Conquistar espaço sem perder a identidade

Num percurso marcado por diferentes experiências na advocacia, Luísa da Silva Rodrigues descobriu que afirmar-se profissionalmente não implica assumir uma postura mais dura. Implica preparação, confiança e a capacidade de defender uma posição sem abdicar da própria identidade.

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O seu percurso cruza diferentes realidades da advocacia, desde sociedades de advogados a funções in-house. Que experiências foram mais determinantes para definir a advogada que é hoje?
Não consigo identificar um único momento de viragem, mas uma mudança de perspetiva. No início, a preocupação era dominar a lei e encontrar a resposta certa. Com o tempo, percebi que isso era apenas uma parte do trabalho. As sociedades deram-me rigor técnico. O contexto in-house obrigou-me a aproximar o Direito da realidade: perceber o negócio, antecipar problemas, gerir risco e perceber que uma boa resposta tem de funcionar também fora do papel. O Direito raramente aparece organizado por códigos. Os problemas chegam misturados, com pessoas, dinheiro e consequências. É aí que a advocacia se torna mais interessante: saber não apenas o que diz a lei, mas o que fazer com ela.

Ao acompanhar empresas e particulares em matérias distintas, como identifica o verdadeiro problema jurídico de um cliente e transforma uma questão complexa numa solução concreta e eficaz?
Desconfio sempre um pouco da primeira pergunta que me fazem. Muitas vezes, aquilo que o cliente apresenta como «o problema jurídico» é apenas a parte visível de uma questão maior. Antes da análise, tenho de perceber o que aconteceu, o que se pretende e o que está realmente em jogo. Um advogado tem de distinguir complexidade de complicação. A primeira faz parte do trabalho; a segunda não.

Procuro separar o essencial do acessório, testar as possibilidades e perceber as suas consequências. O objetivo é que uma questão que começou por parecer difusa passe a ter contornos claros e uma solução concretamente aplicável.

Que desafios sentiu enquanto mulher e profissional e de que forma aprendeu a lidar com eles?
Um dos desafios, sobretudo sendo jovem, é conquistar autoridade antes de acumular a experiência que normalmente lhe associamos. Há momentos em que sinto que tenho de provar mais e conquistar uma confiança que, noutros contextos, talvez fosse presumida. Aprendi, porém, que não preciso de ser mais dura para ser levada a sério: posso ser exigente, discordar e defender uma posição sem deixar de ser quem sou. Continuo também a não deixar que o receio de falhar seja maior do que a vontade de tentar. Tenho muitas ideias e nem sempre sei onde vão dar, mas acredito que uma carreira se constrói assim: avançando, experimentando e aprendendo.

Olhando para os próximos anos, que tipo de advocacia quer construir?
Uma antiga colega dizia muitas vezes, em tom de brincadeira, que «o Direito é muito lindo» e concordo absolutamente com ela! É fascinante como a mesma norma, facto ou problema pode ser visto de formas diferentes, dependendo do lado em que estamos. É também, por vezes, profundamente exasperante. Basta um argumento novo ou uma circunstância que não tínhamos considerado para mudar completamente a análise. Talvez seja essa incerteza que o torne interessante. Nos próximos anos, quero continuar a avançar, seguir as muitas ideias que tenho e aceitar desafios que me obriguem a sair do que conheço. Se daqui a alguns anos o Direito ainda me surpreender, estarei no caminho certo.