O seu percurso cruza diferentes realidades da advocacia, desde sociedades de advogados a funções in-house. Que experiências foram mais determinantes para definir a advogada que é hoje?
Não consigo identificar um único momento de viragem, mas uma mudança de perspetiva. No início, a preocupação era dominar a lei e encontrar a resposta certa. Com o tempo, percebi que isso era apenas uma parte do trabalho. As sociedades deram-me rigor técnico. O contexto in-house obrigou-me a aproximar o Direito da realidade: perceber o negócio, antecipar problemas, gerir risco e perceber que uma boa resposta tem de funcionar também fora do papel. O Direito raramente aparece organizado por códigos. Os problemas chegam misturados, com pessoas, dinheiro e consequências. É aí que a advocacia se torna mais interessante: saber não apenas o que diz a lei, mas o que fazer com ela.
Ao acompanhar empresas e particulares em matérias distintas, como identifica o verdadeiro problema jurídico de um cliente e transforma uma questão complexa numa solução concreta e eficaz?
Desconfio sempre um pouco da primeira pergunta que me fazem. Muitas vezes, aquilo que o cliente apresenta como «o problema jurídico» é apenas a parte visível de uma questão maior. Antes da análise, tenho de perceber o que aconteceu, o que se pretende e o que está realmente em jogo. Um advogado tem de distinguir complexidade de complicação. A primeira faz parte do trabalho; a segunda não.
Procuro separar o essencial do acessório, testar as possibilidades e perceber as suas consequências. O objetivo é que uma questão que começou por parecer difusa passe a ter contornos claros e uma solução concretamente aplicável.
Que desafios sentiu enquanto mulher e profissional e de que forma aprendeu a lidar com eles?
Um dos desafios, sobretudo sendo jovem, é conquistar autoridade antes de acumular a experiência que normalmente lhe associamos. Há momentos em que sinto que tenho de provar mais e conquistar uma confiança que, noutros contextos, talvez fosse presumida. Aprendi, porém, que não preciso de ser mais dura para ser levada a sério: posso ser exigente, discordar e defender uma posição sem deixar de ser quem sou. Continuo também a não deixar que o receio de falhar seja maior do que a vontade de tentar. Tenho muitas ideias e nem sempre sei onde vão dar, mas acredito que uma carreira se constrói assim: avançando, experimentando e aprendendo.
“Aprendi que não preciso de ser mais dura para ser levada a sério: posso ser exigente, discordar e defender uma posição sem deixar de ser quem sou”
Olhando para os próximos anos, que tipo de advocacia quer construir?
Uma antiga colega dizia muitas vezes, em tom de brincadeira, que «o Direito é muito lindo» e concordo absolutamente com ela! É fascinante como a mesma norma, facto ou problema pode ser visto de formas diferentes, dependendo do lado em que estamos. É também, por vezes, profundamente exasperante. Basta um argumento novo ou uma circunstância que não tínhamos considerado para mudar completamente a análise. Talvez seja essa incerteza que o torne interessante. Nos próximos anos, quero continuar a avançar, seguir as muitas ideias que tenho e aceitar desafios que me obriguem a sair do que conheço. Se daqui a alguns anos o Direito ainda me surpreender, estarei no caminho certo.











