse sofrimento que muitas destas são hoje empreendedoras em Portugal.

Quais as características que destaca como as mais importantes para um líder? É possível trabalhar e desenvolver essas características, ou muito já deve ser intrínseco da pessoa?

Ter uma visão estratégica, ser capaz de tomar decisões, ter capacidade de se adaptar, ser criativo, ser capaz de inspirar confiança, ser humilde e saber colocar-se no lugar dos outros, gostar de aprender, entre outras, claro.
Algumas características trabalham-se com a experiência e com os obstáculos que a vida nos coloca. Mas acho que há pessoas com apetência para liderar desde muito novas.

Este projeto começou também focado na importância de não deixar perder doçarias históricas e as profissões por detrás delas…

É precisamente para perpetuar estas receitas, contribuindo para a sustentabilidade das mesmas e ajudando estes tão nobres artesãos, espalhados pelo nosso país e que na maioria são mulheres, que com tanta dificuldade vão
mantendo as tradições. Sinto uma enorme felicidade quando faço uma compra avultada e vejo as caras felizes das pasteleiras que devem pensar que os seus esforços valeram a pena e vão estar representadas na capital.

Selecionei um conjunto de doces – já vou nuns 180 – representativos de cada região, independentemente da época em que foram criados.
É importante salientar que estes doces são artesanais e mesmo que sejam originários de uma aldeia recôndita, o custo deles é bastante mais elevado dos que são comprados em empresas globalizadas. Muitos destes produtores
não fazem revenda, e então tenho que comprar ao preço de balcão.

Como foi feito este trabalho de recolha de informação sobre a pastelaria mais marcante do país e como foi possível, depois, juntá-la num espaço como a Casa São Miguel?

Este trabalho de recolha tem por base uma investigação profunda, procurando em livros, na internet e também é baseado em estudos já feitos e ainda falando com pessoas nas aldeias, confirmando o que li.

Tenho uma grande preocupação com a origem da receita escolhida, e tento que nela esteja incluído o produto endógeno de cada região.

No vosso caso, existe ainda a preocupação com o ambiente?

Sim, claro que tenho essa preocupação. São muito poucos os fornecedores que me entregam produtos na porta, uma vez que quero ter uma oferta diferenciada e única em Lisboa. Não vou contar qual o segredo para os obter,
mas garanto que são trazidos em viagens que já têm como destino Lisboa. O maior desafio é gerir essas viagens face às necessidades de produto na loja e ao espaço de que disponho, pois tenho que fazer as encomendas de forma
a ter os bolos em regime de rotação.

Que mensagem passa a esta nova geração que aspira alcançar o mesmo sucesso, ainda por cima numa área tão exigente?

Gerir um negócio requer muito trabalho e sacrifício, portanto é preciso estar muito comprometida, apaixonada e focada pela área onde se quer lançar. É preciso ter consciência que o sucesso pode ser momentâneo e o seu negócio pode ser uma moda passageira, por isso é preciso ter a capacidade de se adaptar ou ter um plano B. Tenham sempre muita humildade e pouco deslumbramento. É preciso saber onde pretendem chegar e que público
pretendem alcançar. Estudem bem o mercado onde se querem lançar. Tenham a capacidade de se adaptar às adversidades, porque essas vão sempre aparecer. Não desistam das vossas ideias e acreditem nelas. Invistam
em formação. Façam muito “networking”. Pesquisem muito do que se faz noutros países em negócios semelhantes. Não dependam de ninguém emocionalmente ou monetariamente. Rodeiem-se de pessoas boas e por favor ignorem as vozes “sábias” de quem vos quer ver derrotadas!